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Tudo em volta está quase deserto, salvo por um casal de pássaros “Quero-Quero”, que insiste em formar um ninho no centro do gramado.

Quando não há jogo ou treino, os frequentadores do enorme Estádio Cícero Pompeu de Toledo podem ser contados nos dedos.

Arquibancadas, numeradas, saguão, corredores, áreas de acesso, rampas, depósitos, cabines de Rádio e TV, vestiários, banheiros, refletores, gramado e até os bancos de reservas são responsabilidade de um único homem.

Os menos avisados, que jogam pontas de cigarro em qualquer canto, logo percebem o peso do olhar disciplinador de Gino Orlando, um administrador dedicado que ocupa o cargo desde 1969.

Durante anos, essa foi a rotina de vida do seu Gino Orlando, um homem que só deixou de trabalhar pelo Morumbi em 2003, quando foi afastado por problemas de saúde.

Seu Gino, pulso firme no gigante do Morumbi. Crédito: museudapessoa.net.

Gino Orlando nasceu na cidade de São Paulo (SP), em 3 de setembro de 1929.

Criado em uma casinha simples na Rua Barão do Bananal, no bairro de Vila Pompéia, Gino Orlando iniciou no futebol varzeano e ganhou destaque principalmente em sua passagem pela Associação Atlética Matarazzo.

Descoberto por olheiros foi encaminhado para os quadros amadores da Sociedade Esportiva Palmeiras no findar de 1947. Depois de passar pelos Aspirantes, Gino Orlando não marcou gols nos 4 compromissos em que jogou pelo time principal.

Foram 2 vitórias, 1 empate e 1 derrota. Os números foram publicados pelo Almanaque do Palmeiras, dos autores Celso Dario Unzelte e Mário Sérgio Venditti.

O XV de Jaú e o maior time de sua história: Lourenço, Servílio, Clóvis, Gritta, Gérsio Passadore e Gengo. Agachados: Américo Murolo, Dino Sani, Gino Orlando (em destaque), Pinga II e Itamar. Crédito: site do Milton Neves.

Equipe do Comercial da capital no gramado do Pacaembu. Em pé: Alan, Pian, Paschoal, Elpídio, Lamparina e o goleiro Cavani. Agachados: Tico, Feijão, Gino Orlando (em destaque), Dino Sani e Esquerdinha. Crédito: site do Milton Neves.

Sem perspectivas para se manter entre os titulares do Palmeiras, o jovem centroavante permaneceu no Parque Antártica até o começo de 1951, momento em que apareceu uma oportunidade de jogar pelo Esporte Clube XV de Novembro de Jaú.

Ao lado de Dino Sani, Gérsio Passadore e Américo Murolo, Gino Orlando fez parte de uma das maiores formações que o XV de Jaú montou em toda sua história.

No início da temporada de 1952, Gino Orlando e o meio campista Dino Sani foram contratados pelo Comercial Futebol Clube da capital.

Com a boa campanha do Comercial no campeonato paulista de 1952, oitavo colocado na tábua final de classificação, Gino Orlando acertou suas bases com o  São Paulo Futebol Clube.

Crédito: reprodução revista A Gazeta Esportiva Ilustrada.

Com um estilo bem particular, Gino Orlando dividia todas e criava muitas oportunidades de gol. Sua participação foi determinante na conquista do título de campeão paulista de 1953.

Entre os anos de 1956 e 1957 seu nome foi lembrado nas convocações da Seleção Brasileira. Foram 8 partidas disputadas com 3 gols marcados, um deles o “golaço de bicicleta” contra Portugal em 1956.

Nessa partida, realizada no dia 8 de abril em Lisboa, os canarinhos venceram pelo apertado placar de 1×0.

Depois do título de 1953 e do vice-campeonato de 1956, o São Paulo voltou a ter chances reais de conquista na temporada de 1957. Foi um certame bastante disputado; com Corinthians, São Paulo e Santos brigando até a última rodada.

Crédito: revista Esporte Ilustrado número 942.

Crédito: reprodução revista Manchete Esportiva – 28 de abril de 1956.

Mais especificamente, nos clássicos entre São Paulo e Corinthians, o clima foi tenso nos dois encontros. Na partida do dia 20 de outubro, um empate tumultuado por 1×1.

O jogo ficou marcado pela infelicidade ocorrida em uma dividida entre o ponta direita Maurinho e o lateral esquerdo Alfredo Ramos, o “Polvo”. Na época, Alfredo era jogador do Corinthians e fraturou a perna na jogada.

Irritado com o lance, o meia alvinegro Luizinho, o “Pequeno Polegar”, bateu boca com Gino Orlando ainda no gramado do Pacaembu. No dia seguinte, Luizinho e Gino, coincidentemente, foram visitar o lateral Alfredo que se recuperava em casa.

