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Condenado ao sofrimento perpétuo por um chute mascado do ponteiro-direito do Uruguai Alcides Ghiggia, o lateral-esquerdo Bigode passou sua existência tentando esquecer aquela malfadada e interminável tarde de julho de 1950.

Mais conhecido como “Bigode”, João Ferreira nasceu em Belo Horizonte (MG) no dia 4 de abril de 1922. Começou sua trajetória no cenário amador da cidade, até que em 1938 foi encaminhado ao Sete de Setembro Futebol Clube (MG).

Baixinho, forte e muito valente, João Ferreira atuava em quase todos os setores do sistema defensivo, embora fosse mais eficiente pelo corredor esquerdo.

Naqueles tempos, João Ferreira já era conhecido pelo apelido de “Bigodinho” e mais adiante apenas por “Bigode”.

Em 1940, o Clube Atlético Mineiro (MG) entrou em entendimentos com o Sete de Setembro pelos direitos de Bigode. E foi no “Galo” que Bigode ganhou destaque pela conquista do bicampeonato mineiro de 1941 e 1942.

Partindo da esquerda; Vicentini, Paschoal e Bigode. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 397 – 15 de novembro de 1945.

Fluminense 3×3 Flamengo pelo campeonato carioca de 1947. Em partida muito disputada nas Laranjeiras, Bigode acompanha a saída do goleiro Robertinho, que chega antes do atacante Sylvio Pirillo. Crédito: revista Manchete Esportiva.

Bigode, que tinha o costume de vestir na cabeça um “gorrinho” nas cores do clube, não continuou por muito tempo no Atlético Mineiro. Com boas atuações, seu futebol despertou o interesse dos dirigentes do Fluminense Football Club (RJ) em 1943.

Pelo tricolor das Laranjeiras, o lateral mineiro conquistou seu primeiro título carioca na edição de 1946, em um sistema defensivo que contava com bons valores; como o goleiro Robertinho, Pascoal, Pé de Valsa, Gualter e Haroldo.

Depois de boas participações no selecionado carioca, Bigode foi convocado para o escrete nacional em 1948. Apesar da boa fase no Fluminense, o vínculo nas Laranjeiras não foi renovado, o suficiente para o Flamengo tirar proveito da situação em 1949.

Pelo time da Gávea, entre 1950 e 1951, Bigode disputou ao todo 66 jogos com 33 vitórias, 13 empates e 20 derrotas. Os números foram publicados pelo Almanaque do Flamengo, dos autores Clóvis Martins e Roberto Assaf.

Na Seleção Brasileira, Bigode foi aproveitado com maior regularidade durante os triunfos no campeonato Sul-Americano de 1949, na Taça Oswaldo Cruz e na Copa Rio Branco, ambos em 1950.

Partindo da esquerda; Eli do Amparo, Danilo e Bigode no selecionado carioca. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 624 – 23 de março de 1950.

O Brasil na Taça Oswaldo Cruz em 1950. Em pé: Massagista Mário Américo, Bauer, Danilo, Nena, Castilho, Juvenal e Bigode. Agachados: Friaça, Maneca, Baltazar, Pinga e Rodrigues. Crédito: revista Esporte Ilustrado.

Convocado pelo técnico Flávio Costa para disputar o mundial de 1950, Bigode só não esteve em campo no empate contra a Suíça por 2×2 no Pacaembu.

Conforme relatos do próprio jogador no livro Dossiê 50, do autor Geneton Moraes Neto, os dias que antecederam o compromisso final contra o Uruguai foram cercados de incômodos e também muita tribulação:

– Na fase de classificação estávamos concentrados em Joá, uma casa grande e confortável, bem distante da badalação do centro carioca!

– Com o andamento da competição fomos parar na sede do Vasco da Gama em São Januário. Foi essa a nossa desgraça. O que mais incomodava era o assédio constante de jornalistas, torcedores e, principalmente, de políticos oportunistas.

– Foram inúmeras fotografias com este e depois com aquele… Era um tormento só! Prometeram mundos e fundos aos jogadores… No dia da final aconteceu uma missa bem cedinho. Poucas horas depois, o ônibus finalmente nos levou para o Maracanã.

Bigode era jogador do Flamengo quando foi convocado para disputar a Copa do Mundo de 1950. Crédito: reprodução revista Esporte Ilustrado – Junho de 1950.

