Tags

, , , ,

Assistindo uma partida entre Remo e Desportiva, o técnico Sylvio Pirillo gostou do futebol apresentado por Ruço e recomendou sua contratação aos diretores do Corinthians, que prontamente desembolsaram 165.000 cruzeiros junto ao Madureira.

Mas essa história de final feliz foi construída por caminhos sinuosos, cercados de incertezas e muito sofrimento.

O carioca da gema, José Carlos dos Santos, nasceu no dia 3 de junho de 1949. Sobre o apelido, o próprio jogador nunca soube explicar se a forma correta de escrever era Ruço ou Russo.

Ruço, que não conheceu o próprio pai, nunca esqueceu da juventude sofrida.

Sem endereço fixo, o rapaz passava algum tempo na casa do avô. Depois ficava na casa de uma tia para em seguida precisar encontrar abrigo com um amigo ou mesmo com um vizinho.

Ruço, em destaque, no time do Madureira em 1973. Crédito: revista Placar.

Ruço, em destaque, na barreira do Madureira torcendo para Zico errar o alvo. Crédito: revista Placar – 6 de dezembro de 1974.

Sem muitas possibilidades para se dedicar aos estudos, o jovem Ruço concluiu apenas o terceiro ano ginasial. Precisando sobreviver, trabalhou até como Torneiro Mecânico.

Bateu primeiramente nas portas do Olaria Atlético Clube e não foi aprovado. Continuou jogando sua bolinha no Departamento Autônomo da Federação Carioca, até conseguir ser aprovado no Madureira em 1970.

Em 1973 foi emprestado ao Botafogo de Futebol e Regatas, onde fez boas partidas e agradou. Era uma boa chance e Ruço ficou empolgado.

Mas, na hora do acerto de 400.000 cruzeiros junto ao Madureira, os dirigentes do time da “Estrela Solitária” avisaram que o dinheiro estava curto. Agradeceram ao pessoal de Conselheiro Galvão e até pediram prioridade em uma futura negociação.

Crédito: revista Placar – 31 de janeiro de 1975.

Ruço quando chegou ao Corinthians. Crédito: gazetaesportiva.net.

Emprestado novamente ao Clube do Remo para disputar o campeonato brasileiro, Ruço voltou ao mesmo Madureira ainda em 1974. No mesmo período despertou o interesse do América e do Fluminense.

O batalhador Ruço só descortinou um futuro promissor no início de 1975, quando Isidoro Matheus, irmão do presidente Vicente Matheus, desembarcou no Rio de Janeiro para acertar sua contratação junto ao time carioca.

Na época, o Corinthians passava por um momento de reconstrução. Depois da dolorida derrota para o Palmeiras em dezembro de 1974, Vicente Matheus negociou o passe de Roberto Rivellino.

Sem muito tempo e precisando dar uma resposta para a Fiel Torcida, Vicente Matheus esperava contratar bons valores para a temporada de 1975.

Ruço e seus companheiros comemoram o gol contra a Ponte Preta em partida disputada no Pacaembu. Crédito: acervo do fotógrafo Domício Pinheiro.

Sem muito alarde, Ruço desembarcou em São Paulo. Disposto em mostrar que não chegou apenas para compor o elenco, o volante carioca começou sua preparação para os compromissos da “Copa São Paulo”.

Disputado no início de 1975, o torneio internacional reuniu, além do Corinthians e do São Paulo, o San Lorenzo da Argentina e o Peñarol do Uruguai.

A possibilidade de conquistar um título no Corinthians era tudo que Ruço queria para começar com o pé direito no futebol paulista, mesmo que aquela competição não fosse de cunho oficial.

Na estreia da Copa São Paulo, o Corinthians venceu o San Lorenzo por 1×0, gol do meia Ernesto Lance. No jogo seguinte, um empate com o Tricolor no tempo normal e uma vitória nas penalidades garantiram o título do torneio.

Beijinhos para uma torcida sofrida. Crédito: revista Placar.

Crédito: revista Placar – 3 de dezembro de 1976.

Além da cabeleira cor de fogo, Ruço mostrava muita disposição. Seu esforço sem limites e sua vontade de vencer foram aos poucos desenhando seu espaço no coração da Fiel.

