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O carioca de Niterói, Gerson de Oliveira Nunes, nascido no dia 11 de janeiro de 1941, tinha três características marcantes. A primeira era o medo declarado de viajar de avião.

A segunda sua inteligência e facilidade para colocar a bola onde queria, não importando distância ou condição do gramado. E finalmente, o vigor, um tanto “voluntarioso demais” nas bolas divididas e nos choques com seus adversários.

Não que Gerson fosse um jogador tipicamente desleal, pelo contrário!

Contudo, Gerson envolveu-se em jogadas que ocasionaram fraturas nas pernas de jogadores como Mauro, juvenil do Flamengo, Vaguinho do Corinthians e o peruano De La Torre, em amistoso da seleção em 1969 no estádio do Maracanã.

Gerson e Maranhão do Vasco da Gama. Crédito: revista do Esporte número 198 – Dezembro de 1962.

Gerson e Maranhão do Vasco da Gama. Crédito: revista do Esporte número 198 – Dezembro de 1962.

O início do “gosto pela bola” aconteceu nas peladas da praia Santa Rosa, em Niterói. Posteriormente, foi convidado para trocar a areia pelas quadras de Futebol de Salão.

Em 1957, aos 16 anos, foi levado para o Canto do Rio Foot-Ball Club, saudoso time da cidade de Niterói. Pouco depois, em 1958, Gerson chegou ao juvenil do Clube de Regatas do Flamengo.

Promovido ao time principal em 1959, integrou o elenco que conquistou o Torneio Rio São Paulo de 1961. No Rubro-Negro, Gerson permaneceu até 1963, quando faturou seu primeiro título carioca.

Sua saída, um tanto tumultuada da Gávea, está diretamente ligada aos desentendimentos com o técnico Flávio Costa.

Crédito: revista do Esporte número 121.

Crédito: revista do Esporte número 121.

Conforme publicado pela revista do Esporte número 237, Gerson foi afastado do time antes do clássico contra o Botafogo pela terceira rodada do campeonato carioca. O meio campista teria se recusado em jogar fora de sua posição.

Além disso, os dirigentes o acusavam de um “garoto mimado”, que era influenciado por seu pai para deixar o Flamengo, o que foi prontamente rebatido por Gerson na reportagem da revista do Esporte:

– Nada disso. Meu pai é meu amigo e meu conselheiro. Além disso, o Flamengo não pode me privar do convívio familiar. O Flávio Costa quer me escalar no ataque e eu não me sinto bem nessa função.   

Dessa forma, o clima entre Flávio Costa, Gerson e os mandatários do time da Gávea chegou ao limite.

Crédito: revista do Esporte número 366 - 12 de março de 1966.

Crédito: revista do Esporte número 366 – 12 de março de 1966.

Os cartolas do Botafogo se aproveitaram dessa instabilidade e chegaram ao acordo para contar com o meio campista em suas fileiras. Na época, as manchetes dos principais jornais esportivos estamparam em letras garrafais:

“Botafogo deposita 150 milhões de cruzeiros” e tira Gerson do Flamengo!

No Botafogo Gerson conquistou títulos e sua definitiva projeção no cenário nacional. Atuou ao lado de uma grande geração de jogadores que se formava, como Roberto Miranda, Paulo Cesar, Rogério, Sicupira, Ferretti e Afonsinho.

Enquanto isso, outros grandes valores entravam em seu estágio final de carreira. Falamos de Garrincha, Zagallo, Leônidas e Nilton Santos.

Crédito: albumefigurinhas.no.comunidades.net.

Crédito: albumefigurinhas.no.comunidades.net.

Títulos importantes pelo Botafogo. Crédito: globoesporte.globo.com.

Títulos importantes pelo Botafogo. Crédito: globoesporte.globo.com.

Pelo time da “Estrela Solitária”, Gerson conquistou vários títulos:

– Torneio Rio-São Paulo 1964 (Título dividido com o Santos) e Torneio Rio-São Paulo 1966 (Título dividido entre Corinthians, Botafogo, Santos e Vasco da Gama), Taça Guanabara 1967 e 1968, campeonato carioca 1967 e 1968 e Taça Brasil de 1968.

Em 17 de julho de 1969, Gerson deixou o Rio de janeiro quando foi negociado junto ao São Paulo Futebol Clube.

Para assinar com o tricolor paulista, Gerson tomou coragem e foi ao aeroporto Santos Dumont. Para variar, não fez questão nenhuma de usar terno e gravata quando se apresentou no novo clube.

E Gerson chega ao São Paulo. Crédito: revista do Esporte número 543 – 19 de agosto de 1969.

E Gerson chega ao São Paulo. Crédito: revista do Esporte número 543 – 19 de agosto de 1969.

Próximo de completar os 30 anos de idade, assinou compromisso por duas temporadas, ajudando o tricolor na conquista do bicampeonato estadual de 1970/1971.

O “Canhotinha de Ouro” ofereceu ao tricolor a estabilidade tão necessária para superar o jejum de títulos, que já durava treze longos anos.

