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Colaborou Pedro Luiz Boscato.

No começo do século XX, imigrantes europeus desembarcavam em Santos e eram encaminhados de trem até o bairro do Brás.

Alguns partiam para o plantio de café no interior do estado, enquanto outros preferiam ficar na capital em busca de ocupação no próspero parque industrial da época.

Foi assim que Gabriel Luiz Trochillo e Margarida Bastarrica Trochillo; ela espanhola, ele descendente de espanhóis, chegaram ao bairro do Brás nos anos vinte.

O casal estabeleceu residência na Rua Cachoeira e para sustentar a família, seu Gabriel montou uma pequena banca de peixes no Mercado Municipal, onde mais tarde ficou conhecido como “Gabriel Peixeiro”.

O casal dava um duro danado para sustentar os quatro filhos, que se chamavam Modesto, Tereza, Rafael e Luiz. Além do trabalho, seu Gabriel adorava ouvir futebol no rádio, além de assistir os jogos dos times de várzea da região.

Os pais de Luizinho: Margarida Bastarrica Trochillo e Gabriel Luiz Trochillo. Crédito: Programa Grandes Momentos do Esporte – TV Cultura.

Luizinho e o goleiro Gylmar. Crédito: revista Placar.

Luiz Trochillo nasceu no dia 7 de março de 1930, no bairro do Brás em São Paulo.

Criado na Rua Cachoeira, o mirradinho Luizinho estava sempre com uma pequena bola de meia nos pés. Corria de um lado para outro e atrapalhava dona Margarida em seus intermináveis afazeres domésticos.

Quando cresceu um pouco, Luizinho já demonstrava uma facilidade incomum para driblar os marmanjos, que insistiam em lhe roubar a bola de borracha dos pés.

Vendo tal habilidade, seu Gabriel fundou o time do Cachoeira para reunir os amigos e dar uma alegria aos garotos da vizinhança. Com o passar do tempo, a fama do pequeno Luizinho corria solta por outros times da região.

Um desses times era o Clube Atlético e Recreativo Maria Zélia, que nas categorias infantil e juvenil era orientada pelo já famoso Dante Pietrobom.

Um dia, o próprio Dante Pietrobom foi conversar com seu Gabriel na tentativa de levar o pequeno Luizinho. Foi assim que Luizinho chegou ao Maria Zélia.

Clássico contra o São Paulo no Pacaembu. Partindo da esquerda; o goleiro Poy, Baltazar (camisa 9), De Sordi, Rafael e Luizinho. Crédito: revista do Corinthians número 61 – Novembro de 1954.

Seu Gabriel não gostava muito de ver o filho fora do seu querido Cachoeira, o que causou um tremendo mal estar, tanto em casa, como no próprio pessoal do Cachoeira.

Além do Maria Zélia, Luizinho também encontrava tempo para jogar pelo infantil do time do Bala Mistura ao lado do goleiro Cabeção e do atacante Colombo.

Em 1943 Dante Pietrobom assumiu o infantil do Sport Club Corinthians Paulista e levou vários garotos do Maria Zélia, entre eles o próprio Luizinho, o goleiro Cabeção e o ponteiro Colombo.

No Corinthians, Luizinho faturou títulos em todas categorias até chegar ao juvenil. Sua passagem para o quadro de Aspirantes aconteceu quase que por acaso.

O técnico Gentil Cardoso tinha problemas para escalar o time que jogaria contra a Portuguesa Santista no Pacaembu.

Luizinho, ainda no chão, confere a bola nas redes esmeraldinas. Enquanto isso, Paulo Pedra comemora e o árbitro aponta para o centro do campo. O “Pequeno Polegar” dava muita sorte contra o Palmeiras. Crédito: revista do Corinthians número 72 – Outubro de 1955.

Durante a semana, Gentil Cardoso participou de uma reunião no clube e perguntou se algum jogador do juvenil poderia ser aproveitado nos Aspirantes para o próximo compromisso. Prontamente, o nome do pequeno Luizinho foi indicado.

No domingo, Luizinho chegou ao Pacaembu sozinho e mal sabia onde ficavam os vestiários. Gentil Cardoso, mesmo desconfiado do porte físico do rapaz, o mandou trocar de roupa.

