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Em grande performance, o ator Rodrigo Santoro viveu “Heleno” nas telas do cinema em 2012.

Inspirado no livro “Nunca Houve um Homem como Heleno”, de Marcos Eduardo Novaes, o longa dirigido por José Henrique Fonseca ofereceu ao público uma bela fotografia de Walter Carvalho, o que colocou o espectador na rotina do futebol dos anos 40.

Mineiro de São João Nepomuceno, Heleno de Freitas nasceu no dia 12 de fevereiro de 1920. A família chegou ao Rio de Janeiro em 1933 e foi morar no posto 4, no bairro de Copacabana.

De origem abastada, Heleno de Freitas era filho de um industrial e proprietário de um cafezal, o que ofereceu ao menino uma boa formação.

Na juventude a rotina era dividida entre os estudos, o futebol de praia e os momentos de convivência com os amigos João Saldanha, Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta) e Carlinhos Niemeyer.

O ator Rodrigo Santoro viveu “Heleno” nas telas do cinema. Crédito: globoesporte.globo.com.

Crédito: revista Esporte Ilustrado.

Quem o descobriu para o futebol foi Antônio Franco de Oliveira, mais conhecido como “Neném Prancha”; roupeiro, massagista, olheiro, treinador e famoso “frasista” do futebol brasileiro.

Heleno jogava pelo juvenil do Mangueira Futebol Clube até o ano de 1935, quando o folclórico “Prancha” decidiu levar o “marrento e inquieto” talento para treinar no Botafogo.

Pouco tempo depois, o Botafogo extinguiu o departamento de futebol juvenil e Heleno foi parar no Fluminense.

Nas Laranjeiras Heleno jogava como médio volante, até o técnico uruguaio Carlomagno perceber que o rapaz tinha talento para jogar no ataque. Foi no Fluminense que Heleno aprimorou suas habilidades como atacante.

Com o passar do tempo, Heleno queria uma oportunidade no elenco principal do Fluminense. Mas, Carlomagno apenas o enrolava!

Crédito: reprodução revista Esporte Ilustrado número 222 – 9 de julho de 1942.

Até que um dia Heleno brigou com o técnico uruguaio. Pegou suas coisas e foi embora. Aborrecido, naquela noite nem foi ao “posto 4” conversar com os amigos.

Um dos amigos, João Saldanha, estranhou a ausência de Heleno e foi para sua casa. Depois de muita conversa, Saldanha o convenceu que o Botafogo seria uma boa opção.

Saldanha sabia que Carvalho Leite estava em reta final de carreira e dessa forma Heleno poderia se dar bem.

Assim, em 2 de abril de 1940, Heleno assinou seu primeiro contrato profissional como jogador do Botafogo. Em 1942, foi o artilheiro do campeonato carioca com 28 gols marcados.

Com um futebol refinado, rápido e dotado de muita habilidade, Heleno ganhou prestígio rapidamente. Entre os gols e jogadas de efeito, a personalidade forte foi aflorando.

Crédito: imortaisdofutebol.com.

Heleno era exigente e não aceitava falhas ou um simples e ocasional erro de passe. Xingava os companheiros, encarava os árbitros e peitava os adversários. Até com os torcedores ele brigava!

Galã e boa pinta, não tolerava quando alguém o chamava pelo apelido de “Gilda”.

Na época, a atriz Rita Hayworth, protagonizava uma personagem de beleza singular e temperamento explosivo no filme “Gilda”, uma produção da Columbia Pictures.

Normalmente, os adversários usavam do apelido para irritar o atacante, que prontamente respondia em altos brados: Gilda é a mãe!

Mesmo admoestado pelo árbitro, Heleno não fazia conta, já que, na impossibilidade de retrucar o “Homem do Apito”, procurava justificar suas reações como o resultado de uma provocação planejada.

Crédito: br.pinterest.com.

Heleno era um boêmio declarado e assumido. Frequentava os bordéis mais caros do Rio de Janeiro, onde além de bebidas e mulheres, também consumia drogas como o éter e o lança perfume.

O uso exagerado de várias substâncias tóxicas foram agravando suas crises de comportamento. Por conta de uma vida tão desregrada, Heleno contraiu Sífilis, uma doença altamente contagiosa.

E seu comportamento em campo ganhava contornos preocupantes. Em uma partida contra o América, o zagueiro adversário deixou uma bola escapar de seu controle na entrada da área. Sem titubear, Heleno aproveitou e marcou para o Botafogo.

Todos esperavam que ele fosse comemorar, no entanto, Heleno pegou a bola e entregou ao zagueiro do América:

– Você não deveria ser jogador profissional. Tome a bola e leve até o meio de campo, pois na verdade o gol foi seu!

Crédito: imortaisdofutebol.com.

Crédito: revista Grandes Clubes Brasileiros.

Em 1945 fez sua primeira partida pela Seleção Brasileira. No mesmo ano conquistou o vice-campeonato Sul-Americano no Chile.

Convocado para o lugar de Leônidas da Silva, Heleno  formou um ótimo quinteto ofensivo ao lado de Tesourinha, Zizinho, Jair Rosa Pinto e Ademir. 

