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Para os rivais, um turrão ignorante e teimoso. Um cartola ardiloso e sem freios quando o assunto era favorecer os interesses do Corinthians.

Para os amigos, um apaixonado que colocava o clube acima de tudo. Amado e sempre questionado, Vicente Matheus permaneceu grande parte de sua vida no Parque São Jorge.

Filho de Luiz Mateos Valle e Manglória Mateos, o espanhol Vicente Mateos Valle, que naturalizado brasileiro adotou o nome de Vicente Matheus, nasceu na cidade de Zamora, em 28 de maio de 1908.

Vicente Matheus desembarcou no Brasil ainda criança. Sem tempo para estudar, o menino trabalhava duro na pequena pedreira do pai.

Foi na pavimentação da Rua São Jorge, que o jovem Vicente Matheus colocou os pés pela primeira vez no Parque São Jorge.

A carteirinha de sócio do Corinthians, ainda com o nome espanhol. Crédito: revista Placar – 5 de fevereiro de 1988.

Crédito: revista Placar – 10 de setembro de 1971.

Mais tarde criou um verdadeiro império ao fundar a Pavimentadora e Construtora Vicente Matheus Ltda, uma empresa com filiais em Arujá e Ribeirão Pires.

Aumentou consideravelmente o faturamento do grupo trabalhando com pedra britada, cimento, concreto armado, paralelepípedos e usinagem de asfalto.

Ético, honesto e dono de um faro diferenciado para os negócios, Matheus se passava por um mero inocente quando conveniente. 

Era uma verdadeira “raposa”, tanto na administração de suas empresas como também na presidência do Corinthians, que comandou em 8 mandatos: 1959, 1972, 1973, 1975, 1977, 1979, 1987 e 1989.

Mas para chegar ao cargo máximo no clube, Matheus enfrentou concorrentes de peso. Entre tantos adversários, os embates com Wadih Helu sempre renderam grande repercussão no clube e na imprensa.

Partindo da esquerda; Isidoro Matheus, Miguel Martinez e Vicente Matheus. Crédito: revista Grandes Clubes Brasileiros.

O guichê fechado para compras. O clube não é fabrica de dinheiro. Foto de Lemyr Martins. Crédito: revista Placar – 25 de agosto de 1972.

Conforme publicado pela revista Placar em 5 de março de 1971, o depoimento de Matheus ofereceu aos leitores uma dimensão exata desse sempre acalorado conflito de interesses:

– Wadih é um traidor que nunca me deixou em paz. Um homem que sempre me tentou me destruir. Ele nunca esteve do meu lado!

Centralizador e mão fechada, toda negociação de contrato era um tormento para qualquer jogador. Costumava dizer que o clube não era fábrica de dinheiro e que jogar pelo Corinthians já era um grande negócio para qualquer um.

Notabilizou-se pela busca do título do campeonato paulista, pelas “bombásticas” contratações e, principalmente, pela ideia fixa de construir um grande estádio que nunca saiu do papel.

Matheus passou por uma verdadeira “prova de fogo” quando decidiu vender o passe de Rivellino para o Fluminense, após perder o título paulista de 1974 para o Palmeiras.

Matheus e sua Mercedes Benz. Véspera da grande final do campeonato paulista de 1977. Foto de Carlos Namba. Crédito: revista Veja – 12 de outubro de 1977.

Matheus no Morumbi antes da segunda partida das finais do campeonato paulista de 1977. Crédito: revista Manchete Esportiva.

Vendeu um ídolo e fabricou tantos outros, ou pelo menos tentou!

Por uma verdadeira fortuna comprou o passe de Almir de Albuquerque em 1960. Considerado pela crítica como o “Pelé Branco”, Almir não rendeu o esperado e deixou o Parque São Jorge.

Campeão paulista de 1977, Matheus continuou apostando em grandes revelações ou em jogadores considerados “Fora de Série”, como foi o caso de Sócrates, emergente craque do Botafogo de Ribeirão Preto que quase foi parar no São Paulo.

Enquanto os dirigentes do São Paulo procuravam vender o volante Chicão para conseguir comprar o passe do “Magrão”, Matheus já estava em Ribeirão Preto.

