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Felix não era um goleiro muito badalado. Nunca foi considerado um grande ídolo e nem ao menos devidamente reconhecido pelo que foi merecedor no mundo da bola!

Ao longo de sua rica caminhada no futebol, o sempre esforçado Felix passou por momentos de instabilidade e provação. Era inclusive contestado pelos críticos da época por sua estatura.

Filho de Ataliba Ferreira Venerando e Margarida Mielli Venerando, Félix ou ainda Felix Mielli Venerando nasceu na cidade de São Paulo (SP), em 24 de dezembro de 1937.

“Fominha” de bola, o rapazinho jogava pelo infantil do Brasil, um time do bairro da Mooca, Zona Leste da cidade de São Paulo. Era goleiro no segundo quadro e ponta-direita do primeiro quadro.

Sua carreira oficial como goleiro foi iniciada em setembro de 1952, nas fileiras amadoras do simpático Clube Atlético Juventus (SP).

Clássico entre Portuguesa de Desportos e São Paulo no Pacaembu. Partindo da esquerda; Augusto, Ulisses, Felix, Prado e Paraná. Crédito: revista Futebol e Outros Esportes.

Em 25 de julho de 1965, Palmeiras e Portuguesa empataram em 1×1 no Pacaembu, jogo pelo primeiro turno do campeonato paulista. No lance, o goleiro Felix faz grande defesa em arremate do atacante Servílio. Crédito: revista Futebol e Outros Esportes.

Tempos difíceis, o jovem e promissor goleiro do time da Rua Javari completava o orçamento trabalhando no setor de expedição da empresa Máquinas Piratininga.

Os primeiros segredos foram ao lado do consagrado Oberdan Cattani, que com a camisa do Juventus viveu o último capítulo de sua trajetória. Contudo, em 1954, Felix precisou operar uma hérnia, ocasião em que o clube não bancou os custos da cirurgia.

Depois de ser emprestado ao Nacional Atlético Clube (SP), Felix ainda voltou ao mesmo Juventus para em seguida ser contratado em definitivo pela Associação Portuguesa de Desportos (SP), um compromisso bancado pelo diretor e também tesoureiro Antônio Julio Cancela.

Na Portuguesa de Desportos, Felix foi companheiro de grandes goleiros; como Cabeção, Lindolfo, Orlando e Reis. 

Em um período recheado de atacantes habilidosos, Felix enfrentou várias vezes o Santos de Pelé e o esquadrão da “Academia do Palmeiras”, o que colaborou sensivelmente para o aprimoramento de seus fundamentos.

Grandes valores da Portuguesa de Desportos no certame paulista. Partindo da esquerda; Nair, Felix e Jair Marinho. Crédito: revista do Esporte número 316.

A esperança virou decepção! O goleiro da Portuguesa esperava ser lembrado no escrete canarinho em 1966. Crédito: revista do Esporte número 373 – 30 de abril de 1966.

Durante grande parte de sua carreira, Felix nunca foi simpático ao uso de luvas, um complemento que só foi adotado de maneira definitiva em meados de 1971. 

A transferência para o cenário carioca foi um processo especialmente marcado por vários dissabores. No final das contas, o goleiro deixou o clube paulista não só por sua competência, mas também por um grande mal entendido!

Com boas participações na disputa do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, Felix foi observado mais atentamente por Dilson Guedes, um diretor do Fluminense que estava bastante impressionado com suas atuações.

Em julho de 1968, representantes do Fluminense Football Club (RJ) fecharam o negócio pela quantia de 150.000 cruzeiros, o que fez seu Ataliba – pai de Felix e torcedor fanático do Fluminense – chorar de alegria ao ouvir a notícia pelo rádio.

Conforme publicado pela revista Placar na edição de 22 de agosto de 1980, o desligamento da Portuguesa de Desportos teve origem em desentendimentos com o presidente Mário Augusto Isaías.

A transferência para o Fluminense. Crédito: revista do Esporte número 480.

Felix disputa pelo alto em clássico contra o Flamengo no Maracanã. Crédito: revista do Esporte número 507 – Novembro de 1968.

O indigesto desentendimento foi iniciado logo depois uma inesperada derrota da Portuguesa. Entrevistado no final da partida, o goleiro foi traído por um repórter, que posteriormente publicou um artigo “carregado” contra os diretores do clube.

Ao tomar conhecimento da tal reportagem, o presidente Mário Augusto Isaías deduziu que algumas informações só poderiam ter saído da boca do seu goleiro!

Irritado, o dirigente bateu os punhos na mesa e decidiu afastar Felix do elenco. Foi assim que os “cartolas” acertaram sua pronta transferência para o time das Laranjeiras. 

No Fluminense, Felix fez parte da equipe que ficou conhecida como “A Máquina”. Conquistou o campeonato carioca de 1969, 1971, 1973 e 1975, Taça Guanabara 1969, 1971 e 1975, Taça de Prata 1970; além do Torneio Internacional de Verão em 1973.

Apelidado pelos companheiros como “Papel”, pela leveza sempre fluente de seus movimentos, Felix também era chamado por Roberto Rivellino de “Mochila”, por certo em razão de sua pronunciada corcunda!

Momentos em família! Crédito: revista Grandes Clubes Brasileiros.

