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Em grande performance, o ator Rodrigo Santoro viveu “Heleno” nas telas do cinema em 2012.

Mineiro de São João Nepomuceno, Heleno de Freitas nasceu no dia 12 de fevereiro de 1920. Sua família chegou ao Rio de Janeiro no ano de 1933 e foi morar no posto 4, no bairro de Copacabana.

De origem abastada, filho de um industrial e proprietário de cafezal, o sempre elegante Heleno viveu intensamente.

Aos quatorze anos, sua vida era dividida entre os estudos, o futebol de praia no time do Botafoguinho de Neném Prancha e os momentos de convivência com os amigos João Saldanha, Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta) e Carlinhos Niemeyer.

O ator Rodrigo Santoro viveu "Heleno" nas telas do cinema.

O ator Rodrigo Santoro viveu “Heleno” nas telas do cinema.

Crédito: imortaisdofutebol.com.

Crédito: imortaisdofutebol.com.

Quem descobriu o futebol de Heleno foi Antônio Franco de Oliveira, mais conhecido como “Neném Prancha”; roupeiro, massagista, olheiro, treinador e famoso “frasista” do futebol brasileiro.

Heleno jogava pelo juvenil do Mangueira Futebol Clube, até que em 1935 o folclórico “Prancha” decidiu levar o “marrento e inquieto” talento para treinar no Botafogo.

Pouco tempo depois, o Botafogo extinguiu seu departamento de futebol juvenil e Heleno foi parar no Fluminense.

Aos dezesseis anos jogava como médio volante até que o técnico Uruguaio Carlomagno percebeu que Heleno tinha talento de sobra para jogar no ataque. Foi nas Laranjeiras que Heleno aprimorou suas habilidades como atacante.

Heleno no Fluminense.

Heleno no Fluminense.

Com o passar do tempo, Heleno queria ser efetivado no elenco de profissionais do Fluminense. Já tinha dezenove anos e não queria mais entrar em um jogo ou outro.

Mas, Carlomagno apenas o enrolava. Até que um dia Heleno brigou com o técnico uruguaio, pegou suas coisas e foi embora do tricolor. Naquela noite, Heleno aborrecido, nem foi ao “posto 4” conversar com seus amigos.

Um dos amigos, João Saldanha, estranhou sua ausência e foi para sua casa. Depois de muita conversa, convenceu Heleno que o Botafogo seria uma boa opção. Saldanha sabia que Carvalho Leite estava em reta final de carreira e dessa forma Heleno poderia se dar bem.

Assim, em 2 de abril de 1940, Heleno assinou seu primeiro contrato profissional como jogador do Botafogo. Em 1942, foi o artilheiro do estadual pela primeira vez anotando 34 gols em 32 partidas.

Crédito: revista Esporte Ilustrado número 364 – 29 de março de 1945.

Crédito: revista Esporte Ilustrado número 364 – 29 de março de 1945.

Seu futebol refinado, rápido e dotado de uma habilidade única, ganhou prestígio rapidamente. Entre os gols de classe e jogadas de efeito, Heleno também foi libertando sua forte personalidade.

Heleno era exigente e não aceitava falhas ou um simples e ocasional erro de passe. Xingava os companheiros, encarava os árbitros, peitava os adversários. Até com os torcedores ele brigava!

Galã e boa pinta, não tolerava quando alguém o chamava pelo apelido que lhe foi colocado naquela metade dos anos quarenta: “Gilda”.

Na época, a atriz Rita Hayworth, protagonizava uma personagem de beleza singular e temperamento explosivo no filme cujo título era justamente “Gilda”, produzido pela Columbia Pictures.

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Normalmente, os adversários usavam o apelido para irritar o atacante, que prontamente respondia em altos brados: Gilda é a mãe!

Mesmo admoestado pelo árbitro, Heleno não fazia conta, já que, na impossibilidade de retrucar o “Homem do Apito”, justificava suas reações como resultado de uma provocação planejada.

Heleno era um boêmio declarado e assumido. Frequentava os bordéis mais caros do Rio de Janeiro, onde além de bebidas e mulheres, também consumia drogas como o éter e o lança perfume.

O uso exagerado de várias substâncias tóxicas foram agravando suas crises de comportamento. Por conta de uma vida tão desregrada, Heleno contraiu sífilis, doença altamente contagiosa.

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Em uma partida contra o América, o zagueiro adversário deixou uma bola escapar de seu controle na entrada da área. Sem titubear, Heleno aproveitou e marcou para o Botafogo.

Todos esperavam que ele fosse comemorar, no entanto, Heleno pegou a bola e entregou ao zagueiro do América, dizendo em voz alta:

– Você não deveria ser um jogador profissional. Tome a bola e leve até o meio de campo, pois na verdade o gol foi seu!

Em 1945 fez sua primeira partida na Seleção Brasileira e no mesmo ano conquistou o vice-campeonato Sul-Americano no Chile.

Zizinho, Heleno de Freitas e Ademir Menezes.

Zizinho, Heleno de Freitas e Ademir Menezes.

Crédito: revista Placar.

Crédito: revista Placar.

Convocado para o lugar de Leônidas da Silva, formou um ótimo quinteto ofensivo com Tesourinha, Zizinho, Jair Rosa Pinto e Ademir. Ainda em 1945, foi campeão da Copa Roca, com duas vitórias sobre os argentinos.