Jogando pelo São Paulo, Gerson travou combates inesquecíveis enfrentando seus companheiros de seleção; Rivellino, Clodoaldo e Pelé, além dos duelos com os palmeirenses Dudu e Ademir da Guia.

Gerson foi símbolo de uma época de franco renascimento lá pelos lados do Morumbi, que manteve sua tradição de acreditar em jogadores veteranos, assim como já tinha acontecido com craques como Sastre e Zizinho.

Crédito: revista Placar.

Crédito: revista Placar.

Crédito: reprodução revista do Esporte.

Crédito: reprodução revista do Esporte.

Em seu período no futebol paulista, Gerson continuou sua batalha pessoal contra os meios de imprensa. Os jornais paulistanos viviam dizendo que o “Canhotinha” queria mesmo era retornar para o Rio de Janeiro.

Incomodado, Gerson respondia que cumpriria seu contrato e que não via nada de mal em ter o direito de escolher se ficaria em São Paulo ou voltaria ao Rio para encerrar sua carreira.

Em 1972 Gerson precisou esperar que o impasse entre São Paulo, Botafogo e Fluminense fosse resolvido. Com tudo acertado, o Fluminense levou vantagem e Gerson realizou o sonho de jogar no seu time de coração.

No tricolor das Laranjeiras, Gerson foi campeão carioca de 1973, encerrando sua carreira no ano de 1974.

Crédito: revista Placar - 30 de novembro de 1973.

Crédito: revista Placar – 30 de novembro de 1973.

Crédito: revista Placar - Série Grandes Perfis.

Crédito: revista Placar – Série Grandes Perfis.

A história de Gerson na Seleção Brasileira foi iniciada em 1959, no time amador que disputou os Jogos Pan-Americanos de Chicago e ficou com a medalha de prata. No ano seguinte, Gerson participou das Olimpíadas de Roma.

Campeão da Copa Roca nas edições de 1963 e 1971, Gerson foi o capitão que ergueu o bonito troféu da Taça Independência em 1972.

Em Copas do Mundo, Gerson fez parte do fracassado grupo de 1966. Mais tarde, esteve presente na campanha do tricampeonato em 1970.

No México, Gerson foi peça fundamental no esquema de Mário Jorge Lobo Zagallo, não só por suas atuações, mas também pela liderança que exercia dentro e fora dos gramados.

Gerson e Jairzinho. Crédito: revista do Esporte número 382.

Gerson e Jairzinho. Crédito: revista do Esporte número 382.

Liderança que também o fazia passar por constrangimentos em campo. Na partida contra os Tchecos, Gerson estava próximo de Pelé quando o “Rei” arriscou o famoso chute do meio campo, que quase levou o goleiro Victor ao desespero.

Imediatamente, Gerson deu uma bronca danada em Pelé. Quando notou o rumo da bola e a beleza do lance, pediu desculpas imediatamente, sendo obrigado a ouvir o troco de Pelé.

Autor de um golaço contra os italianos na final, Gerson também foi estratégico ao mudar de posição com o volante Clodoaldo na partida semifinal contra o Uruguai, em razão da forte marcação que recebia naquele jogo.

Dessa troca de posição no meio campo canarinho, nasceu o providencial gol de empate, marcado por Clodoaldo.

Gerson: O capitão na conquista da Taça Independência em 1972. Crédito: revista O Cruzeiro – 19 de julho de 1972.

Gerson: O capitão na conquista da Taça Independência em 1972. Crédito: revista O Cruzeiro – 19 de julho de 1972.

O apelido de “Canhotinha de Ouro” reflete com exatidão sua classe e habilidade. Um autêntico craque, que fazia o couro decolar de seus pés em lançamentos que sempre chegavam com “açúcar” aos companheiros.

Fumante inveterado, Gerson também ficou marcado pela campanha publicitária dos cigarros Vila Rica nos anos setenta, quando protagonizou o “jeitinho brasileiro” de levar vantagem em tudo.

– “Por que pagar mais caro se o Vila me dá tudo aquilo que eu quero de um bom cigarro? Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também, leve Vila Rica!”

O falador Gerson, também conhecido como “Papagaio”, trabalhou como autor de colunas esportivas e como comentarista esportivo de rádio e televisão, sempre completando seus apontamentos e opiniões com um habitual “Tá certo”.

Crédito: revista Placar - 23 de junho de 1978.

Crédito: revista Placar – 23 de junho de 1978.

Gerson com sua família em Niterói. Crédito: revista Placar.

Gerson com sua família em Niterói. Crédito: revista Placar.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Patrício Renato, Teixeira Heizer, Raul Quadros e Michel Laurence), revista do Esporte, revista Manchete, revista Manchete Esportiva, revista Futebol, revista Fatos e Fotos, revista O Cruzeiro, revista do Fluminense, lancenet.com.br, esportes.r7.com, globoesporte.globo.com, gazetaesportiva.net, albumefigurinhas.no.comunidades.net, blog.maismemoria.net, campeoesdofutebol.com.br, veja.abril.com.br, site do Milton Neves.

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