Trindade… charutos para comemorar

Tags

, , ,

Imagem2

Com altura mediana e formas avantajadas, um jovem senhor caminha apressadamente pela movimentada Avenida Rangel Pestana. Bem vestido, bigodinho fino e aparado, o vento parece não fazer efeito nos cabelos impecavelmente penteados para trás.

Alfredo Ignácio Trindade nasceu em 1908, no bairro do Pari em São Paulo. Criado na Rua Rio Bonito, o gordinho Trindade não levava jeito para o futebol. Insistia, tentava fazer o melhor, mas sempre era escolhido por último antes do início das habituais peladas.

Alegre, rodeado de amigos e com um talento notável para a oratória, sua juventude era dividida entre os bancos escolares e sua paixão pelo Corinthians.

Crédito: revista Placar.

Crédito: revista Placar.

Contador formado, o sempre emotivo Trindade fez carreira na SKF, uma empresa sueca no segmento de rolamentos.

Colaborador na gestão do presidente Manuel Correcher, quando o Corinthians conquistou seu primeiro campeonato profissional em 1937, Trindade dedicava grande parte de seu tempo nas coisas referentes ao clube.

Assumiu o cargo de presidente pela primeira vez em 1944. Saiu em 1947 e retornou em 1949, realizando um trabalho significativo na recuperação das finanças e administração do patrimônio.

Mas o que Trindade gostava mesmo era escapar de seu gabinete na Avenida Rangel Pestana para assistir os treinamentos do time lá no gramado da Fazendinha. Dizia que não estava lá para dar palpites e coisa e tal…

Trindade deixava seu gabinete e vivia no Parque São Jorge. Crédito: revista do Corinthians.

Trindade deixava seu gabinete e vivia no Parque São Jorge. Crédito: revista do Corinthians.

Crédito: revista Placar – 11 de dezembro de 1981.

Crédito: revista Placar – 11 de dezembro de 1981.

Se por um lado o quadro associativo estava feliz e ansioso pela inauguração do moderno Parque Aquático, o torcedor comum era só descontentamento.

Com o último campeonato paulista conquistado no distante ano de 1941, Trindade não suportava mais testemunhar o domínio do Palmeiras e do São Paulo.

A geração de Touguinha, Belfare, Nelsinho e Domingos da Guia já sinalizava seu compreensível desgaste.

Então, em 1949, Trindade bancou um boa reformulação no elenco promovendo jogadores como Idário, Luizinho, Roberto Belangero e o goleiro Cabeção, o reserva imediato do titular Bino.

Um trabalho significativo na gestão e ampliação do patrimônio Crédito: revista do Corinthians número 26 – Dezembro de 1951.

Um trabalho significativo na gestão e ampliação do patrimônio Crédito: revista do Corinthians número 26 – Dezembro de 1951.

O parque aquático, grande orgulho de sua administração. Crédito: revista do Corínthians número 25 - Novembro de 1951.

O parque aquático, grande orgulho de sua administração. Crédito: revista do Corínthians número 25 – Novembro de 1951.

O título do Torneio Rio-São Paulo de 1950 desafogou um pouco o sofrimento da Fiel Torcida. Trindade continuou trabalhando e definitivamente assumiu seu lado emotivo.

Cada vez mais, entregava os afazeres burocráticos ao assistente Antônio Dourado ou ao diretor de patrimônio, Joaquim Tomé Filho. Rapidamente, embarcava ofegante em seu Chevrolet com destino ao estádio do Pacaembu.

Entrava no vestiário e participava de tudo. Ao contrário da habitual prudência no comando das coisas do clube, Trindade mostrava seu lado de torcedor abnegado com discursos inflamados, principalmente quando o placar apontava um resultado desfavorável.

– Quero garra, luta… Existem milhares de torcedores grudados em seus aparelhos de rádio esperando por uma vitória. São eles que pagam nosso salário. 

Crédito: Jornal Mundo Esportivo – Edição Extra – 28 de fevereiro de 1955.

Crédito: Jornal Mundo Esportivo – Edição Extra – 28 de fevereiro de 1955.

Astuto, Trindade também usava da grande dedicação do lateral direito Idário, que mesmo contundido, escondia suas dores e feridas do departamento médico para poder ser escalado.

Então, Trindade pegava nas mãos o distintivo da camisa suada por Idário e mostrava ao restante do elenco.

Enquanto os jogadores subiam para encarar o segundo tempo e tentar virar o marcador, Trindade os seguia pelo túnel da escadaria que dava acesso ao gramado e gritava: Vai Corinthians! 

A antiga escadaria que dava acesso ao gramado do estádio do Pacaembu: Vai Corinthians! Crédito: Jornal Mundo Esportivo.

A antiga escadaria que dava acesso ao gramado do estádio do Pacaembu: Vai Corinthians! Crédito: Jornal Mundo Esportivo.

Em entrevista ao Jornal Mundo Esportivo, Trindade relatou o que sentia nos momentos em que acompanhava os jogadores até o gramado:

– Deixo o vestiário trêmulo, mas confiante. Os degraus para entrar no gramado são longos e desafiadores. Rezo uma prece e mergulho em silêncio perguntando sobre o que nos espera, “glória ou inferno”? 

O técnico Brandão, conhecedor das manobras motivacionais de Trindade, não se sentia invadido em seu trabalho. Pelo contrário, até tirava proveito da colaboração apaixonada e desmedida do presidente que só faltava entrar em campo para jogar.

