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Em 1990 os mandatários da FIFA tornaram o uso de caneleiras um item obrigatório de segurança. Mas, para o destemido atacante Mirandinha, essa determinação chegou tarde demais.

A rigor, pela singularidade da “alavanca” involuntária feita pelo zagueiro Baldini, talvez nem o uso de uma caneleira teria poupado sua perna esquerda da impressionante fratura, que foi registrada pelas lentes sempre atentas do fotógrafo Domício Pinheiro.

O personagem principal dessa história de dor e superação é Sebastião Miranda da Silva Filho, mais conhecido como Mirandinha, nascido na cidade paulista de Bebedouro, em 24 de fevereiro de 1952.

O prenúncio desse tragédia pessoal foi registrado pela revista Placar em sua edição de 28 de maio de 1971.

Mirandinha, centro da foto, jogando pelo América em partida contra a Portuguesa de Desportos. Crédito: site do Milton Neves.

O Corinthians pagou uma nota para ter os gols de Mirandinha. Crédito: revista Placar.

A matéria especial com Mirandinha, assinada por Narciso James, revelou um risco perigoso e consciente do então promissor atacante do Corinthians:

… Suas pernas marcadas por arranhões de travas de chuteiras mostram que ele nunca gostou de usar o protetor de canelas, limitando-se apenas ao uso de uma faixa em torno dos tornozelos…

– Felizmente até agora ainda não me machuquei com gravidade. Espero que isso nunca aconteça…

Olhos baixos, roupas simples e uma timidez quase crônica, o jovem Mirandinha não foi muito notado quando chegou ao juvenil do América Futebol Clube da cidade de São José do Rio Preto (SP) em meados de 1968.

Álbum de figurinhas Bola de Prata 1971.
Crédito: albumefigurinhas.no.comunidades.net.

Mirandinha na vitória sobre o Santos por 4×2 na Vila Belmiro. Crédito: revista Placar – 16 de abril de 1971.

Aproveitado no elenco de profissionais, Mirandinha soltou seu repertório de gols e chegou com méritos ao selecionado paulista de novos em 1970, o que fez o Corinthians investir um dinheiro alto em seu passe.

Diferente do América e diferente do ambiente pacato das cidades de Bebedouro e de São José do Rio Preto, o Corinthians daquela época era um caldeirão de emoções, cobranças e vaidades.

Rápido, oportunista e determinado, apelidado pela Fiel Torcida como um herdeiro legítimo de Baltazar, o “Cabecinha de Ouro”, Mirandinha fazia seus gols com arrancadas em grande velocidade (50 metros em 5,2 segundos).

Tais atributos o colocaram na enorme lista de “paladinos alvinegros” que tentaram chegar ao tão sonhado título paulista.

Crédito: revista Placar – 28 de maio de 1971.

Entre os grandes momentos de Mirandinha no Corinthians registramos o “Derby” de 25 de abril de 1971, no nublado estádio do Morumbi.

Mirandinha foi o autor do gol da vitória na emocionante virada sobre o Palmeiras por 4×3. Até hoje esse clássico é lembrado como uma das páginas mais emocionantes do futebol paulista.

Ainda em 1971 seu nome foi lembrado nas convocações da Seleção Brasileira principal, que iniciava um processo de reformulação da geração que conquistou o mundial de 1970.

Mas o esperado título não aconteceu e Mirandinha foi mais um nome sepultado no Parque São Jorge. Permaneceu no Corinthians até o segundo semestre de 1973, quando foi negociado inicialmente por empréstimo com o São Paulo Futebol Clube.

Crédito: revista Placar – 28 de maio de 1971.

Pelo Corinthians o centroavante disputou um total de 162 jogos, obtendo 70 vitórias, 55 empates, 37 derrotas e 50 gols marcados. Os números foram publicados pelo Almanaque do Corinthians, de autoria de Celso Dario Unzelte.

Mirandinha se adaptou bem no time do Morumbi e foi contratado em definitivo. Com 12 gols em 20 jogos no campeonato brasileiro de 1973, o centroavante conquistou o concorrido prêmio da “Bola de Prata” da revista Placar.

Um desses gols valeu uma aposta com o comentarista da antiga TV Tupi, Geraldo Bretas. Bretas dizia que Mirandinha só fazia gols em times fracos e que contra o sistema defensivo do então campeão brasileiro de 1972, o Palmeiras, ele não faria nada.