Heleno formou-se em Direito pela Faculdade Nacional de Niterói em 1946. Falava inglês fluentemente e agora, além de temperamental, Heleno também ganhava o dom das palavras em seus embates dentro e fora dos gramados.

Em 1947 os diretores do Botafogo cansaram das constantes expulsões de campo, das exclusividades e dos atrasos de Heleno aos treinos. Rapidamente, comprovaram sua vida na boêmia.

Alguns bares do centro do Rio, principalmente na Rua Bolívar esquina com Avenida Copacabana, existiam até fotografias do craque penduradas na parede. Foi a gota d’água!

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Irritados, os diretores do Botafogo instituíram uma ordem para que todos os jogadores batessem o ponto na entrada do clube. Heleno prontamente rebateu:

– Quem marca ponto é comerciário!

Depois de constantes “quedas de braço” entre Heleno e os homens da diretoria, seu período no Botafogo chegou ao capítulo final no ano de 1948, sem que o craque conquistasse nenhum título carioca.

Mesmo com seus 204 gols em 233 jogos, uma absurda média de 0,87 tentos por partida, Carlito Rocha negociou seu passe com o Club Atlético Boca Juniors da Argentina. No mesmo ano, Heleno casou-se com Ilma Miranda Corrêa Lisboa.

Heleno não ficou muito tempo na Bombonera, o suficiente para deixar 7 tentos em 17 jogos.

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Depois, enfurecido com o banco de reservas, deixou Buenos Aires em abril de 1949 para voltar ao Rio de Janeiro e jogar pelo Vasco da Gama.

Finalmente campeão carioca de 1949, marcou 19 gols em 24 partidas. Mas Heleno continuava aprontando das suas!

Em 1949 o Rio de Janeiro respirava Copa do Mundo e via nascer um gigante de concreto armado, que ainda se chamaria estádio Mendes de Morais antes de ser batizado como estádio jornalista Mário Filho.

Em dezembro do mesmo ano, o nome de Heleno não foi relacionado na lista de pré-convocados do técnico Flávio Costa para disputar o Mundial de 1950.

Heleno no Atlético de Barranquilla da Colômbia. Crédito: revista Goal – Maio 1950.

Heleno no Atlético de Barranquilla da Colômbia. Crédito: revista Goal – Maio 1950.

“Heleno – Uma estrela que se apaga”. Era o título da matéria da revista Goal, que publicou esta imagem do desembarque de Heleno para jogar pelo Atlético de Barranquilla da Colômbia. Crédito: revista Goal – Maio 1950.

“Heleno – Uma estrela que se apaga”. Era o título da matéria da revista Goal, que publicou esta imagem do desembarque de Heleno para jogar pelo Atlético de Barranquilla da Colômbia. Crédito: revista Goal – Maio 1950.

Decepcionado, Heleno decide aceitar o convite do Atlético de Barranquilla na Colômbia, onde é recebido como uma estrela.

Após o fracasso em uma curta temporada, Heleno voltou ao Brasil e faz apenas um treino pelo Santos Futebol Clube.

Na verdade, Heleno queria mesmo era conhecer o novo estádio que era notícia no Brasil e no mundo. Assinou contrato com o América e atuou em apenas uma partida, sua primeira e única no gramado do Maracanã.

Foi expulso aos 35 minutos do primeiro tempo. No vestiário, descontrolado, ainda tentou agredir um fotógrafo. Seu sonho de atuar no então “Maior Estádio do Mundo” chegava ao fim.

Crédito: revista Esporte Ilustrado.

Crédito: revista Esporte Ilustrado.

Nessa época, Heleno já não era nem sombra do craque que espantou o Brasil na década de quarenta. Foram apenas onze anos de carreira, um único título carioca e um desejo realizado:

– Eu não poderia parar de jogar sem conhecer o Maracanã!

Para piorar, começavam os primeiros sintomas da sífilis, doença que o levaria ao fundo do poço. Era o começo do previsível drama de Heleno.

Em 1952 foi internado pela primeira vez em uma clínica no bairro da Tijuca. A sífilis continuou avançando impiedosamente e consumindo o jogador, que ficou louco.

A insanidade e o estado precário de sua saúde o levaram ao óbito no dia 8 de novembro de 1959, em Barbacena (MG).

Crédito: revista Manchete Esportiva número 3 – 10 de dezembro de 1955.

Crédito: revista Manchete Esportiva número 3 – 10 de dezembro de 1955.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Fausto Neto e Dagomir Marquezi), revista Esporte Ilustrado, revista O Globo Sportivo, revista Manchete, revista Manchete Esportiva, revista O Cruzeiro, revista Fatos e Fotos, revista Goal, revista El Gráfico, revista do Botafogo, revista Grandes Clubes Brasileiros, revista alfa.abril.com.br, museudosesportes.blogspot.com, blog.maismemoria.net, memoriafutebol.com.br, imortaisdofutebol.com, Jornal Mundo Esportivo, globoesporte.globo.com, site do Milton Neves, neimedina.blogspot.com, novomilenio.inf.br, sosumulas.blogspot.com, lendasdabola.blogspot.com, mg.superesportes.com.br, gazetaesportiva.net, Livro: Nunca houve um homem como Heleno – Marcos Eduardo Neves – Editora Zahar.

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