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Não era um goleiro badalado, nunca foi considerado um grande ídolo e nem ao menos devidamente reconhecido pelo que foi merecedor dentro do mundo do futebol.

Ao contrário, durante sua carreira, Felix passou por momentos difíceis e sempre foi contestado, inclusive por sua estatura, que muitos consideravam baixa para um goleiro.

Félix ou Felix Mielli Venerando, filho de Ataliba Ferreira Venerando e Margarida Mielli Venerando, nasceu na cidade de São Paulo (SP), no dia 24 de dezembro de 1937.

Fominha da bola, em 1950 jogava pelo infantil do Brasil, um time do tradicional bairro da Mooca em São Paulo. Era goleiro no segundo quadro e ponta direita do primeiro quadro.

O início de tudo no C.A Juventus. Crédito: facebook.com/pages/Felix-Mielli-Venerando.

O início de tudo no C.A Juventus. Crédito: facebook.com/pages/Felix-Mielli-Venerando.

Conforme registros da Federação Paulista de Futebol, o goleiro começou sua carreira em 10 de setembro de 1952, aos quinze anos de idade, no infanto juvenil da simpática agremiação do Clube Atlético Juventus.

Aprendeu muito do convívio com o experiente Oberdan Cattani, quando este já estava em fase final de sua carreira no Juventus.

Na época, trabalhava também no setor de expedição da empresa Máquinas Piratininga, que também tinha um time, onde Felix era o goleiro.

Em 1954, precisou deixar o Juventus para operar uma hérnia e o clube da Rua Javari não quis arcar com os custos da operação.

Crédito: fotos.estadao.com.br.

Crédito: fotos.estadao.com.br.

Crédito: topicos.estadao.com.br.

Crédito: topicos.estadao.com.br.

Entre suas idas e vindas do Nacional Atlético Clube da Rua Comendador de Souza, o goleiro foi contratado em definitivo pela Associação Portuguesa de Desportos por intermédio do diretor e também tesoureiro, Antônio Julio Cancela.

Na Lusa, foi companheiro dos goleiros Orlando Gato Preto, Reis, Lindolfo e Cabeção. 

Felix atuou em uma época recheada de craques e atacantes habilidosos. Enfrentou várias vezes o Santos de Pelé e a academia palmeirense nos anos sessenta. Com isso, seus fundamentos foram sendo cuidadosamente aprimorados.

Durante grande parte de sua carreira, Felix não adotou o uso de luvas, preferindo apenas fixar um esparadrapo forte em seus pulsos. Somente adotou o uso desse complemento, de forma mais definitiva, em meados de 1971. 

Crédito: facebook.com/pages/Felix-Mielli-Venerando.

Crédito: facebook.com/pages/Felix-Mielli-Venerando.

A transferência para o Fluminense Football Club não foi tão simples e envolveu um processo lento e composto de vários acontecimentos. No final das contas, Felix deixou a Lusa não só pela sua competência, mas também por um grande mal entendido.

Tudo começou durante disputa do Torneio Robertão de 1967, quando a Portuguesa de Desportos enfrentou o Bangu e o goleiro teve uma atuação espetacular.

Felix não sabia que estava sendo observado por Dilson Guedes, diretor do Fluminense, que impressionado com sua atuação naquela partida, fez ótimas recomendações para os cartolas do tricolor das Laranjeiras.

Somente em julho de 1968, representantes do Fluminense vieram até São Paulo e adquiriram o passe de Felix por 150.000 cruzeiros. O pai de Felix, seu Ataliba, era torcedor fanático do Fluminense e chorou de alegria quando ouviu o noticiário pelo rádio.

Crédito: revista do Esporte.

Crédito: revista do Esporte.

Felix em clássico contra o Flamengo no Maracanã. Crédito: revista do Esporte número 507 - Novembro de 1968.

Felix em clássico contra o Flamengo no Maracanã. Crédito: revista do Esporte número 507 – Novembro de 1968.

Na verdade, não fosse uma briga com o presidente Mário Augusto Isaías, Felix dificilmente seria negociado da forma como foi pela Portuguesa de Desportos.

Quase na mesma época do interesse do Fluminense, aconteceu uma partida onde a Portuguesa saiu derrotada e Felix foi entrevistado quando saia de campo. Após aquela entrevista, o mesmo repórter soltou o verbo publicamente contra os diretores lusitanos.

Ao tomar conhecimento da matéria, o presidente Mário Augusto Isaías logo associou que determinadas informações só poderiam ter sido passadas pelo próprio goleiro.

Irritado, o cartola Rubro-Verde bateu os punhos na mesa e naquele momento decidiu afastá-lo por nove meses do elenco.

Crédito: revista do Fluminense.

Crédito: revista do Fluminense.

E foi nesse meio tempo que ocorreu sua transferência para o futebol carioca. Assim, podemos concluir que seu destino já estava escrito com o time de coração de seu pai, o Fluminense.

No time das Laranjeiras, onde permaneceu até o ano de 1976 e encerrou sua brilhante carreira, Felix foi campeão carioca nas edições de 1969, 1971, 1973 e 1975, da Taça Guanabara de 1969, 1971 e 1975, além do Torneio Internacional de verão de 1973.

Curiosamente, ganhou o apelido de “Papel” por sua magreza e pela leveza dos vôos acrobáticos que dava. Além do apelido de “Papel”, Felix também era chamado por Roberto Rivellino de “Mochila”, em razão de sua pronunciada corcunda.

Apesar da baixa estatura para os padrões dos goleiros atuais, Felix tinha uma impulsão fenomenal e transmitia muita segurança aos companheiros de defesa.

