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Caetano da Silva Nascimento nasceu na cidade do Rio de Janeiro (RJ), em 7 de agosto de 1930. De origem humilde, o trabalho apareceu precocemente para o menino que precisava ajudar nas despesas da casa.

A batalha pela sobrevivência começava quando o danado do despertador tocava de madrugada. Ainda embriagado pelo sono, Caetano mal tomava o café e saia correndo pelas ruas escuras que levavam ao cais do porto.

Sua avantajada composição física foi moldada debaixo do sol impiedoso, quando embarcava pesadas sacas de café e farinha nos navios atracados. Aos domingos, o tempo era reservado aos amigos e aos prazeres do futebol,

A mãe dona Joana era uma senhora batalhadora, que sempre procurava oferecer bons exemplos ao filho. Entre tantos conselhos, um deles em especial parecia não surtir qualquer efeito:

– Domingo é dia pra descansar Caetano. Pare com essa “moda de bola” senão teu corpo não aguenta trabalhar na segunda feira!

Com pele aveludada, alguns companheiros o chamavam de Veludo, apelido que o acompanhou por toda sua vida. Crédito: revista O Cruzeiro – Encarte ídolos do futebol brasileiro.

Entretanto, todo final de semana era bola pra lá e bola pra cá! E dona Joana, preocupada, não sabia mais o que fazer. Afinal, o rapazola era um estivador e precisava de repouso, mesmo que fosse em um único dia. Mas não tinha jeito!

E mal o domingo amanhecia e lá estava aquela figura engomadinha. Com brilhantina no cabelo e uma voz estridente, o sujeito chamava sem parar no portão: “Caetano… Caetano… Caetano. Vamos logo”.

Então, lá ia o cansado Caetano com sua mochilinha nos ombros e um pedaço de pão espremido ao lado da tal figura engomadinha, que era conhecido no bairro como “Armandinho Castanheira”.

Assim, caminhando em passos largos por ladeiras impiedosas, ambos seguiam rapidamente para o campo do Harmonia, um time amador do bairro da Saúde.

Com o passar do tempo, Armandinho Castanheira iniciou sua trajetória como juiz de futebol. É considerado uma das maiores referências na arbitragem e ficou famoso como Armando Marques.

O passatempo preferido de Veludo. Cuidar da casa e desfrutar da coleção de discos na vitrola nova. Foto de José Santos. Crédito: revista O Globo Sportivo número 677.

Da estiva ao arco do Fluminense, Veludo não suportou por muito tempo o glamour do próprio sucesso. Foto de José Santos. Crédito: revista O Globo Sportivo número 677.

Inconformado com o sacrifício diário do amigo Caetano, em 1947 Armando Marques decidiu dar um grande “chacoalhão” na dura rotina de Caetano:

Vou te levar para fazer testes lá no Fluminense. Você precisa parar com aquela “vida de cão” que te consome lá no cais!

Em seu primeiro treino nas Laranjeiras Caetano não foi bem. Mesmo assim, o ex jogador Preguinho incentivou Armando Marques para trazer o rapaz novamente. Aprovado no segundo treino, Caetano foi prontamente aproveitado no quadro juvenil, onde mais tarde conquistou com brilho o título da categoria de 1948.

Foi nesse período que Caetano ganhou o apelido que tanto o consagrou. Com sua pele aveludada, alguns companheiros o chamavam de Veludo, denominação que o acompanhou por toda sua vida.

Em 1949 foi promovido ao time de Aspirantes, um ano especial em sua luta por um lugar ao sol. Em razão da convocação de Castilho para o mundial de 1950, Veludo recebeu sua tão sonhada oportunidade entre os titulares.

Cabeção, Oswaldo Baliza e Veludo. A briga pela camisa de titular do escrete. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 830 – 4 de março de 1954.

21 de março de 1954. O Brasil venceu o Paraguai pelo placar de 4×1 no Maracanã, compromisso válido pelas eliminatórias da Copa do Mundo da Suíça. Partindo da esquerda; Baltazar, Didi, Humberto Tozzi, Gerson, Veludo, Nilton Santos, Maurinho, Julinho Botelho, Brandãozinho, Djalma Santos, Bauer, Zezé Moreira e Mário Américo. Crédito: revista Manchete Esportiva.

Ágil, elástico e sobretudo arrojado, o jovem goleiro ganhou confiança e muito crédito junto aos dirigentes e torcedores.

Campeão carioca de 1951, Veludo foi convocado para o selecionado carioca de novos e logo foi transformado em uma verdadeira sombra para o lendário Castilho, que inclusive amargou o banco de reservas em algumas oportunidades.

Quando Castilho recuperava o lugar, Veludo esperava pacientemente por mais uma chance. Mesmo não sendo o titular absoluto da meta do Fluminense, a torcida tricolor gritava seu nome em coro nas arquibancadas do Maracanã.

Os torcedores, com orgulho, diziam que o time contava com uma dupla “Café com Leite”. Em 1953, o nome de Veludo foi lembrado pela primeira vez na Seleção Brasileira. Mas o reconhecimento só foi conquistado no dia 7 de março de 1954.

