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A batalha pela sobrevivência começava quando o despertador apontava quatro da manhã. Ainda embriagado pelo sono, Caetano se arrumava correndo e caminhava pelas ruas escuras que levavam ao cais do porto.

A avantajada composição física foi moldada no sol forte, embarcando pesadas sacas de farinha e café nos navios atracados. Aos domingos, finalmente descansava e jogava futebol com os amigos.

Caetano da Silva Nascimento nasceu no dia 7 de agosto de 1930. De origem humilde, começou ajudar nas despesas da casa quando ainda era um menino.

A mãe de Caetano, que se chamava Joana, era uma senhora batalhadora e vivida, que procurava oferecer bons costumes e exemplos de conduta ao filho. Entre tantos conselhos, um deles parecia não surtir o menor efeito:

– Domingo é dia pra descansar Caetano. Pare com essa “moda de bola” senão teu corpo não aguenta trabalhar na segunda feira!

“Vou te levar para fazer testes no Fluminense. Dizia o engomadinho Armando Marques ao amigo Veludo. Crédito: Foto Postal Colombo.

Crédito: revista O Cruzeiro – Encarte ídolos do futebol brasileiro.

Entretanto, todo final de semana era a mesma coisa. Bola pra lá e bola pra cá. E dona Joana, preocupada, não sabia mais o que fazer. Afinal, o garoto era um estivador e precisava de descanso, mesmo que fosse em um único dia. Mas não tinha jeito!

E mal o domingo amanhecia e lá estava novamente aquela figura engomadinha, com brilhantina no cabelo e uma voz estridente, quase irritante, chamando sem parar no portão:

– Caetano… Caetano… Caetano. Vamo logo!

E lá ia o cansado Caetano, muchilinha nos ombros e um pedaço de pão espremido na mão. A figura engomadinha, de voz estridente, era conhecido no bairro como Armandinho Castanheira.

Assim, caminhando em passos largos por ladeiras impiedosas, os dois seguiam rapidamente para o campo do Harmonia, um time amador do bairro da Saúde.

Crédito: Arquivo Público do Estado de São Paulo – Memória Pública – Jornal Última Hora.

O Fluminense em 1953 na Colômbia. Em pé: Píndaro, Jair Santana, Emilson, Bigode, Veludo e Duque. Agachados: Telê, Robson, Marinho, Octávio e Quincas. Crédito: albumdosesportes.blogspot.com.br.

Com o passar do tempo, o tal Armandinho Castanheira, que era metido a dono do time, iniciou sua carreira como árbitro e entrou definitivamente para os livros de história do futebol. Até hoje seu nome é uma das maiores referências na arbitragem.

Em 1947 foi o próprio Armando que deu um chacoalhão na vida de Caetano. Inconformado com o sacrifício do amigo Caetano, Armando estabeleceu uma espécie de promessa pessoal:

Vou te levar para fazer testes no Fluminense. Você precisa parar com aquela “vida de cão” que te consome lá no cais!

Em seu primeiro treino nas Laranjeiras, Caetano não foi muito bem.

O ex jogador Preguinho incentivou Armando Marques para trazer o garoto novamente. Em seu segundo treino, Caetano foi aprovado e prontamente foi colocado no quadro juvenil, onde conquistou o campeonato da categoria em 1948.

Veludo na seleção Brasileira. Crédito: reprodução revista Esporte Ilustrado número 919.

Foi nesse período que Caetano ganhou o apelido que tanto o consagrou. Pela tonalidade de sua pele aveludada, alguns companheiros o chamavam de Veludo, apelido que o acompanhou por toda sua vida.

Em 1949, Veludo já atuava pelos Aspirantes. Em razão da convocação do goleiro Castilho para o mundial de 1950, Veludo ganhou sua tão sonhada oportunidade entre os titulares.

Elástico, ágil e arrojado, o jovem goleiro ganhou confiança e muita popularidade junto aos torcedores.

Campeão carioca de 1951, Veludo foi convocado para o selecionado carioca de novos e se transformou em uma verdadeira sombra do goleiro Castilho, que amargou o banco de reservas em algumas oportunidades.

Quando Castilho recuperava o lugar, Veludo esperava pacientemente por mais uma chance. Mesmo não sendo o titular da meta do Fluminense, a torcida tricolor gritava seu nome em coro nas arquibancadas do Maracanã.

Crédito: Arquivo Público do Estado de São Paulo – Memória Pública – Jornal Última Hora.

21 de março de 1954 – O Brasil venceu o Paraguai por 4×1 no Maracanã, partida válida pelas eliminatórias da Copa do Mundo da Suíça. Partindo da esquerda; Baltazar, Didi, Humberto, Gerson, Veludo, Nilton Santos, Maurinho, Julinho Botelho, Brandãozinho, Djalma Santos, Bauer, o técnico Zezé Moreira e o massagista Mário Américo. Crédito: museudosesportes.blogspot.com.br.