Quando o inevitável estranhamento recomeçou, Luizinho se deu conta que não poderia enfrentar o grandalhão Gino Orlando de igual para igual.

Então, Luizinho se afastou o suficiente para acertar uma tijolada certeira na testa do centroavante do tricolor. Quem assistiu não sabia se colocava Luizinho para correr ou socorria Gino Orlando no chão.

Crédito: revista Grandes Clubes Brasileiros.

Gino Orlando, Zizinho e Dino Sani comemoram o título paulista de 1957. Crédito: saopaulofc.net.

O corte foi profundo e o acontecimento foi amplamente divulgado nos principais jornais esportivos da época.

Tão divulgado que o famoso comunicador de televisão Manoel da Nóbrega, que naquele tempo apresentava um programa esportivo, fez questão de promover o reencontro entre os dois e assim a amizade foi reatada.

Abaixo, os dados do clássico “Majestoso” em que Alfredo Ramos quebrou a perna e o clima esquentou entre Luizinho Trochillo e Gino Orlando:

20 de outubro de 1957 – Campeonato paulista – São Paulo 1×1 Corinthians – Estádio do Pacaembu – Árbitro: Ernst Hausstaetter – Gols: Dino Sani aos 27‘ do primeiro tempo e Zague aos 32‘ do segundo tempo.

São Paulo: Poy; De Sordi e Mauro Ramos de Oliveira; Dino Sani, Riberto e Vitor; Maurinho, Amauri, Gino Orlando, Celsinho e Canhoteiro. Técnico: Bella Guttman. Corinthians: Gylmar; Olavo e Alfredo; Idário, Oreco e Walmir; Cláudio, Luizinho, Índio, Rafael e Zague. Técnico: Brandão.

Gino Orlando, em destaque, confere mais uma bola no barbante. Crédito:  gazetaesportiva.net.

Gino Orlando entre dois beques da Portuguesa Santista. Crédito: revista Manchete Esportiva número 148 – 20 de setembro de 1958.

No duelo que decidiu o campeonato, em 29 dezembro de 1957, o São Paulo venceu por 3×1 e conquistou o campeonato paulista daquele ano.

O jogo, com provocações e muitos desentendimentos, até hoje é lembrado como “O Jogo das Garrafadas”. Foi o segundo título paulista na carreira do centroavante Gino Orlando.

Gino Orlando também participou do vice-campeonato paulista nas edições de 1958 e 1962. Em ambas o Santos ficou com o título.

Jogando pelo São Paulo, Gino disputou um total de 447 partidas. Foram 250 vitórias, 96 empates, 10 derrotas e 237 gols marcados. Os números foram publicados pelo Almanaque do São Paulo, de autoria de Alexandre da Costa.

Crédito: revista do Esporte número 38 – Novembro de 1959.

Além dos títulos e dos gols, Gino Orlando também participou das festividades de inauguração do Estádio do Morumbi, em outubro de 1960. Começava assim uma relação duradoura com o gigante de concreto.

No mês de abril de 1963 seu passe foi negociado com a Associação Portuguesa de Desportos, clube que defendeu até 1964.

Em seguida firmou contrato com o Clube Atlético Juventus, onde permaneceu até 1966 para o encerramento de sua carreira como jogador profissional.

Gino Orlando faleceu de parada cardíaca em 24 de abril de 2003, na cidade de São Paulo (SP).

Conforme publicado no site do Milton Neves, Gino Orlando estava internado desde o mês de fevereiro no Hospital do Coração, onde foi submetido a uma cirurgia para correção de aneurisma no tórax.

Crédito: revista do Esporte.

Gino Orlando e Canhoteiro aparecem juntos em várias edições da revista do Esporte. Crédito imagem esquerda: revista do Esporte número 188 – 13 de outubro de 1962. Crédito imagem direita: revista do Esporte número 214 – Abril de 1963.

Créditos de imagens e informações para a criação do textorevista Placar (por Manoel Motta e Marcelo Laguna), revista do Esporte, revista Esporte Ilustrado, revista A Gazeta Esportiva Ilustrada, revista Tricolor, revista Manchete Esportiva, revista Grandes Clubes Brasileiros, Jornal Mundo Esportivo, Jornal A Gazeta Esportiva, gazetaesportiva.net, gazetadelimeira.com.br, placar.abril.com.br, museudosesportes.blogspot.com.br, museudapessoa.net, campeoesdofutebol.com.br, reliquiasdofutebol.blogspot.com, cacellain.com.br, site do Milton Neves, saopaulofc.net, Almanaque do São Paulo – Alexandre da Costa, Almanaque do Palmeiras – Celso Dario Unzelte e Mário Sérgio Venditti.

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