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Quando decidiu bancar o nome de Otto Glória, o presidente do Vasco da Gama Otávio Menezes Póvoa não imaginava que os bastidores de São Januário seriam mergulhados em total desconfiança.

Em artigo publicado pela revista Esporte Ilustrado na edição de 15 de março de 1951, o repórter Charles Guimarães ofereceu aos leitores o roteiro detalhado dos acontecimentos da discutida sucessão do afamado técnico Flávio Costa.

O Vasco daqueles tempos era o bicampeão carioca e, ao mesmo tempo em que marchava na busca do tricampeonato, dirigentes e torcedores já manifestavam grande preocupação com o futuro do time!

Foi assim o conturbado início de um dos maiores estrategistas do futebol. Neto de portugueses, o sempre competente Otaviano Martins Glória nasceu na cidade do Rio de Janeiro (RJ), em 9 de janeiro de 1917.

No sempre concorrido cenário nacional, além do Vasco da Gama (em várias oportunidades) e do Botafogo, Otto Glória dirigiu o América (RJ), Grêmio (RS), Comercial (SP), Santos (SP) e Portuguesa de Desportos (SP).

Nas páginas de O Globo Sportivo, o artigo de Carlos Belmonte registra em poucas palavras o que significou o período de Otto Glória no comando do Vasco da Gama: “O certo é que não deu certo”. Crédito: revista O Globo Sportivo número 671 – 1951.

Vasco da Gama campeão carioca invicto de 1949. Primeira fila: O massagista Mário Américo, integrante da comissão técnica, Sampaio, Augusto, Barbosa, Wilson, Laerte e mais dois integrantes da comissão técnica. Segunda fila: Jorge, Alfredo II, Amilcar Giffoni, Flávio Costa, Otto Glória, Danilo Alvim e Eli do Amparo. Terceira fila: Nestor, Maneca, Ademir, Lima, Ipojucan, Heleno de Freitas, Chico e Mário. Crédito: revista Placar – 50 times do Vasco.

Entre tantos desafios ao longo de sua reconhecida e rica caminhada, Otto Glória enfrentou o “Rei Pelé” em várias jornadas decisivas, quase sempre apresentando resultados positivos!

O primeiro grande confronto entre os dois aconteceu na fase de grupos da Copa do Mundo de 1966, quando no comando do selecionado de Portugal, Otto Glória eliminou o até então temido quadro canarinho.

Mais tarde, Otto Glória e Pelé se enfrentaram novamente na partida decisiva do campeonato paulista de 1973, quando de forma inédita Portuguesa de Desportos e Santos dividiram o título.

Como jogador de futebol, o apenas esforçado Otto Glória passou pelo Vasco da Gama, Botafogo e Olaria. Contudo, aos 25 anos de idade decidiu encerrar sua breve passagem pelos gramados.

Partiu então para a prática do basquete, primeiro como jogador e depois como treinador. No popular esporte da “cestinha”, Otto Glória adquiriu e aprofundou seus conhecimentos sobre estratégias e táticas de jogo.

Flávio Costa (direita) o grande mestre de Otto Glória. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 898 – 23 de junho de 1955.

Sucesso também no Futebol Clube do Porto de Portugal. Crédito: revista Flama número 821 – 29 de novembro de 1963.

Dedicado e estudioso, Otto Glória adaptou muitos fundamentos do basquete no futebol; como o aproveitamento dos rebotes defensivos e ofensivos, marcação por zona, posse de bola, triangulações e principalmente o sentido de cobertura.

Convidado pelo amigo Flávio Costa (técnico da Seleção Brasileira no mundial de 1950), Otto Glória voltou para o mundo do futebol e foi trabalhar no Vasco da Gama, inicialmente orientando os quadros amadores.

Em seguida passou pelo Botafogo como assistente de Zezé Moreira, na equipe que faturou o título carioca de 1948. Novamente no Vasco da Gama, Otto Glória foi o técnico assistente do mesmo Flávio Costa. Assumiu o comando do time principal em 1951, sem no entanto conseguir permanecer por muito tempo!

Posteriormente passou pelo América (RJ), antes de sua definitiva transferência para o Benfica de Portugal em 1954, equipe onde viveu um dos seus períodos mais produtivos!

Otto Glória foi o responsável por uma grande transformação no departamento de futebol do Benfica. Participou na concepção e fundação de um centro de treinamento, além de buscar novos talentos para montar um time competitivo.

Um trabalho espetacular na Copa do Mundo de 1966. Crédito: revista O Cruzeiro.

Em um jantar promovido pelos editores da revista Placar, Otto Glória e Telê Santana debatem sobre o futuro da profissão de treinador. Crédito: revista Placar – Janeiro de 1970.