Na Seleção Brasileira, Felix definitivamente calou os críticos! Foto de Lemyr Martins. Crédito: revista Placar.

Apesar da baixa estatura para os padrões dos goleiros atuais, Felix tinha uma impulsão fenomenal. Arrojado, nunca teve medo de divididas e colecionou em seu prontuário médico um respeitável rol de contusões e fraturas:

– Algumas costelas, maxilar superior, nariz, todos os dedos da mão esquerda, dedo mínimo da mão direita e também o tornozelo. Além disso, o goleiro ainda sofreu com bursites e problemas na coluna.

Com o peso da idade e o agravamento de antigas contusões, Felix perdeu sua condição de titular para Renato da Cunha Valle e deixou o futebol profissional em abril de 1977.

Mas foi pela Seleção Brasileira, principalmente na Copa do Mundo de 1970, que Felix definitivamente calou os críticos!

Nos gramados do México, Felix praticou defesas espetaculares. No duelo diante da Inglaterra colocou sua cabeça em risco no arremate do atacante Francis Lee. Sua participação também foi determinante contra o Uruguai na semifinal, em uma cabeçada do atacante Luis Cubilla.

Memórias e revelações nas páginas da revista Placar. Foto de Zeka Araújo. Crédito: revista Placar 19 de outubro de 1973.

Dedicação dentro e fora de campo. Um exemplo para os companheiros. Foto de Zeka Araújo. Crédito: revista Placar 19 de outubro de 1973.

É bem verdade que na mesma partida contra o Uruguai, Felix foi acusado de falhar no gol do atacante Luis Cubilla, um chute considerado fraco e imperfeito!

Sobre esse lance contra o Uruguai, Felix afirmou nas páginas da revista Placar que no momento do chute de Luis Cubilla seu tornozelo ficou preso na grama, o suficiente para que sua impulsão fosse prejudicada!

Ainda na matéria da revista Placar, Felix revelou mágoas do então colunista João Saldanha. Durante o mundial de 1970, o apimentado Saldanha escreveu artigos afirmando que Felix não era confiável para enfrentar os ingleses:

– O Felix é fininho demais e não sai bem do gol. Não vai suportar o tórrido calor de Guadalajara e suas mãos vão inchar com aquele esparadrapo nos pulsos. Além disso, ele não sabe jogar usando luvas, o que o ajudaria muito. (João Saldanha).

Realmente, Felix só usou luvas no compromisso final contra os italianos. Ainda no vestiário, muitos companheiros tentaram argumentar que isso poderia dar azar, já que Felix não tinha usado luvas em nenhuma partida da Copa do Mundo.

No Fluminense, Felix fez parte da grande equipe que ficou conhecida como “A Máquina”. Foto de Luís Paulo Machado. Crédito: revista Placar – 13 de agosto de 1976.

Com o peso da idade e o agravamento de antigas contusões, Felix preparava o espírito para deixar o futebol ao término de seu contrato com o Fluminense, em abril de 1977. Foto de Luís Paulo Machado. Crédito: revista Placar – 13 de agosto de 1976.

Depois do grande triunfo canarinho sobre os italianos por 4×1, Felix soltou um desabafo nos microfones. Imaginando que sua afirmação fatalmente chegaria aos ouvidos de Saldanha, o goleiro emendou: “Eu também sei jogar com luvas”.

Consagrado e tricampeão do mundo, Felix machucou a mão e ficou impedido de participar da campanha vitoriosa na Taça independência de 1972.

Ao deixar o futebol profissional, Felix foi preparador de goleiros do Fluminense. Também trabalhou como diretor em uma Funilaria. Voltou ao mundo da bola em 2007, para ser dirigente na Associação Atlética Internacional de Limeira (SP).

Nos últimos anos de vida, Felix brigou por uma ajuda financeira aos jogadores campeões mundiais pela Seleção Brasileira. Ajuda que foi aprovada em junho de 2012, quando o ex-goleiro já sofria com uma séria doença pulmonar.

Felix Mielli Venerando faleceu na cidade de São Paulo (SP), em 24 de agosto de 2012. E que seja apagado para sempre o comentário que tanto o aborreceu em vida: “O escrete foi Tri no México, apesar do Felix”.

E que seja apagado para sempre o comentário que tanto o aborreceu em vida: “A seleção foi Tri no México, apesar do Felix”. Crédito: revista do Fluminense número 146.

Trabalhando como preparador de goleiros no Fluminense. Crédito: revista Manchete Esportiva – 1978.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Aristélio Andrade, Carlos Maranhão, Dagomir Marquezi, Lemyr Martins, Luís Paulo Machado, Michel Laurence, Raul Quadros e Zeka Araújo), revista A Gazeta Esportiva Ilustrada (por Orlando Duarte e Orlando Gasperini), revista do Esporte, revista do Fluminense, revista Fatos e Fotos, revista Futebol e Outros Esportes, revista Grandes Clubes Brasileiros, revista Manchete, revista Manchete Esportiva, revista O Cruzeiro, Jornal A Gazeta Esportiva, Jornal do Brasil, Jornal dos Sports, Jornal O Globo, campeoesdofutebol.com.br, fluminense.com.br, gazetaesportiva.net, topicos.estadao.com.br, site do Milton Neves.

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