Zezé… jogar futebol, um recreio para poucos  

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Em maio de 1974, um tímido rapaz chegou ao Rio de Janeiro para tentar a sorte no refinado ambiente das Laranjeiras.

Em pouco tempo, o técnico João Carlos Batista Pinheiro já apostava que o mineirinho Zezé seria uma das grandes estrelas do futebol brasileiro: Esse garoto vai longe!

Filho de José Gouvêa Leite e Nilza da Silva Gouvêa, Antônio José da Silva Gouvêa, o popular Zezé, nasceu no dia 30 de junho de 1957, na cidade de Recreio (MG).

Na infância, o pequeno Zezé vivia correndo atrás da bola nas peladas da então “Pracinha do Cruzeiro”. Na adolescência, Zezé foi encaminhado para os quadros amadores do Ideal Esporte Clube.

Crédito: revista Placar – 5 de agosto de 1977.

Quem levou Zezé para o Fluminense foi Mirinho, um ex-lateral direito que na época trabalhava como treinador no Nacional de Muriaé (MG).

Em 1975, quando jogava pelo Juvenil do Fluminense, Zezé sofreu uma grave contusão no joelho esquerdo, o que lhe custou três meses no gesso e um medo terrível de nunca mais ser o mesmo.

Quando voltou aos gramados, o serviço militar obrigatório cobrou seu preço e Zezé ficou impossibilitado de correr atrás do tempo perdido.

Apesar de tantos contratempos e tantas incertezas, o destino se apresentou um tanto generoso em 1977, ano em que também conquistou a Taça São Paulo de futebol Júnior.

Depois da saída de Mário Travaglini, Pinheiro assumiu o comando do time principal e não se esqueceu do jovem “mirradinho” e habilidoso, que sempre encantou pelo futebol atrevido.

Crédito: revista Placar – 5 de agosto de 1977.

Crédito: albumefigurinhas.no.comunidades.net.

O primeiro contrato profissional rendeu apenas boas promessas e um salário irrisório, com valores fixados em 5.000 cruzeiros.

Zezé fazia parte de uma diminuta casta de ponteiros dribladores, algo que naqueles tempos já dava os primeiros sinais que não duraria muito.

Embora o futebol de Zezé fosse vistoso e útil, seu repúdio em colaborar na marcação o prejudicou bastante ao longo da carreira.

– Não sei marcar e pronto! Futebol é uma coisa simples: Quem ataca é que deve ser marcado!

Mas existia algo que Zezé temia muito mais do que ajudar na marcação. Era seu medo quase incontrolável de viajar de avião.

Zezé parte sozinho para cima da defesa do Vasco. Crédito: revista Placar.

Crédito: revista Placar – 28 de outubro de 1977.

Em entrevista para a revista Placar, Zezé revelou que várias vezes sonhou que perderia a vida em um acidente aéreo.

Em 1978, por exemplo, Zezé contou que fez uma viagem que o apavorou. O episódio aconteceu durante uma violenta turbulência em um dos voos da ponte aérea Rio-São Paulo:

– Não consegui nem dormir direito. No dia seguinte fiquei em campo apenas 5 minutos. Minhas pernas tremiam tanto que pedi substituição.

Em maio de 1979, o técnico da Seleção Brasileira, Cláudio Coutinho, convocou Zezé para fazer parte do elenco canarinho na Copa América.

Seu primeiro título carioca aconteceu na temporada de 1980, quando o Fluminense levantou novamente o “caneco”, ausente do clube desde 1976.

Crédito: revista Placar – 9 de dezembro de 1977.

Robertinho, Cláudio Adão e Zezé. Crédito: revista Placar – 10 de outubro de 1980.

Em 1982 Zezé foi negociado com o Guarani Futebol Clube de Campinas (SP), onde formou uma linha de ataque de muito sucesso ao lado de Lúcio, Jorge Mendonça, Careca e Ernani Banana.

Mas o “Bugre” do técnico Zé Duarte parou na semifinal do campeonato brasileiro de 1982, ao ser eliminado pelo forte Flamengo de Zico por 3×2, em Campinas.

15 de abril de 1982 – Campeonato brasileiro – Semifinal – Guarani 2x3 Flamengo – Estádio Brinco de Ouro da Princesa – Árbitro: Carlos Sérgio Rosa Martins (RS) – Gols: Jorge Mendonça aos 3’ e Zico aos 22’ do primeiro tempo; Zico aos 3e aos 21e Jorge Mendonça aos 45’ do segundo tempo.

Guarani – Wendell, Rubens, Jaime, Édson e Almeida; Éderson, Jorge Mendonça e Banana; Lúcio, Careca e Zezé (Henrique). Técnico: Duarte. Flamengo – Raul, Leandro, Figueiredo, Marinho e Júnior; Andrade, Adílio e Zico (Vítor); Tita, Nunes e Lico. Técnico: Carpegiani.

O Fluminense campeão carioca de 1980. Crédito: revista Placar.

Crédito: revista Placar – 30 de janeiro de 1981.

Antes do início do segundo semestre, o técnico Zé Duarte desistiu do esquema ofensivo para o campeonato paulista. Então, deslocou Ernani Banana como falso ponteiro-esquerdo e Zezé perdeu seu lugar no time.

Mas, como desgraça pouca é bobagem, Zezé foi diagnosticado com problemas no coração durante exames de rotina. Aconselhado em deixar o futebol, Zezé contestou o resultado.

Diante de um impasse, os dirigentes do Guarani aceitaram uma proposta do Club de Regatas do Flamengo, que só topou seguir em frente depois da aceitação de um termo de responsabilidade do próprio jogador.

Com os direitos ainda presos ao Guarani, Zezé acertou seu empréstimo com o Flamengo. No entanto, o ponteiro esquerdo não se deu muito bem na Gávea e acabou no banco de reservas.

– Sou um ponta bem autêntico, mas o técnico Carpegiani prefere um homem que volte mais para buscar o jogo e ajude na marcação.

Da Seleção Brasileira ao banco de reservas do Flamengo. Crédito: revista Placar.

Depois do Flamengo, Zezé atuou ainda pelo Ceará (CE), América (MG), XV de Piracicaba (SP), Santo André (SP), Blumenau (SC), Ribeiro Junqueira (MG), Barra Mansa (RJ) e Paduano (RJ).

Ao deixar os gramados em 1992, Zezé trabalhou como treinador, vendedor de automóveis e como professor em escolinhas de futebol.

Morando em sua cidade Natal, Zezé faleceu vitimado por problemas cardíacos em 30 de dezembro de 2008, enquanto fazia sua costumeira caminhada matinal.

Em 2014 Zezé foi homenageado na cidade de Recreio com a inauguração de um busto, localizado na Praça Santo Antônio. Uma lembrança justa para quem sempre encarou o disputado mundo do futebol como um alegre recreio.

Careca, Ernani Banana e Zezé no Guarani de Campinas. Crédito: revista Placar – 12 de fevereiro de 1982.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Raul Quadros, Maurício Cardoso, Fábio Sormani e Milton Costa Carvalho), revista do Fluminense, revista Manchete Esportiva, campeoesdofutebol.com.br, site do Milton Neves, fluminense.com.br, jogosdoguarani.com, Almanaque do Flamengo – Roberto Assaf e Clóvis Martins, Livro: Seleção Brasileira 90 anos – Antonio Carlos Napoleão e Roberto Assaf, albumefigurinhas.no.comunidades.net.