Ruço nunca foi um craque. Sua principal característica era uma emocionante dedicação, uma verdadeira entrega pessoal dentro dos gramados.

Quando fazia um gol, como aquele que fez contra o Internacional no Morumbi em 1976, pelo campeonato brasileiro, Ruço corria oferecendo seus beijinhos. Ganhou o apelido de “Beijinho Doce”.

Volante de origem, Ruço atuou em várias oportunidades como meia de armação. E foi usando o número 10 nas costas que Ruço viveu seu primeiro grande momento pelo Corinthians.

Crédito: revista do Corinthians – Edição comemorativa do título de 1977.

Ruço, camisa 5, no momento da comemoração do gol de Basílio contra a Ponte Preta em 1977. Crédito: gazetaesportiva.net.

Foi contra o Fluminense no Maracanã, em 5 de dezembro de 1976, na famosa “Invasão da Fiel”, pela semifinal do campeonato brasileiro daquele ano. A partida, realizada embaixo de muita chuva, terminou empatada por 1×1.

Ruço foi o autor do gol de empate do time paulista, enquanto o gol do time carioca foi marcado por Carlos Alberto Pintinho. Nos pênaltis, o goleiro Tobias brilhou e o Corinthians venceu o Fluminense.

Na final do campeonato, contra o poderoso Internacional no Estádio Beira Rio, o Corinthians não conseguiu segurar o time de Rubens Minelli e foi derrotado por 2×0.

Ruço também foi determinante na conquista do histórico campeonato paulista de 1977, seu único título oficial enquanto esteve no Parque São Jorge.

Crédito: revista Placar número 477 – 15 de junho de 1979.

O Botafogo em 1979. Em pé: Perivaldo, Ubirajara, Mílton, Renê, Ruço e China. Agachados: Cremilson, Dé, Wescley, Renato Sá e Ziza. Crédito: revista Placar.

Permaneceu no Corinthians até 1978. Foram 201 partidas com 107 vitórias, 46 empates, 48 derrotas e 22 gols marcados. Os números foram publicados pelo Almanaque do Corinthians, de autoria de Celso Dario Unzelte.

Em seguida, Ruço foi negociado com o Botafogo do Rio de Janeiro, onde chegou junto com o ponteiro esquerdo Ziza. Era mais um desafio alvinegro em sua carreira.

Com 230 mil cruzeiros de luvas e um salário mensal de 25 mil, Ruço retornou ao Rio de Janeiro para buscar sua tão esperada independência financeira.

O mesmo Botafogo, que no início de sua carreira era apenas um sonho, agora poderia representar um novo momento, um recomeço.

Ruço no Volta Redonda. Crédito: revista Placar.

Sem economizar nas palavras, o meio campista revelou na revista Placar que sua passagem pelo Corinthians deixou boas recordações pelo carinho da torcida, não pelo dinheiro que recebeu.

– O Corinthians me pagava mal e exigia muito!

O valente Ruço jogou ainda pelo Rio Branco (ES), Olaria (RJ), Volta Redonda (RJ), Juventus (SP) e outras equipes antes de encerrar definitivamente sua carreira.

Figura querida e sempre cercado de amigos, Ruço viveu os últimos anos de vida na rua Cisplatina, em Irajá, Zona Norte do Rio de Janeiro.

José Carlos dos Santos, o Ruço, faleceu no dia 1 de setembro de 2012, em decorrência de um AVC (Acidente Vascular Cerebral).

Ruço: Pescaria, sossego e saudades da bola. Crédito: revista Placar número 1132 – Outubro de 1997.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Ari Borges, Dagomir Marquezi, João Areosa, José Maria de Aquino e Maria Helena Araujo), revista Manchete Esportiva, revista do Corinthians, campeoesdofutebol.com.br, Jornal do Sports, gazetaesportiva.net, esporte.uol.com.br, estadao.com.br, blog.maismemoria.net, site do Milton Neves, acervo do fotógrafo Domício Pinheiro, Almanaque do Corinthians – Celso Dario Unzelte.

Anúncios