Em 1946 formou-se em Direito pela Faculdade Nacional de Niterói. Dessa forma ganhou o dom das palavras, usadas em seus embates dentro e fora dos gramados.

Em 1947 os diretores do Botafogo cansaram das constantes expulsões de campo, das exclusividades e dos atrasos aos treinos. E não foi difícil comprovar a vida boêmia do atacante!

Alguns bares do centro do Rio, principalmente na Rua Bolívar esquina com Avenida Copacabana, fotografias do jogador ao lado de lindas mulheres decoravam o local.

Zizinho, Heleno de Freitas e Ademir Marques de Menezes. Crédito: globoesporte.globo.com.

O Brasil no Sul-Americano do Chile em 1945. Em pé: Jonhson (massagista), enfermeiro da CBD, Norival, Rui, Domingos da Guia, Oberdan Cattani, Biguá, Jaime e Flávio Costa (treinador). Agachados: Tesourinha, Zizinho, Heleno de Freitas, Ademir e Jorginho. Crédito: museudosesportes.blogspot.com.br.

Foi a gota d’água. Irritados, os diretores do Botafogo instituíram uma ordem para que todos os jogadores batessem o ponto na entrada do clube. Heleno prontamente rebateu:

– Quem marca ponto é comerciário!

Depois de constantes “quedas de braço” entre Heleno e os homens da diretoria, seu período no Botafogo chegou ao capítulo final em 1948, sem que o jogador conquistasse ao menos um único título carioca.

Mesmo com 204 gols marcados em 233 jogos, seu passe foi negociado com o Club Atlético Boca Juniors da Argentina. No mesmo ano, Heleno casou-se com Ilma Miranda Corrêa Lisboa.

Não permaneceu muito tempo no time da Bombonera, o suficiente para marcar 7 gols em 17 jogos disputados. Depois, enfurecido com o banco de reservas, Heleno deixou Buenos Aires em abril de 1949 para jogar pelo Vasco.

Heleno de Freitas, pelo Vasco, em partida contra o América – Crédito: revista Placar – 24 de julho de 1970.

Campeão carioca de 1949, Heleno marcou 19 gols em 24 partidas.

Em 1949 o Rio de Janeiro respirava Copa do Mundo e via nascer um gigante de concreto armado, que ainda se chamaria Estádio Mendes de Morais antes de ser batizado com o nome do jornalista Mário Filho.

Em dezembro do mesmo ano, o nome de Heleno não foi relacionado na lista de pré-convocados do técnico Flávio Costa para disputar o Mundial de 1950.

Decepcionado, Heleno aceitou um convite do Atlético de Barranquilla na Colômbia, onde foi recebido como uma estrela. Após o fracasso na temporada, o atacante voltou ao Brasil e fez apenas um treino pelo Santos Futebol Clube.

Na verdade, Heleno queria mesmo era conhecer o Maracanã, que era notícia no Brasil e no mundo. Assinou contrato com o América e entrou em campo em apenas um compromisso, o primeiro e único no gramado do Maracanã.

Heleno no Atlético de Barranquilla da Colômbia. Crédito: revista Goal – Maio 1950.

“Heleno – Uma estrela que se apaga”. Era o título da matéria da revista Goal, que publicou esta imagem do desembarque de Heleno para jogar pelo Atlético de Barranquilla da Colômbia. Crédito: revista Goal – Maio 1950.

Foi expulso aos 35 minutos do primeiro tempo. No vestiário, descontrolado, ainda tentou agredir um fotógrafo. O sonho de jogar no então “Maior Estádio do Mundo” chegava ao fim.

Nessa época, Heleno já não era nem sombra do craque que espantou o Brasil nos anos 40. Foram apenas onze anos de carreira, um único título carioca e um desejo realizado:

– Eu não poderia parar de jogar sem conhecer o Maracanã!

Para piorar, os primeiros sintomas da sífilis já se faziam presentes, o que o levou ao fundo do poço. Em 1952 foi internado pela primeira vez em uma clínica no bairro da Tijuca.

A sífilis continuou avançando impiedosamente e consumindo o jogador. A insanidade e o estado precário de sua saúde o levaram ao óbito no dia 8 de novembro de 1959, em Barbacena (MG).

Crédito: revista Manchete Esportiva número 3 – 10 de dezembro de 1955.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Dagomir Marquezi e Fausto Neto), revista do Botafogo, revista El Gráfico, revista Esporte Ilustrado, revista Fatos e Fotos, revista Grandes Clubes Brasileiros, revista Goal, revista Manchete, revista Manchete Esportiva, revista O Cruzeiro, revista O Globo Sportivo, revista alfa.abril.com.br, br.pinterest.com, gazetaesportiva.net, globoesporte.globo.com, imortaisdofutebol.com, Jornal Mundo Esportivo, mg.superesportes.com.br, memoriafutebol.com.br, museudosesportes.blogspot.com, neimedina.blogspot.com, novomilenio.inf.br, site do Milton Neves, sosumulas.blogspot.com, Livro: Nunca houve um homem como Heleno – Marcos Eduardo Neves – Editora Zahar.

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