Mendonça Falcão… o bandeirinha sumiu

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Raramente os cartolas do mundo do futebol são reconhecidos publicamente pelo trabalho positivo nos clubes ou federações.

Quase sempre, os dirigentes são alvo de notícias intermitentes e sensacionalistas, que raramente são acompanhadas das devidas comprovações.

Com João Mendonça Falcão, em especial, o repertório de denúncias, nunca provadas, sempre fizeram parte do noticiário do futebol nos anos dourados.

Em 1970 a revista Placar publicou uma matéria especial sobre sua saída do cargo de presidente da Federação Paulista de Futebol, na antiga sede da Avenida Brigadeiro Luís Antônio.

Em páginas de borda preta, Mendonça Falcão foi retratado como um autêntico vilão, um homem que fez da Federação seu escritório político e de cada funcionário um autêntico cabo eleitoral.

Crédito: revista Placar.

Crédito: revista Placar.

Criticado e elogiado, temido e respeitado, em quinze anos Mendonça Falcão nunca encontrou adversários nas eleições e sempre foi eleito por aclamação.

Ainda, conforme o artigo da revista, ao longo de seus mandatos na Federação, Mendonça Falcão criou cargos e nomeou amigos. Perseguiu vários clubes enquanto favoreceu outros poucos.

No entanto, a importante revista não apresentou nenhum documento que pudesse autenticar o repertório de acusações apresentados naquela edição.

A verdade é que Mendonça Falcão foi um administrador útil sem ser perfeito. Um homem de coragem que sempre defendeu o interesse dos paulistas na antiga CBD (Confederação Brasileira de Desportos).

“Antes dele, os cariocas deitavam e rolavam nas decisões sobre mandos de jogo, julgamentos de jogadores e elaboração de tabelas”, afirmava Wadih Helu, então presidente do Corinthians naquela oportunidade.

A antiga sede da Federação Paulista de Futebol, na Avenida Brigadeiro Luís Antônio. Crédito: revista Placar – 22 de janeiro de 1982.

Conforme publicado na revista Placar de 15 de janeiro de 1971, Mendonça Falcão viajou inúmeras vezes para acompanhar os clubes paulistas nos confrontos decisivos do Torneio Robertão nos anos sessenta.

Passando a mão pelo queixo barbeado, o pensativo Mendonça Falcão revelou:

– Os paulistas podem ser derrotados no campo, mas não serão prejudicados nos bastidores por ninguém.

Filho de Eduardo Mendonça Falcão e de Carmina Augusta, João Mendonça Falcão nasceu no bairro do Brás, na capital paulista, em 4 de janeiro de 1918.

Na juventude foi goleiro do Clube Atlético Flor do Brás e trabalhou como motorneiro de bondes elétricos e funcionário da empresa de energia Light.

Crédito: revista Placar – 22 de janeiro de 1982.

Presidiu o Sindicato dos Eletricitários de São Paulo na primeira metade da década de quarenta. Ingressou depois na política como deputado estadual em 1950, pela legenda do Partido Social Progressista (PSP).

Reeleito como deputado em 1954, sua trajetória como dirigente esportivo foi iniciada em 1955, quando sucedeu Mário Frugiuelle no comando da Federação Paulista de Futebol, função que desempenhou até 1970.

Em 1957 foi designado como delegado da CBD (Confederação Brasileira de Desportos), cargo que ocupou até 1963. Nesse período foi também presidente do Conselho Nacional dos Desportos.

Nos pleitos de 1958 e 1962 foi reeleito deputado estadual pela legenda do PST. Com a extinção dos partidos políticos pelo Ato Institucional número 2, Mendonça Falcão filiou-se ao MDB (Movimento Democrático Brasileiro).

Pelo MDB foi reeleito pela quinta vez consecutiva no pleito de novembro de 1966. Acusado de tráfico de influência, o dirigente teve seu mandato cassado após decretação do Ato Institucional número 5 em 1968.

Em partida da seleção paulista no Maracanã, vemos Chinesinho, Julinho Botelho e Mendonça Falcão. Crédito: revista A Gazeta Esportiva Ilustrada número 155 – Março de 1960.

O presidente Antônio do Passo (Federação Carioca) e Mendonça Falcão (Federação Paulista). Crédito: revista do Esporte número 89 – Novembro de 1960.

Com vida política sempre atuante, Mendonça Falcão continuou ocupando vários cargos públicos e políticos até o ano de 1987.

