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Repentinamente os aplausos cessaram. O silêncio imperou e uma imensidão de incertezas falou mais alto. Aos 27 anos de idade, no auge da carreira, Roberto Dias sofreu seu primeiro infarto.

Tratado como se fosse um inválido para o futebol, Roberto Dias escolheu desafiar o fantasma da morte para continuar nos gramados.

Figura marcante da coletividade tricolor, Roberto Dias é sempre lembrado como um dos maiores zagueiros da história do Clube da Fé, um dos principais ídolos do período de “Vacas Magras” dos anos 60.

Roberto Dias Branco nasceu em 7 de janeiro de 1943, no bairro do Canindé, Zona Norte da cidade de São Paulo.

Filho do ex-jogador Oswaldinho, Roberto Dias era um “sujeito família”, sempre disposto para qualquer empreitada ao lado da mãe Leny e dos irmãos Cláudio, Maria Helena e Olga.

Crédito: reprodução revista A Gazeta Esportiva Ilustrada número 231 – 1961.

Estudando na Escola Santo Antônio do Pari, sua primeira ocupação foi como entregador em um comércio de bebidas no mesmo bairro. Pouco depois arrumou emprego nos escritórios da Associação Comercial, no centro de São Paulo.

Conhecido como “Bebé”, Roberto Dias aproveitava os momentos de folga jogando no futebol varzeano da região, em equipes como o Estrela do Pari e o Serra Morena.

Paralelamente, os amigos também o convidavam para jogar no campo da Força Pública, denominação antiga da Polícia Militar de São Paulo.

E foi no campo da Força Pública que Roberto Dias despertou os olhares mais atentos de Vadico, um ex-jogador amador do São Paulo Futebol Clube.

No São Paulo, Roberto Dias foi recebido pelos senhores Remo e Caxambu, ídolos do time nos anos 40 e que na época trabalhavam na Comissão Técnica.

Crédito: revista Tricolor número 99.

Crédito: revista do Esporte número 225 – Junho de 1963.

Começou no quadro de Aspirantes e logo fez sua primeira partida no time principal em 5 de maio de 1960, com uma derrota por 2×0 diante da Portuguesa de Desportos no Pacaembu.

Aproveitado inicialmente como volante, com o passar do tempo foi utilizado como quarto-zagueiro, onde se saiu muito bem. Igualmente respeitado por companheiros e adversários, Roberto Dias era um jogador de grandes qualidades técnicas.

Observado mais de perto em um treinamento com o selecionado olímpico, seu nome foi relacionado no grupo que foi aos jogos da cidade de Roma em 1960, quando formou a meia-cancha ao lado de Gerson, “O Canhotinha de Ouro”.

Ao longo da carreira, Roberto Dias fez parte de várias formações nos selecionados paulista e canarinho. Em 1966 foi um dos convocados pelo técnico Vicente Feola no período de preparação para o mundial da Inglaterra.

Contudo, seu nome não foi relacionado na lista definitiva de 22 jogadores que foram defender o Brasil em gramados ingleses. E não ter disputado uma Copa do Mundo foi uma de suas maiores frustrações.

Roberto Dias e Bellini no Morumbi ainda em construção. Crédito: revista do Esporte número 229.

Ao todo, Roberto Dias jogou 25 compromissos pela Seleção Brasileira principal entre os anos de 1963 e 1968. Foram 13 vitórias, 8 empates, 4 derrotas e 1 gol marcado, na vitória por 5×1 sobre a Inglaterra, em 30 de maio de 1964.

Apontado por Pelé como um de seus maiores marcadores, Roberto Dias jogava um futebol limpo e eficiente na marcação e cobertura, além da notável capacidade no fundamento de distribuição de bola.

Enquanto os dirigentes concentravam recursos na construção e conclusão do Estádio do Morumbi, o Departamento de Futebol passava por uma estiagem permanente de craques.

Com o Morumbi concluído e reinaugurado, os títulos finalmente chegaram.

Roberto Dias enfim faturou o campeonato paulista nas edições de 1970 e 1971, ano em que não participou da campanha em sua totalidade por conta dos reflexos causados pelo infarto.

Crédito: revista do Esporte número 247 – 1963.

Tudo corria normalmente até a tarde de 29 de novembro de 1970, quando Roberto Dias foi substituído durante um clássico vencido pelo Santos por 3×2 no Pacaembu.

Em casa, dores no peito e no braço ligaram novamente o sinal de alerta. Socorrido rapidamente, os exames revelaram o primeiro infarto de sua vida.