O hábito de fumar charutos ofereceu identidade ao período marcado por triunfos e grandes conquistas. Trindade carregou taças em conjunto com os jogadores, deu voltas olímpicas, chorou, enfrentou torcedores e os homens da federação, xingou e foi xingado.

Os charutos do presidente Trindade: Símbolo de um periodo de grandes conquistas. Crédito: revista do Corinthians número 35 – Setembro de 1952.

Os charutos do presidente Trindade: Símbolo de um periodo de grandes conquistas. Crédito: revista do Corinthians número 35 – Setembro de 1952.

Em uma época onde os jogadores eram um grande patrimônio nos clubes, Trindade era hábil para contratar e inflexível para negociar seus pupilos:

– Se eu vender Luizinho a torcida me mata e coloca fogo no Parque São Jorge!

E os títulos, antes distantes, foram se acumulando na sala de troféus:

Campeão paulista de 1951, 1952 e 1954 (Quarto Centenário da cidade de São Paulo), vice-campeão da segunda edição da Copa Rio em 1952, campeão da pequena Taça do Mundo de 1953, disputada na Venezuela, Taça “Mais Querido do Brasil” em 1955, Torneio Internacional Charles Miler em 1955, Taça dos Invictos em 1956 e 1957 (posse definitiva), Torneio Rio-São Paulo 1950, 1953, 1954 e o Torneio de Brasília, disputado em Goiânia em 1958.

Crédito: Jornal Mundo Esportivo – Edição Extra – 28 de fevereiro de 1955.

Crédito: Jornal Mundo Esportivo – Edição Extra – 28 de fevereiro de 1955.

Os guerreiros do presidente Trindade, campeões do Quarto Centenário da cidade de São Paulo. Partindo da esquerda, Gylmar, Rafael, Goiano, Baltazar, Homero, Alan, Idário, Roberto Belangero, Simão, Luizinho, Cláudio e o técnico Brandão. Crédito: Jornal Mundo Esportivo – Edição Extra – 28 de fevereiro de 1955.

Os guerreiros do presidente Trindade, campeões do Quarto Centenário da cidade de São Paulo. Partindo da esquerda, Gylmar, Rafael, Goiano, Baltazar, Homero, Alan, Idário, Roberto Belangero, Simão, Luizinho, Cláudio e o técnico Brandão. Crédito: Jornal Mundo Esportivo – Edição Extra – 28 de fevereiro de 1955.

Em por falar em 1958, Vicente Matheus, antes diretor de futebol do clube, acabou unindo forças com Wadih Helu com o propósito de destronar Alfredo Ignácio Trindade, que ainda contava com grande prestígio.

Então, aconteceram mudanças nos estatutos do clube e os sócios puderam votar para eleger um novo presidente.

Com promessa de reformar o Parque São Jorge, construir um moderno ginásio de esportes, ampliar o conjunto de piscinas, fortalecer os esportes amadores e contratar grandes jogadores, Vicente Matheus conseguiu vencer a eleição e foi proclamado como o novo presidente do Corinthians.

Crédito: Jornal Mundo Esportivo – Terça Feira, 25 de setembro de 1956.

Crédito: Jornal Mundo Esportivo – Terça Feira, 25 de setembro de 1956.

Em depoimento ao programa Roda Viva da TV Cultura em 20 de abril de 1987, Vicente Matheus falou um pouco sobre os motivos que o levaram ao gabinete presidencial do Corinthians em 1959:

… É, eu conheci o Alfredo Trindade, não sei se alguém daqui o conheceu… Ele foi um grande presidente do Corinthians enquanto não participou na política…

… Depois, ele quis ser vereador, deputado e coisa e tal. Aí, o Corinthians não foi mais o mesmo… E por quê? Porque aí vêm os pedidos, até para o time jogar de graça em favor desse ou daquele… 

Crédito: Jornal Mundo Esportivo.

Crédito: Jornal Mundo Esportivo.

Trindade continuou sua vida paralela na política e no Corinthians. Mesmo não ocupando mais o posto de presidente, vivia dentro do clube e participava ativamente colaborando nos bastidores juntos aos conselheiros.

Pouco se sabe sobre a continuidade de sua vida profissional e pessoal. Até mesmo o seu falecimento está registrado em poucas literaturas, com divergências entre os anos de 1966 e 1969.

Até hoje, os antigos torcedores enchem o peito de orgulho ao falar da trajetória vencedora de Alfredo Ignácio Trindade, um dirigente marcante na história do Corinthians.

O trabalho na Câmara Municipal de São Paulo. Crédito: 2.camara.sp.gov.br.

O trabalho na Câmara Municipal de São Paulo. Crédito: 2.camara.sp.gov.br.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto:  revista Placar, revista do Esporte, revista Esporte Ilustrado, revista O Cruzeiro, revista do Corinthians, revista Grandes Clubes Brasileiros, Jornal Mundo Esportivo, Jornal A Gazeta Esportiva, citadini.com.br, Livro: Corinthians – O Time do Povo – André Martinez – Editora Lafonte, Livro: Timão 100 anos – Celso Dario Unzelte – Ed. Gutenberg, 2.camara.sp.gov.br, campeoesdofutebol.com.br, historiasdopari.wordpress.com, corinthians.com.br, rodaviva.fapesp.br.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 232 outros seguidores