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Era uma partida do Remo contra o Desportiva, válida pelo campeonato brasileiro. O experiente técnico Sylvio Pirillo gostou do que viu e recomendou sua contratação aos diretores do Corinthians, que prontamente desembolsaram 165.000 cruzeiros junto ao Madureira.

Mas essa história de final feliz foi construída por caminhos sinuosos, cercados de incertezas e muito sofrimento.

O carioca da gema, José Carlos dos Santos, nasceu no dia 3 de junho de 1949. Sobre o apelido, o próprio volante nunca soube justificar se o correto era escrever Ruço ou Russo.

Quando lembrava da infância, o jogador não conseguia esconder uma grande mágoa: Não conheceu o próprio pai!

Ruço, em destaque, no time do Madureira em 1973.

Ruço, em destaque, no time do Madureira em 1973.

Crédito: jornal do Sports - Rio de Janeiro.

Crédito: jornal do Sports – Rio de Janeiro.

Adolescência sofrida, sem endereço fixo, Ruço passava algum tempo com seu avô, depois ficava na casa de uma tia para em seguida ter que encontrar abrigo com um amigo ou mesmo com um vizinho.

Sem muitas possibilidades para se dedicar aos estudos, concluiu apenas o terceiro ano ginasial. Precisando sobreviver, trabalhou como torneiro mecânico.

Bateu primeiramente nas portas do Olaria A.C e não foi aprovado. Continuou batendo sua bolinha no departamento autônomo da Federação Carioca até conseguir ser aprovado no Madureira em 1970.

Em 1973 foi emprestado ao Botafogo de Futebol e Regatas onde fez boas partidas e agradou. Era uma boa chance e Ruço ficou empolgado.

Crédito: revista Placar - 31 de janeiro de 1975.

Crédito: revista Placar – 31 de janeiro de 1975.

Ruço quando chegou ao Parque São Jorge.

Ruço quando chegou ao Parque São Jorge.

Mas, na hora do acerto de 400.000 cruzeiros junto ao Madureira, os dirigentes do time da “Estrela Solitária” avisaram que o dinheiro estava curto. Agradeceram ao pessoal de Conselheiro Galvão e até pediram prioridade em uma futura negociação.

Emprestado novamente ao Clube do Remo para disputar o campeonato brasileiro, voltou ao mesmo Madureira ainda em 1974. No ano seguinte, despertou o interesse do América e do Fluminense.

O batalhador Ruço descortinou um futuro promissor quando Isidoro Matheus, irmão do presidente Vicente Matheus, desembarcou no Rio de Janeiro, naquele começo de 1975, para acertar sua contratação junto ao time carioca.

Naquela época, o Parque São Jorge estava agitado. O clima estava pesado, torcida triste!

Ruço e seus companheiros comemoram gol contra a Ponte Preta no Pacaembu. Crédito: acervo do fotógrafo Domício Pinheiro.

Ruço e seus companheiros comemoram gol contra a Ponte Preta no Pacaembu. Crédito: acervo do fotógrafo Domício Pinheiro.

Depois da dolorida derrota para o Palmeiras em dezembro de 1974, Vicente Matheus sofria calado, dividido entre vender Roberto Rivellino e contratar bons valores para uma temporada mais produtiva em 1975.

Sem muito alarde, Ruço desembarcou em São Paulo. Disposto em mostrar que não chegou apenas para compor o elenco, começou sua preparação para disputar os compromissos da “Copa São Paulo”.

Disputado no início de 1975, o torneio internacional reuniu, além do Corinthians, o San Lorenzo da Argentina, o São Paulo e o Peñarol do Uruguai.

A possibilidade de conquistar um título no Corinthians, mesmo que não fosse em uma competição oficial, era tudo que Ruço queria para começar com o pé direito no futebol paulista.

Beijinhos para uma torcida sofrida.

Beijinhos para uma torcida sofrida.

Crédito: revista Placar - 3 de dezembro de 1976.

Crédito: revista Placar – 3 de dezembro de 1976.

Na estréia da Copa São Paulo, em primeiro de fevereiro, vitória do Corinthians sobre o San Lorenzo por 1×0, gol do meia Ernesto Lance. No jogo seguinte, um empate com o Tricolor no tempo normal e uma vitória nos pênaltis garantiram o título do torneio.

Além da cabeleira cor de fogo, Ruço mostrava muita disposição. Seu esforço sem limites e sua vontade de vencer foram aos poucos desenhando seu espaço no coração da fiel.

Ruço nunca foi um craque, sua principal característica era uma emocionante dedicação, uma verdadeira entrega pessoal dentro dos gramados.

Quando fazia um gol, como aquele que fez contra o Internacional no Morumbi em 1976, Ruço corria oferecendo seus beijinhos. Ganhou da Fiel Torcida o apelido de “Beijinho Doce”.