Paralelamente, o irmão Isidoro Matheus costurava promessas vazias em uma reunião no Morumbi. Com Sócrates na bagagem, Isidoro recebeu um telefonema e desistiu imediatamente de Chicão.

A chegada de Sócrates ao Parque São Jorge. Crédito: Jornal A Gazeta Esportiva.

O zagueiro Amaral entre Isidoro Matheus e Vicente Matheus. Crédito: revista Placar.

Da mesma forma, apesar do interesse de muitos clubes, Matheus trouxe Zenon da Arábia Saudita em 1981.

Para tanto, o astucioso dirigente alvinegro conseguiu um empréstimo de 500.000 dólares com o Ministro da Fazenda Delfim Netto.

Matheus também era capaz de “dirigir” os olhos da imprensa e manipular tabelas de jogos em favor do Corinthians. Como fez no campeonato paulista de 1979, quando recusou uma rodada dupla marcada pela Federação Paulista.

– O Corinthians sozinho enche o Morumbi. Seremos prejudicados se dividir essa renda por quatro times. Por isso, não vou perder aproximadamente 300.000 cruzeiros por falta de planejamento da Federação.

O campeonato ficou parado e Matheus ganhou um tempo precioso para esfriar os adversários. É bem verdade que existiam riscos envolvidos nessa jogada, como por exemplo ter que indenizar os clubes envolvidos e os cofres da Federação Paulista.

Crédito: revista Placar.

Matheus calculou o prejuízo com rodada dupla e peitou o presidente da Federação Paulista, Nabi Abi Chedid. Crédito: revista Placar – 23 de novembro de 1979.

Com essa manobra que paralisou o campeonato de 1979, Matheus acabou eliminando o favorito Palmeiras de Telê Santana em janeiro de 1980, quando Biro Biro marcou o famoso gol de “canela”.

As frases folclóricas também são inesquecíveis, embora muitos afirmem que Matheus fazia isso propositalmente, como uma espécie de estratégia de Marketing pessoal:

– Comigo ou sem migo o Corinthians será o campeão… Haja o que hajar seremos os vencedores… O Sócrates é inegociável, invendável e imprestável… O difícil vocês sabem, não é fácil… Tive uma infantilidade muito pobre… Quem entra na chuva é para se queimar…

Vicente Matheus proporcionou momentos épicos na história do Corinthians, como o “chumbo” trocado com o presidente do Fluminense Francisco Horta, que culminou na famosa invasão do Maracanã em 1976.

Foto de Avanir Niko. Crédito: revista Placar – 5 de fevereiro de 1982.

Foto de Nelson Coelho. Crédito: revista Placar.

Entre tantas pelejas, Matheus bateu de frente com o movimento da Democracia Corinthiana:

– Primeiramente, gostaria de dizer que esse tal movimento de Democracia até que é bonitinho de escutar, mas só trouxe baderna dentro do clube. No fim do mês quem paga os compromissos é o talão de cheques do Corinthians!

Nos dias atuais, Vicente Matheus dificilmente conseguiria conviver com o atual esquema de empresários, parceiros e patrocinadores, que interferem diretamente na vida financeira do clube e vendem jogadores durante o campeonato.

Vicente Matheus faleceu de insuficiência pulmonar em 8 de fevereiro de 1997, após um período de internação no Instituto do Coração, em São Paulo.

Foto de Levi Mendes Júnior. Crédito: revista Placar – 16 de março de 1987.

Crédito: revista Placar.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Avanir Niko, José Maria de Aquino, Lemyr Martins, Levi Mendes Júnior, Marco Aurélio Borba, Michel Laurence, Maurício Cardoso, Narciso James, Nelson Coelho, Sérgio Martins e Ubiratan Brasil), revista Grandes Clubes Brasileiros, revista Manchete Esportiva, revista Veja (por Carlos Namba), Jornal A Gazeta Esportiva, campeoesdofutebol.com.br, esportes.r7.com, gazetaesportiva.net, globoesporte.globo.com, literaturanaarquibancada.com, site do Milton Neves (por Marcelo Rozenberg), vejasp.abril.com.br.

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