Bretas ainda foi mais longe ao afirmar que ficaria careca caso Mirandinha marcasse um gol na forte defesa esmeraldina. Mirandinha topou o desafio!

Mirandinha contra o Palmeiras no histórico “4×3” de 1971. Crédito: revista Placar – Série Grandes Reportagens.

Quando o dia do clássico contra o Palmeiras chegou, Mirandinha marcou os dois gols da vitória tricolor por 2×1 e o cabelo de Bretas foi raspado ao vivo no programa “Clube dos Artistas”, de Aírton e Lolita Rodrigues.

O atacante também marcou presença no selecionado canarinho durante o período de preparação para o mundial de 1974 na Alemanha. Sua convocação definitiva foi confirmada depois do corte de Clodoaldo Tavares Santana.

Na copa, Mirandinha não fez gols nas quatro partidas em que esteve em campo: Escócia, Zaire, Holanda e Polônia.

Seu drama pessoal começou na tarde de 24 de novembro de 1974, em partida válida pelo campeonato paulista na cidade de São José do Rio Preto, contra o mesmo América que o revelou para o futebol.

Em uma disputa de bola com o zagueiro Baldini, Mirandinha sofreu uma fratura dupla na tíbia e na fíbula.

Crédito: revista Placar.

A impressionante fratura de Mirandinha registrada pelas lentes sempre atentas do fotógrafo Domício Pinheiro.

Ainda no gramado, Mirandinha recebeu os primeiros cuidados e foi prontamente substituído por Serginho Chulapa, que praticamente iniciava sua trajetória no Morumbi.

Mirandinha, que ficou afastado durante dois anos e meio, foi desenganado pelos médicos para o futebol. Ao todo, foram sete cirurgias, sendo que em duas foi necessário o uso de enxertos ósseos.

Um dia, depois de muito tempo, Mirandinha entrou feliz em casa. Abraçou a mãe Maria, que costumeiramente chamava de Zirda:

– Zirda, suas rezas deram certo! Já posso treinar com bola e em breve poderei jogar!!

E Mirandinha treinou com autorização do médico Dalzell Freire Gaspar. Correu, brigou e dividiu, mostrando que o medo já não fazia mais parte de sua nova realidade.

Crédito: revista Placar – 10 de outubro de 1975.

Crédito: revista Placar – 3 de junho de 1977.

Perseguindo o técnico Poy, Mirandinha continuava sua campanha particular por uma oportunidade de voltar ao time.

– Seu Poy, o senhor vai me colocar no banco?… Quando eu vou jogar?… Vou ser aproveitado ainda nesse campeonato?

E Poy desconversava. Em sua cabeça experiente, Poy procurava uma forma de oferecer condições para que Mirandinha pudesse voltar sem nenhuma espécie de risco.

Em 7 de dezembro de 1977, Mirandinha finalmente voltou aos gramados. O adversário foi o Brasília no estádio do Pacaembu, pela segunda fase do campeonato brasileiro.

Mirandinha entrou durante o segundo tempo substituindo ao mesmo Serginho Chulapa, que já era o dono da posição.

Crédito: revista Placar – 3 de junho de 1977.

Crédito: revista Veja.

Pouco tempo depois, em razão de uma suspensão por indisciplina de Serginho, que foi afastado por dez meses dos gramados por agredir o bandeirinha Valdevaldo Rangel, Mirandinha retomou sua condição de titular.

O futebol é engraçado. Ele (Serginho) entrou no meu lugar quando eu estava na melhor fase de minha carreira. E agora eu entro no lugar dele quase na mesma situação”.

Mirandinha ainda integrou o elenco campeão brasileiro de 1977 sob o comando do técnico Rubens Minelli. Depois de 93 jogos pelo São Paulo com 43 gols marcados, Mirandinha foi jogar nos Estados Unidos, onde permaneceu até o ano de 1979.

Quando voltou ao Brasil, o centroavante atuou por várias equipes, como o Atlético Goianiense e o Taubaté antes de encerrar sua carreira como profissional em 1985, defendendo o Ginásio Pinhalense.

Mirandinha e o técnico Rubens Minelli. Crédito: revista Placar – 16 de dezembro de 1977.

Crédito de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por José Maria de Aquino e Carlos Maranhão), revista Manchete Esportiva, revista Veja, revista Grandes Clubes Brasileiros, gazetaesportiva.net, agência Estado, site do Milton Neves, albumefigurinhas.no.comunidades.net, Almanaque do Corinthians – Celso Dario Unzelte, saopaulofc.net.

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