Assumiu por poucos meses a Secretaria Municipal de Esportes de São Paulo durante o governo de Jânio Quadros (1986-1989). Por motivos de saúde, Mendonça Falcão retirou-se da vida pública no final dos anos oitenta.

Mas foi no palco do futebol que seu nome ganhou destaque popular. Na década de cinqüenta o Jornal Mundo Esportivo publicou uma infinidade de matérias sobre seu trabalho na Federação.

O periódico paulista criticava com veemência os gastos em suas viagens e cobrava mais austeridade nos combalidos cofres da Federação, socorridos constantemente por empréstimos bancários.

Mendonça Falcão também era um mestre nos bastidores dos clubes, do selecionado paulista e do escrete canarinho.

Paulo Machado de Carvalho e João Mendonça Falcão. Crédito: site do Milton Neves.

Em 26 de março de 1959 pelo campeonato Sul-Americano, o pau quebrou na tumultuada vitória canarinho por 3×1 diante do Uruguai, partida realizada no estádio Monumental de Nuñez – Crédito: revista Placar – 22 de fevereiro de 1980.

Em 1962 Mendonça Falcão viajou ao Chile como convidado de honra. Na vitória do Brasil sobre o Chile por 4×2, Garrincha foi expulso de campo junto com o chileno Honorino Landa.

Como não existia suspensão automática, Landa foi afastado da próxima partida pelo tribunal da FIFA, enquanto que o árbitro Arturo Yamasaki não relatou ter notado qualquer irregularidade cometida pelo brasileiro.

Então, alertados pelos chilenos, os homens da FIFA convocaram o bandeirinha uruguaio Esteban Mariño para depor.

Como o bandeirinha não foi encontrado em lugar nenhum, o tribunal inocentou Garrincha por falta de provas para participar da final da Copa do Mundo.

Apesar do envolvimento conhecido de João Hetzel no esquema do desaparecimento de Esteban Mariño, Mendonça Falcão teria colocado o uruguaio rapidamente em um avião direto para Paris.

O hábil presidente da Federação Paulista de futebol. Crédito: revista Veja.

Além disso, Esteban Mariño também foi o bandeirinha na partida contra a Espanha, quando o Brasil venceu por 2×1, o jogo do polêmico pênalti de Nilton Santos.

No cenário doméstico, graças ao tino político de Mendonça Falcão, Gimenez Lopes e Delphino Facchina deixaram diferenças de lado e entraram em acordo, o que trouxe paz no ambiente interno Palmeiras.

Entre tantas passagens e manobras de bastidores voltamos ao ano de 1967.

Em 17 de dezembro no Pacaembu, o São Paulo amargou um empate em 1×1 com o Corinthians. Com esse resultado, o caminho do título ficou complicado para o time do Morumbi.

Paralelamente, o Santos esperava pelo resultado de um recurso promovido nos tribunais contra o Comercial de Ribeirão Preto, procedente da partida interrompida por falta de garantias na segurança.

João Havelange e Mendonça Falcão. Crédito: Gazeta Esportiva.

Fatalmente, o Santos ganharia esse ponto da partida contra o Comercial e seria o campeão paulista com um ponto na frente do São Paulo.

Então, o presidente Mendonça Falcão entrou em ação. Imediatamente tratou de convencer os dirigentes santistas para retirar o recurso da partida contra o Comercial.

Assim, com o empate em número de pontos na tabela de classificação, o campeonato teria que ser decidido em uma partida “extra” entre Santos e São Paulo, o que financeiramente seria muito atraente para todos os envolvidos.

O Santos concordou em jogar a partida “extra” e venceu o São Paulo por 2×1, ficando assim com o caneco da temporada.

O hábil e estrategista João Mendonça Falcão faleceu cidade de São Paulo, no dia 13 de janeiro de 1997.

Crédito: revista Placar 15 de janeiro de 1971.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Carlos Maranhão, Paulo Matiussi, Ronaldo Kotcho e Marco Aurélio Borba), revista do Esporte, revista Esporte Ilustrado, revista A Gazeta Esportiva Ilustrada, revista Veja, Jornal Mundo Esportivo, Jornal A Noite Esportiva, Jornal Correio da Manhã, Gazeta Esportiva, Livro: Uma História das Copas do Mundo, futebol e sociedade – Airton de Farias – Editora Armazém da Cultura, campeoesdofutebol.com.br, fgv.br, site do Milton Neves (por Marcelo Rozenberg).