Johnson… nem casa nem caminhão

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Nas arquibancadas do Estádio das Laranjeiras, o corpulento Ovídio estava aflito com o desempenho do seu Fluminense diante do modesto quadro do Sport Club Mangueira.

Como se não bastasse o jogo terrivelmente truncado, um torcedor do Mangueira parecia disposto em continuar disparando cusparadas certeiras nos jogadores do Fluminense.

Foi o suficiente para Ovídio iniciar uma distribuição de bofetes no inconveniente sujeitinho, que totalmente abatido foi de maca para a enfermaria do clube com o supercílio aberto!

Do infeliz entrevero nasceu o curioso apelido de “Tapa-Olho”, o que transformou o humilde servente de pedreiro Ovídio em um dos mais populares torcedores do garboso tricolor carioca.

Entre tantas narrativas para a indicação do “Tapa-Olho” ao grupo de funcionários do Fluminense, o Jornal Correio da Manhã descreve que Ovídio foi encaminhado inicialmente para fazer serviços gerais no clube.

Johnson trabalha duro na massagem de preparação do zagueiro Domingos da Guia. Crédito: revista Esporte Ilustrado.

Pelo Flamengo, não faltaram títulos em várias modalidades esportivas! Crédito: revista Mengo 70 número 4.

Até que, de tanto observar o trabalho do conceituado massagista Petersen, o audacioso Ovídio prontamente ofereceu ajuda. Afinal, o referido profissional ficava visivelmente exausto com a árdua tarefa.

Surpreendido, Petersen achou graça na ingenuidade do servente de pedreiro, mas por fim concordou em multiplicar um pouco de seu vasto conhecimento!

O próximo passo foi escolher um nome mais adequado, algo melhor do que ser chamado apenas de “Tapa-Olho”, um apelido que em nada representava o ambiente sempre aristocrático do time das Laranjeiras.

Assim foi o início da caminhada esportiva do massagista “Johnson”, um nome oriundo do famoso boxeador norte-americano Jack Johnson, o primeiro negro campeão mundial dos pesos pesados.

Mais conhecido no mundo do futebol como “Johnson”, Ovídio Dionísio nasceu no município de Barra Mansa (RJ), em 15 de junho de 1897.

Em recuperação de uma fratura em 1946, Zizinho recebe os cuidados do massagista Johnson na presença do goleiro Luíz Borracha. Crédito: albumdosesportes.blogspot.com.

O escrete em 1949. Em pé: Eli do Amparo, Augusto, Mauro Ramos de Oliveira, Danilo, Barbosa, Noronha e o massagista Johnson. Agachados: Massagista Mário Américo, Tesourinha, Zizinho, Ademir, Jair e Simão. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 580 – 19 de maio de 1949.

No começo, só algumas massagens esporádicas e supervisionadas por Petersen, que sabia que muitos jogadores temiam cair nas mãos enormes e fortes de Johnson.

O tricampeonato carioca de 1917, 1918 e 1919 rendia boas gratificações para Johnson, um homem feliz que recebia reconhecimento, roupas elegantes e 10 tostões por massagem.

Um dia a onda de felicidade murchou e o Fluminense não colocava mais medo em ninguém! Cabeça quente, Johnson não suportava mais engolir calado tantos desaforos desmedidos.

Colocou o chapéu na cabeça e saiu pela Rua Álvaro Chaves. Só parou em um boteco para tomar um cafezinho e refletir na proposta do Doutor Edgard de Vasconcelos: Então Johnson, posso contar com você no atletismo do Flamengo?

Com o tempo, Johnson deixou o departamento de futebol do Fluminense. Agora era Flamengo em tudo; no atletismo, na natação, no remo e mais tarde também no futebol.

Na estância hidromineral de São Lourenço (MG), Johnson aparece ao lado de Adãozinho, um dos raros momentos de folga nos treinos do escrete! Crédito: revista O Globo Sportivo número 639.

Lembrança triste deve ser como a fumaça do meu cachimbo! Johnson não gostava de falar no triste malogro na Copa do Mundo de 1950. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 756 – 2 de outubro de 1952.

Conquistou muito respeito na Gávea. Seu trabalho foi determinante no ambiente positivo para a conquista do campeonato carioca nas edições de 1939, 1942, 1943 e 1944.

Lembrado pelo técnico Flávio Costa, com quem trabalhou no Flamengo, Johnson voltou novamente ao corpo técnico da então CBD – Confederação Brasileira de Desportos, um vínculo iniciado na década de 1930.

Na grande campanha da Copa do Mundo de 1950, Johnson não foi o único a sonhar com o dinheiro da premiação diante do Uruguai, no último compromisso do quadrangular final da competição.

Contudo, os planos para comprar um caminhão usado morreram naquele chute esquisito e minguado do uruguaio Alcides Ghiggia. Vida que segue, Johnson continuou no futebol até 1953.

O presidente do Flamengo Gilberto Cardoso prometeu uma casa nova e Johnson esperou! Aposentado, o ex-massagista passou os últimos anos de vida em uma propriedade modesta na Rua Tavares Bastos, no bairro do Catete.

Admirador do trabalho do técnico Fleitas Solich, Johnson era muito próximo do colega Mário Américo. Crédito: revista do Esporte.

Brincalhão e comunicativo, Johnson raramente ficava sozinho! Crédito: revista do Esporte.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar, revista A Gazeta Esportiva Ilustrada, revista do Esporte, revista Esporte Ilustrado (por Alberto Ferreira, Leunam Leite, Levy Kleiman, Luís Mendes e Veritas Júnior), revista Grandes Clubes Brasileiros, revista Mengo 70, revista O Globo Sportivo, revista O Cruzeiro, Jornal Correio da Manhã (por Alcimar Rocha), Jornal dos Sports, Jornal O Globo, albumdosesportes.blogspot.com, campeoesdofutebol.com.br, site do Milton Neves (por Marcelo Rozenberg), Livro: Histórias do Flamengo – Mário Filho – Editora Mauad X.