No período entre 1954 e 1959, Otto Glória conquistou três Taças de Portugal e dois títulos nacionais. Depois de muitos anos no Benfica, Otto Glória assumiu o Belenenses e conquistou a Taça de Portugal na temporada de 1959/1960.

Foi o primeiro treinador que trabalhou nos quatro “gigantes” do futebol lusitano: Belenenses, Benfica, Porto e Sporting! Em 1962, Otto Glória também trabalhou no Olympique de Marseille da França.

Em 1966 comandou o selecionado de Portugal na Copa do Mundo da Inglaterra e realizou uma campanha com resultados surpreendentes, como o triunfo sobre o Brasil por 3×1.

Mostrou muito “sangue frio” ao conduzir seus comandados na memorável virada sobre a Coréia do Norte pelo placar de 5×3, depois do susto na primeira etapa quando perdia o jogo por 3×1.

Na semifinal da copa diante dos ingleses, Portugal foi derrotado por 2×1. Mesmo assim, a conquista do terceiro lugar foi considerado um resultado honroso para o quadro lusitano.

Dedicado e estudioso, Otto Glória adaptou muitos fundamentos do basquete no futebol. Crédito: revista Grandes Clubes Brasileiros.

Confiante, Otto Glória é apresentado no Grêmio Porto-Alegrense! Crédito: revista Grandes Clubes Brasileiros.

Também conhecido como “Melancia”, Otto Glória passou pelo Atlético de Madrid e depois retornou ao Benfica em 1968. Foram mais dois títulos nacionais e duas Taças de Portugal, além do vice-campeonato da Liga dos Campeões de 1968.

Novamente no futebol brasileiro em 1970, Otto Glória trabalhou no América (RJ) e no Grêmio Porto-Alegrense (RS) em 1971, antes de desembarcar no futebol paulista.

Um de seus trabalhos mais lembrados aconteceu no comando da Portuguesa de Desportos em 1973. Na partida decisiva contra o Santos no Morumbi, o empate sem abertura de contagem permaneceu no tempo normal e na prorrogação, o que obrigou uma decisão por penalidades.

Foi então que o juiz Armando Marques cometeu o erro histórico na contagem dos pênaltis e declarou o Santos campeão. Todavia, o árbitro não percebeu que a Portuguesa ainda contava com chances matemáticas de empatar a série de penalidades.

Percebendo o disparate, o astuto Otto Glória recomendou que seus jogadores fossem para o vestiário e imediatamente trocassem de roupa para deixar o Morumbi rapidamente.

Otto Glória passou bem pelo Grêmio Porto-Alegrense (RS) em 1971. Crédito: revista Grandes Clubes Brasileiros.

Muitas incertezas no início de seu trabalho na direção do Grêmio! Crédito: revista Placar – 17 de setembro de 1971.

A manobra evitou que Armando Marques desse prosseguimento nas cobranças de pênaltis e colocou os mandatários da Federação Paulista de Futebol em uma autêntica “saia justa”, que culminou na divisão do título paulista da temporada.

Em 1977 Otto Glória passou pelo Santos Futebol Clube, pelo Comercial (SP) e pelo Monterrey do México, antes de voltar ao Vasco da Gama para ser vice-campeão brasileiro de 1979.

Além da seleção portuguesa, que comandou novamente na década de 1980, Otto Glória também orientou o selecionado da Nigéria. O técnico também é lembrado por frases famosas:

– “Treinador quando vence é bestial e quando perde é uma besta”… “Não posso fazer uma omelete sem ovos”, uma afirmação voltada aos dirigentes que não contratavam jogadores de qualidade!

Seu último trabalho aconteceu no Vasco da Gama em 1983. Otaviano Martins Glória faleceu no Rio de Janeiro (RJ), em 4 de setembro de 1986.

Otto Glória fez história na Portuguesa de Desportos! Crédito: revista Placar.

Em 1979, o Vasco da Gama de Otto Glória só parou diante do Internacional de Batista e Falcão! Foto de Rodolpho Machado. Crédito: revista Placar – Agosto de 2010.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Aristélio Andrade, Carlos Maranhão, Dagomir Marquezi, Divino Fonseca, Fausto Neto, Maurício Cardoso, Mílton Costa Carvalho e Rodolpho Machado), revista do Esporte, revista Esporte Ilustrado (por Charles Guimarães, José Santos, Leunam Leite, Levy Kleiman, Luís Mendes e Walter Sampaio), revista Flama, revista Grandes Clubes Brasileiros, revista Manchete, revista O Cruzeiro, revista O Globo Sportivo (por Carlos Belmonte), Jornal A Gazeta Esportiva, Jornal do Brasil, Jornal dos Sports, Jornal O Globo, campeoesdofutebol.com.br, gazetaesportiva.net, site do Milton Neves (por Marcelo Rozenberg).