Com o titular Castilho adoentado, Veludo foi escalado diante do Paraguai em Assunção, um importante compromisso válido pelas eliminatórias da Copa do Mundo.

Uma conquista pessoal com a camisa do escrete. Crédito: reprodução revista Esporte Ilustrado número 919.

Durante o jogo, os torcedores paraguaios atiraram de tudo em cima do “guarda-redes” brasileiro. Nada adiantou! Veludo pegou tudo e Baltazar marcou o gol da vitória brasileira. Uma atuação inesquecível!

Depois do brilhante desempenho, Veludo conquistou sua vaga para o mundial da Suíça. Pela primeira vez uma equipe tinha dois goleiros convocados para uma Copa do Mundo.

Novamente, Veludo teve que se contentar na suplência de Castilho. Mesmo com nossa desclassificação diante da poderosa Hungria, o time canarinho foi recebido com aplausos em seu retorno ao Brasil.

No Fluminense, sempre que era solicitado, Veludo entrava e fazia sua parte com o mesmo empenho de sempre. Embebido pelo sucesso, suas escapadinhas para os bares do porto eram cada vez mais frequentes.

Até a fatídica tarde do dia 18 de dezembro de 1955, quando a cidade do Rio de Janeiro parou para assistir mais um empolgante “Fla-Flu”.

Ágil, elástico e arrojado, Veludo ganhou confiança e muito crédito junto aos torcedores. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 891 – 5 de maio de 1955.

Veludo viveu uma tarde de pesadelos diante do Flamengo! Crédito: revista Manchete Esportiva número 5.

O Fluminense começou bem e abriu o marcador do Maracanã; para em seguida o contagiante Flamengo derrubar um verdadeiro caminhão de gols em cima de Veludo. No final do prélio, o placar apontava um humilhante 6×1 em favor do Rubro-Negro.

Acusado de “vender o jogo”, Veludo foi multado em 60% de seus vencimentos e caiu em total desgraça. Alguns críticos afirmaram que o goleiro tricolor enganou seus companheiros ao entrar em campo visivelmente bêbado.

Sem clima no clube, seu passe foi emprestado para o Club Nacional de Football do Uruguai, uma passagem muito curta e totalmente apagada.

Alguns meses depois, Veludo voltou ao mesmo Fluminense para pouco depois ser negociado em definitivo junto aos representantes do Canto do Rio Foot-Ball Club (RJ), lá permanecendo até 1957.

Na temporada seguinte apareceu uma oferta salvadora do Santos Futebol Clube. Era uma oportunidade de redenção no cenário paulista!

O goleiro Veludo aparece em sua breve passagem pelas fileiras do Canto do Rio. Crédito: revista Esporte Ilustrado.

Envolvido em um turbilhão de problemas particulares, Veludo foi dispensado do Atlético Mineiro. De volta ao Rio de Janeiro, o goleiro firmou compromisso com o Madureira. Crédito: revista do Esporte número 141 – 18 de novembro de 1961.

Mesmo com o título de campeão paulista de 1958, Veludo deixou o clube praiano depois de uma atuação também muito questionada diante da Portuguesa de Desportos.

Imputado como alcoólatra pelos corneteiros da Vila Belmiro, ainda em 1958 Veludo acertou suas bases com o Clube Atlético Mineiro (MG). Envolvido em problemas particulares, o goleiro carioca acabou dispensado em 1960.

Voltou ao Rio de Janeiro para defender o Madureira nas temporadas de 1961 e 1962. Aborrecido e percebendo que sua trajetória estava no fim, Veludo ainda tentou uma última cartada no Esporte Clube Renascença (MG), equipe onde também encerrou sua caminhada nos primeiros meses de 1963.

Fora dos gramados, o vício do alcoolismo continuou. Esquecido pelos familiares, Veludo conheceu a triste realidade das ruas. Com apenas 39 anos e pouco mais de 40 quilos, Veludo aparentava o dobro de sua idade.

Curtia suas últimas cachaças e tinha dificuldades até para reconhecer os amigos. Depois de crises constantes no fígado e no pâncreas, além da diabetes, Veludo faleceu na cidade do Rio de Janeiro, em 26 de outubro de 1970, embora algumas fontes apontem seu falecimento em 1979.

Veludo quando jogou pelo Atlético Mineiro. Crédito: revista Placar – 13 de fevereiro de 1981.

Do sucesso ao cruel e triste esquecimento! Crédito: revista Placar – 13 de fevereiro de 1981.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Carlos Maranhão, Luís Fernando Veríssimo e Maria Helena Araujo), revista A Gazeta Esportiva Ilustrada, revista do Esporte, revista Esporte Ilustrado, revista Manchete Esportiva, revista Grandes Clubes Brasileiros, revista O Cruzeiro, revista O Globo Sportivo (por José Santos), revista Vida do Crack, Jornal dos Sports, Jornal Estado de Minas, Jornal O Globo, acervo.oglobo.globo.com, acervosantosfc.com, campeoesdofutebol.com.br, fluminense.com.br, gazetaesportiva.net, globoesporte.globo.com, museudosesportes.blogspot.com, site do Milton Neves.

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