Bangu e Flamengo no Maracanã. Partindo da esquerda; Juvenal, Zizinho e Bigode. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 644 – 10 de agosto de 1950.

Chegando ao Maracanã, os jogadores encontraram vários colchões no chão, para que enfim pudessem descansar um pouco da agitação de São Januário.

Conhecido por sua costumeira virilidade, Bigode foi alertado pelo técnico Flávio Costa para não cometer entradas mais duras ou revidar qualquer provocação dos uruguaios.

Quando Albino Friaça marcou o gol brasileiro, logo no início do segundo tempo, uma euforia descontrolada tomou conta do Maracanã.

Com o avanço do relógio, os uruguaios usavam cada vez mais suas esperadas e conhecidas jogadas pela direita, manobras que colocaram o ponteiro-direito Alcides Ghiggia por várias vezes na linha de fundo.

Alcides Ghiggia tocava no meio e disparava em velocidade pelo corredor direito para tentar o cruzamento rasteiro para quem chegava. Foi assim que aconteceu o gol de empate da “Celeste”, marcado por Schiaffino aos 21 minutos do segundo tempo.

Nem só de bola vivia Bigode! Crédito: revista O Globo Sportivo número 670 – 1951.

Bigode retornou ao Fluminense em 1952, ano em que foi campeão da segunda edição da Copa Rio. Crédito: reprodução revista Vida do Crack.

No segundo gol do Uruguai, a mesma jogada! Ghiggia venceu Bigode na corrida e dessa vez não procurou ninguém, ou ainda não teve tempo para fazer! Então, o matreiro Ghiggia disparou um chute relativamente fraco contra o goleiro Barbosa.

Quando a bola entrou na meta brasileira, o inferno foi declarado na carreira do goleiro Barbosa e dos defensores que participaram diretamente do lance; Bigode e Juvenal.

Depois do jogo, um repertório de calúnias. A pior de todas foi um suposto tapa que o capitão Obdulio Varela deu em Bigode, o que teria acovardado o lateral brasileiro até o final do prélio.

Tanto Bigode como Obdulio Varela sempre negaram publicamente o referido acontecimento. Além do mais, grande parte dos jogadores brasileiros não perceberam nada de anormal em campo.

Quem conheceu ou acompanhou a carreira de Bigode sabe que o mineiro não era homem de se acovardar, nem de ser agredido em pleno Maracanã sem “quebrar o pau”, fosse com quem fosse!

O reencontro entre Alcides Ghiggia e Bigode. Crédito: revista O Globo Sportivo número 690 – 10 de maio de 1952.

A lista de perdas e danos provocadas pela derrota para o Uruguai só terminou meses depois. Eleito como o “Jogador mais Popular do Rio de Janeiro”, Bigode foi premiado com um apartamento oferecido por uma fábrica de refrigerantes. 

Contudo, Bigode nunca recebeu o tal apartamento. Apenas gastou dinheiro com advogados oportunistas que nada conseguiram. Continuou jogando futebol e cuidando do próprio comércio, uma loja especializada em rádio e acessórios.

Depois do período na Gávea, Bigode retornou ao mesmo Fluminense em 1952, ano em que foi campeão da segunda edição da Copa Rio.

Pelo time das Laranjeiras, o lateral disputou um total de 396 partidas nos períodos de 1943 até 1949 e depois, de 1952 até 1955.

Em 1956, depois de abandonar os gramados, Bigode passou o restante da vida falando sobre o lance fatal contra o Uruguai. Em certo momento não suportou mais e optou pelo completo anonimato, até falecer em 31 de julho de 2003.

Bigode e Orlando Pingo de Ouro. Crédito: revista Grandes Clubes Brasileiros.

Lembranças de uma tarde que nunca terminou! Crédito: revista Manchete Esportiva.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Aristélio Andrade, Carlos Maranhão e Teixeira Heizer), revista A Gazeta Esportiva Ilustrada, revista do Esporte, revista do Fluminense, revista Esporte Ilustrado, revista Grandes Clubes Brasileiros, revista Manchete, revista Manchete Esportiva, revista O Cruzeiro, revista O Globo Sportivo, revista Vida do Crack, Jornal dos Sports, Jornal O Globo, campeoesdofutebol.com.br, flamengo.com.br, fluminense.com.br, gazetaesportiva.net, globoesporte.globo.com, Almanaque do Flamengo – Clóvis Martins e Roberto Assaf, Livro: Dossiê 50 – Geneton Moraes Neto – Editora Objetiva.

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