Os torcedores, com orgulho, diziam que o time contava com uma dupla “Café com Leite”. Em 1953 Veludo ganhou sua primeira chance na Seleção Brasileira. Mas o reconhecimento só foi conquistado definitivamente no dia 7 de março de 1954.

Com o titular Castilho doente, Veludo foi escalado diante do Paraguai em Assunção, compromisso válido pelas eliminatórias da Copa do Mundo.

Durante o jogo, os torcedores paraguaios atiraram de tudo em cima do goleiro brasileiro. Não adiantou. Veludo pegou tudo e Baltazar marcou o gol da vitória brasileira. Uma atuação inesquecível!

Depois disso, Veludo conquistou sua vaga para o mundial da Suíça. Pela primeira vez uma equipe tinha dois goleiros convocados para uma Copa do Mundo.

Novamente, Veludo teve que se contentar na reserva de Castilho. Mesmo com nossa desclassificação diante da poderosa Hungria, o time canarinho foi recebido com aplausos em seu retorno ao Brasil.

O pesadelo de Veludo contra o Flamengo. Crédito: revista Manchete Esportiva número 5.

E a vida continuava. Veludo, sempre que exigido, entrava nas partidas e fazia sua parte com o mesmo empenho de sempre. Consagrado, dava suas escapadinhas para os bares do porto. Gostava de beber e bebia demais!

Até a fatídica tarde do dia 18 de dezembro de 1955, quando o Rio de Janeiro parou para assistir mais um empolgante “Fla-Flu”.

O Fluminense abriu a contagem e em seguida o Flamengo colocou um verdadeiro caminhão de gols em cima de Veludo. No final do prélio, o placar apontava um humilhante 6×1 em favor do Rubro-Negro.

Acusado de “vender o jogo”, Veludo foi multado em 60% de seus vencimentos e caiu em desgraça. Alguns disseram que o rapaz traiu seus companheiros ao entrar em campo visivelmente bêbado.

Sem clima no clube, Veludo foi emprestado para o Nacional do Uruguai, em uma negociação que envolveu o atacante Ambrois.

Veludo em sua época de Canto do Rio. Crédito: revista Esporte Ilustrado.

Veludo no Atlético Mineiro. Crédito: revista Placar – 13 de fevereiro de 1981.

Depois de seis meses no Uruguai, Veludo voltou ao Fluminense e foi negociado em definitivo junto ao Canto do Rio Foot-Ball Club, onde permaneceu até 1957.

No ano seguinte, apareceu uma oferta salvadora do Santos. Era uma oportunidade de ressurgir no futebol paulista.

Mesmo como campeão paulista de 1958, Veludo deixou o clube depois de uma atuação, também muito questionada, diante da Portuguesa de Desportos.

Os corneteiros de plantão da Vila Belmiro o acusavam de alcoólatra. Veludo se defendia e dizia que apenas tomava suas cervejinhas, como todo mundo faz.

Novamente as portas se fecharam. Em seguida, ainda em 1958, Veludo acertou suas bases financeiras com o Clube Atlético Mineiro, onde esteve em campo em apenas 16 oportunidades.

Crédito: revista do Esporte número 141 – 18 de novembro de 1961.

Envolvido em uma série de problemas particulares, Veludo foi dispensado do clube mineiro em 1960. Voltou novamente ao Rio de Janeiro, agora para jogar pelo Madureira nas temporadas de 1961 e 1962.

Aborrecido com o mundo da bola e sentindo que sua trajetória no futebol estava no fim, Veludo ainda tentou uma última cartada em Belo Horizonte, no Esporte Clube Renascença, onde encerrou sua carreira nos primeiros meses de 1963.

Fora dos gramados, o vício do alcoolismo continuou. Abandonado pelos familiares, conheceu a triste realidade das ruas. Com apenas 39 anos e pouco mais de 40 quilos, Veludo aparentava o dobro da idade.

Curtia suas últimas cachaças, um vício que aniquilou sua carreira profissional. Tinha dificuldades em reconhecer os amigos e mal sabia quem ele mesmo era.

Depois de constantes crises no pâncreas e no fígado, além da diabetes, Veludo faleceu em 26 de outubro de 1970, no Hospital Olivério Pena, no Rio de Janeiro.

Do sucesso ao anonimato. Crédito: revista Placar – 13 de fevereiro de 1981.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Carlos Maranhão, Luís Fernando Veríssimo e Maria Helena Araujo), revista Vida do Crack, revista O Cruzeiro, revista do Esporte, revista Esporte Ilustrado, revista A Gazeta Esportiva Ilustrada, revista Manchete Esportiva, Arquivo Público do Estado de São Paulo – Memória Pública – Jornal Última Hora, Jornal Estado de Minas, gazetaesportiva.net, campeoesdofutebol.com.br, cacellain.com.br, futepoca.com.br, globoesporte.globo.com, blogdomariomarinho.blogspot.com (por Nelson José Xavier da Silva), albumdosesportes.blogspot.com.br, museudosesportes.blogspot.com, Foto Postal Colombo, site do Milton Neves.

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