O gol de Ruço contra o Fluminense. Crédito: revista Placar.

O gol de Ruço contra o Fluminense. Crédito: revista Placar.

Moisés, Rivellino e Ruço no pesado gramado do Maracanã em 1976.

Moisés, Rivellino e Ruço no pesado gramado do Maracanã em 1976.

Mesmo sendo um volante, Ruço atuou em várias oportunidades como meia. E foi usando o número dez nas costas que Ruço viveu seu primeiro grande momento pelo Corinthians.

Foi contra o Fluminense no Maracanã, em 5 de dezembro de 1976, na famosa “Invasão da Fiel”, pela semifinal do campeonato brasileiro daquele ano.

A partida, realizada embaixo de muita chuva, terminou empatada por 1×1. Ruço foi o autor do gol de empate do time paulista, enquanto o tento do time carioca foi anotado por Carlos Alberto Pintinho. Nos pênaltis, o goleiro Tobias brilhou e o Corinthians venceu o Fluminense.

Na final do campeonato, contra o poderoso Internacional no estádio Beira Rio, o Corinthians não conseguiu segurar o time de Rubens Minelli e foi derrotado por 2×0.

Ruço, jaqueta 5, no momento da comemoração do gol de Basílio contra a Ponte Preta em 1977.

Ruço, jaqueta 5, no momento da comemoração do gol de Basílio contra a Ponte Preta em 1977.

Crédito: revista do Corinthians - Edição comemorativa do título de 1977.

Crédito: revista do Corinthians – Edição comemorativa do título de 1977.

Ruço também foi peça fundamental na conquista do histórico campeonato paulista de 1977, seu único título oficial enquanto esteve no Parque São Jorge.

Permaneceu no Corinthians até o ano de 1978, totalizando 201 partidas com 107 vitórias, 46 empates, 48 derrotas e 22 gols marcados.

Os números foram publicados pelo reconhecido Almanaque do Corinthians, de autoria de Celso Dario Unzelte.

Em seguida, foi negociado com o Botafogo do Rio de Janeiro, onde chegou junto com o ponteiro esquerdo Ziza. Era mais um desafio alvinegro em sua carreira.

Crédito: revista Placar número 477 – 15 de junho de 1979. 

Crédito: revista Placar número 477 – 15 de junho de 1979.

O Botafogo em 1979. Em pé: Perivaldo, Ubirajara, Mílton, Renê, Ruço e China. Agachados: Cremilson, Dé, Wescley, Renato Sá e Ziza. Crédito: revista Placar.

O Botafogo em 1979. Em pé: Perivaldo, Ubirajara, Mílton, Renê, Ruço e China. Agachados: Cremilson, Dé, Wescley, Renato Sá e Ziza. Crédito: revista Placar.

Com 230 mil cruzeiros de luvas e salário mensal de 25 mil, Ruço retornou ao Rio de Janeiro para tentar buscar sua tão esperada independência financeira.

O mesmo Botafogo, que no início de sua carreira era apenas um sonho, agora poderia representar um novo momento, um recomeço.

Sem economizar nas palavras, o meio campista revelou em matéria especial da revista Placar, que sua passagem pelo Corinthians deixou boas recordações apenas pelo carinho da torcida, não pelo dinheiro que recebeu.

– O Corinthians me pagava mal e exigia muito!

Crédito: revista Placar.

Crédito: revista Placar.

O valente meio campista atuou ainda pelo Volta Redonda, Olaria A.C (RJ), C.A Juventus, Rio Branco (ES) e outras equipes antes de encerrar definitivamente sua carreira.

Aposentado, viveu os últimos anos de vida na rua Cisplatina, em Irajá, na zona norte do Rio de Janeiro.

Figura querida, vivia rodeado de amigos e admiradores. De tempo em tempo, recebia o pessoal de imprensa para reportagens onde contava um pouco de sua vida dentro dos estádios.

Ruço faleceu aos 63 anos de idade no dia primeiro de setembro de 2012, em decorrência de um AVC (acidente vascular cerebral).

Ruço: Pescaria, sossego e saudades da bola. Crédito: revista Placar número 1132 - Outubro de 1997.

Ruço: Pescaria, sossego e saudades da bola. Crédito: revista Placar número 1132 – Outubro de 1997.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por João Areosa, Ari Borges, Dagomir Marquezi, José Maria de Aquino e Maria Helena Araujo), revista Manchete Esportiva, revista do Corinthians, campeoesdofutebol.com.br, Jornal do Sports – Rio de Janeiro, gazetaesportiva.net, esporte.uol.com.br, estadao.com.br, blog.maismemoria.net, site do Milton Neves, acervo do fotógrafo Domício Pinheiro, Almanaque do Corinthians – Celso Dario Unzelte.

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