Conforme diagnóstico do Doutor Giuseppe Dioguardi, médico que acompanhou o caso, o jogador tinha uma doença chamada Aterosclerose.

Assistido pela equipe médica do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, Roberto Dias ficou afastado dos gramados por exatos 373 dias.

Nesse período, o clube manteve em dia os pagamentos dos ordenados e premiações. Seu retorno aconteceu somente em 7 de dezembro de 1971, no empate por 1×1 com o América (RJ) no Morumbi, partida válida pelo campeonato nacional.

Crédito: revista do Esporte número 324 – 1965.

Roberto Dias também era eficiente nas bolas paradas. Em 1972 surpreendeu o goleiro Emerson Leão, que pela distância da cobrança de falta dispensou os companheiros da formação de barreira.

A bola chegou forte, rasteira e cheia de veneno, o suficiente para enganar os olhos atentos do felino esmeraldino, que precisou depois buscar o couro no fundo das redes.

Roberto Dias continuou no São Paulo até 29 de julho de 1973, data em que disputou sua última partida no empate sem gols contra o Santos.

Independente dos problemas de saúde, Roberto Dias também passou por crises de relacionamento com o técnico Telê Santana, um fator determinante para seus últimos tempos no clube.

Após 13 anos de serviços prestados, seu nome não foi mais relacionado para os compromissos do São Paulo. Magoado com os dirigentes, Roberto Dias disse adeus ao Morumbi.

Crédito: revista do Esporte número 368 – 26 de março de 1966.

Em jogo contra o forte Bangu dos anos 60, Roberto Dias acompanha o ponteiro direito Paulo Borges. Crédito: revista do Esporte número 432 – 17 de junho de 1967.

Pelo São Paulo foram 523 jogos com 242 vitórias, 143 empates, 138 derrotas e 76 gols marcados. Os números foram publicados pelo Almanaque do São Paulo, do autor Alexandre da Costa.

Jogou ainda pelo CEUB (DF), Jalisco de Guadalajara (México), Dom Bosco (MT) e finalmente pelo Nacional (SP) em 1978, ano em que abandonou os gramados.

Sem conseguir ficar longe da bola, Roberto Dias batia sua bolinha no time do Milionários ao lado de grandes estrelas do passado.

Nesse período, Roberto Dias viveu dias turbulentos no âmbito familiar. Em 1971 perdeu a mãe e o filho recém-nascido Rogério por complicações pulmonares. Mais tarde, em 1974, perdeu também sua filha Fernanda.

O casamento com Rosita também chegou ao fim em 1979, após 12 anos de união. Em depressão, Roberto Dias padecia com os malefícios do alcoolismo. No mesmo ano sofreu outro infarto e um AVC (acidente vascular cerebral).

Um homem “família”. Crédito: revista Placar – 20 de agosto de 1971.

Gerson e Roberto Dias. Crédito: revista Placar.

Em 1989, por intermédio do amigo Gabriel Ribeiro Nogueira, médico cirurgião e grande admirador, Roberto Dias voltou ao Morumbi para trabalhar como professor da Escolinha de Futebol.

Nesse período, o ex-jogador orientou os mais jovens e contou suas histórias. Em novembro de 1994 seu nome fez parte do “Melhor São Paulo de Todos os Tempos”, uma eleição promovida pela revista Placar (Edição Os Esquadrões dos Sonhos).

O “Melhor São Paulo de Todos os Tempos” ficou assim escalado: Poy, Cafu, Mauro Ramos de Oliveira, Roberto Dias e Noronha; Bauer e Gerson; Muller, Pedro Rocha, Leônidas da Silva e Canhoteiro.

Roberto Dias Branco faleceu de parada cardiorrespiratória em 26 de setembro de 2007.

Crédito: revista Placar – Série Grandes Perfis.

Crédito: revista Placar – Dezembro de 1992.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Alberto Helena Junior, José Maria de Aquino, Jorge Martins, Mauro Pinheiro, Michel Laurence e Narciso James) revista A Gazeta Esportiva Ilustrada, revista do Esporte, revista Grandes Clubes Brasileiros, revista Tricolor, Jornal A Gazeta Esportiva, campeoesdofutebol.com.br, gazetaesportiva.net, site do Milton Neves (por Rogério Micheletti e Gustavo Grohmann), museudapessoa.net, saopaulofc.net, Almanaque do São Paulo – Alexandre da Costa, Livro Dias – A Vida do Maior Jogador do São Paulo nos anos 1960 – Fábio Matos – Pontes Editores, albumefigurinhas.no.comunidades.net.

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