O goleiro fez parte do grande time do Fluminense de 1975, chamado de “A Máquina”, ao lado de grandes craques.

Álbum de figurinhas Bola de Prata 1971. Crédito: albumefigurinhas.no.comunidades.net.

Álbum de figurinhas Bola de Prata 1971.
Crédito: albumefigurinhas.no.comunidades.net.

Crédito: revista Placar 19 de outubro de 1973.

Crédito: revista Placar 19 de outubro de 1973.

Arrojado, não tinha medo de divididas com os atacantes. Ao longo de sua trajetória, o goleiro colecionou em seu prontuário médico uma considerável lista de fraturas e contusões:

– fratura no maxilar superior, nariz, costelas, em todos os dedos da mão esquerda, no dedo mínimo da mão direita e no tornozelo. Além disso, ainda sofreu com bursites e problemas na coluna.

Já com o peso da idade cobrando pelo merecido descanso, acabou perdendo sua posição de titular para o goleiro Renato, campeão nacional de 1971 pelo Atlético Mineiro.

Mas foi atuando pela Seleção Brasileira, principalmente na Copa do Mundo de 1970, que Felix definitivamente calou os críticos de plantão e boa parte da torcida canarinho.

Crédito: revista oficial do Fluminense número 146.

Crédito: revista oficial do Fluminense número 146.

Crédito: revista Placar.

Crédito: revista Placar.

Fez defesas espetaculares, como aquela realizada na partida contra os ingleses, quando colocou sua cabeça em risco no arremate do atacante Francis Lee. O ato de coragem quase lhe custou um dente, que durante o jogo o causou um enorme desconforto.

Ou ainda na difícil e arrojada defesa contra os uruguaios na partida semifinal, em uma cabeçada frontal do atacante Cubilla.

É bem verdade que naquela mesma partida contra o Uruguai, muitos também lembrarão do gol uruguaio, em um chute relativamente fraco e imperfeito do próprio Cubilla. Em peso, muitos disseram que Felix falhou.

Sobre esse lance, Felix afirmou ao repórter da revista Placar, Raul Quadros, que no momento do chute imperfeito de Cubilla, seu tornozelo ficou preso na grama, o suficiente para que sua impulsão fosse bastante prejudicada.

Crédito: revista do Esporte número 575.

Crédito: revista do Esporte número 575.

Na mesma matéria da revista Placar, em sua edição de 13 de agosto de 1976, Felix revelou uma mágoa com João Saldanha.

Durante o mundial, Saldanha escreveu artigos para jornais mexicanos afirmando que Felix não inspirava confiança para enfrentar os ingleses e por isso deveria ser substituído:

– O Felix é magro, fininho demais e não sai bem do gol. Não vai suportar o calor de Guadalajara e suas mãos vão inchar com aquele esparadrapo nos pulsos. Além disso, não sabe jogar usando luvas, o que o ajudaria muito em sua própria segurança. (João Saldanha).

Realmente, Felix só usou luvas na partida final contra os italianos. Ainda no vestiário, muitos companheiros tentaram argumentar que isso poderia dar azar, já que Felix não tinha usado luvas em nenhuma partida naquele mundial.

Crédito: revista Placar 19 de outubro de 1973.

Crédito: revista Placar 19 de outubro de 1973.

Depois do jogo e da grande vitória canarinho por 4×1, Felix, emocionado, soltou sua voz nos microfones. Imaginando que sua afirmação fatalmente chegaria aos ouvidos de Saldanha, emendou: “Eu também sei jogar com luvas”.

Consagrado e tricampeão do mundo, Felix novamente foi esquecido na campanha vitoriosa da Taça independência de 1972, quando não teve oportunidade para integrar o elenco campeão.

Quando deixou os gramados em 1976, aos 39 anos de idade, foi preparador de goleiros do Fluminense, além de passar algum tempo no comando do Madureira e também do Botafogo.

Também trabalhou como diretor comercial de uma funilaria e ainda voltou ao futebol em 2007 para ser diretor técnico da Associação Atlética Internacional de Limeira.

Crédito: revista Placar - 13 de agosto de 1976.

Crédito: revista Placar – 13 de agosto de 1976.

Nos últimos anos, brigou por uma ajuda financeira aos jogadores campeões mundiais pela Seleção Brasileira. Ajuda esta que foi concedida em junho de 2012, quando o ex-goleiro já sofria de uma doença pulmonar.

A grande verdade é que Felix venceu! Sua carreira está perpetuada como um dos grandes guarda metas da história do futebol brasileiro.

E que seja esquecido definitivamente aquele comentário que tanto o aborreceu em vida: “A seleção foi tri no México, apesar do Felix”.

Seu falecimento ocorreu em 24 de agosto de 2012, em São Paulo (SP).

"A seleção foi tri no México, “graças também ao Felix”.

“A seleção foi tri no México, “graças também ao Felix”.

Felix trabalhando como preparador de goleiros no Fluminense. Crédito: revista Manchete Esportiva 1978.

Felix trabalhando como preparador de goleiros no Fluminense. Crédito: revista Manchete Esportiva 1978.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Raul Quadros e Michel Laurence), revista do Esporte, revista Manchete Esportiva, revista A Gazeta Esportiva Ilustrada, revista Futebol e Outros Esportes, revista Grandes Clubes Brasileiros, revista do Fluminense, topicos.estadao.com.br, fotos.estadao.com.br, site do Milton Neves, gazetaesportiva.net, esportes.terra.com.br, jornalheiros.blogspot.com, facebook.com/pages/Felix-Mielli-Venerando.

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