O Corinthians venceu por 9×1 e o franzino Luizinho nem sabia contar quantos gols tinha feito. No dia seguinte os jornais já estampavam que o Corinthians tinha em suas fileiras um garoto que prometia muito. Gentil Cardoso estava impressionado!

Depois daquele jogo, Luizinho nunca mais voltou ao juvenil e recebeu dos torcedores o apelido de “Pequeno Polegar”.

Crédito: revista do Corinthians número 76 – Fevereiro de 1956.

Com um futebol alegre e bem jogado, o time de Aspirantes foi adotado como o grande orgulho da Fiel Torcida, que não comemorava um campeonato estadual por quase uma década.

Foi assim que um processo de renovação foi iniciado no elenco principal. A geração de Touguinha e Domingos da Guia precisava de sangue novo. Então, em 1949, Luizinho recebeu sua esperada oportunidade.

O “Pequeno Polegar” era atrevido e fazia o Pacaembu levantar com suas fintas e dribles de corpo.

As tabelinhas infernais, primeiramente com Colombo e depois com Cláudio Christóvam de Pinho, eram o grande assunto da segunda feira pelos botecos da cidade.

Depois de conquistar o Torneio Rio-São Paulo de 1950, o Corinthians finalmente faturou o caneco de campeão paulista em 1951. O arrasador ataque alvinegro, com Cláudio, Luizinho, Baltazar, Carbone e Mário, marcou incríveis 103 gols no certame.

Luizinho e Mauro Ramos de Oliveira no selecionado paulista. Crédito: reprodução revista Manchete Esportiva.

Luizinho no gramado do Pacaembu. Crédito: revista Manchete Esportiva número 24 – 5 de maio de 1956.

Luizinho conquistou também o campeonato paulista em 1952 e 1954, Torneio Rio-São Paulo 1953 e 1954, Pequena Taça do Mundo em 1953, Taça Charles Miller, Taça dos Invictos 1956 e 1957 (posse definitiva) e o Torneio de Brasília em 1958.

Além de convocações para o selecionado paulista, o “Pequeno Polegar” chegou ao escrete canarinho em 1956, quando disputou 11 partidas.

Mas não foram somente títulos e grandes vitórias. Em entrevista ao Programa Grandes Momentos do Esporte da TV Cultura, Luizinho contou momentos únicos de sua trajetória:

– Sobre o argentino Luiz Villa do Palmeiras: Eu tinha facilidade para passar a bola por debaixo das pernas de qualquer um. Em uma única partida fiz isso algumas vezes contra o Villa. Sentar na bola eu não sentei. Era um gentleman, se fosse outro teria me quebrado!

Luizinho com o roupão canarinho. Crédito: reprodução revista Manchete Esportiva número 37 – 4 de agosto de 1956.

– Sobre a briga com Gino Orlando: Discutimos no dia em que empatamos por 1×1 contra o São Paulo e o Alfredo Ramos quebrou a perna.

Quando nos encontramos na casa do Alfredo o bate boca recomeçou. Foi instintivo da minha parte e atirei um tijolo para me defender. Não sabia que tinha acertado na testa dele. Maldita hora que fiz aquilo!

– Sobre o dentista palmeirense: Antes de um jogo contra o Palmeiras, eu estava com uma dor de dente terrível. Um dentista amigo da família e palmeirense, achou melhor extrair.

Não joguei contra o Palmeiras e o Corinthians perdeu. Meu pai e um montão de gente foi ao consultório do dentista tirar satisfações. Puxa que vexame eu passei.

– Sobre o microfone provocador de Silvio Luiz: O Silvio Luiz era esperto. Sempre vinha me entrevistar quando percebia que eu estava nervoso. Um dia soltei um palavrão daqueles e o microfone estava aberto. Deu uma encrenca danada.

Momentos de família. Crédito: revista O Cruzeiro número 50 – 29 de setembro de 1956.

Crédito: revista O Cruzeiro número 50 – 29 de setembro de 1956.

Luizinho continuou no Corinthians até 1960, quando foi transferido para o Clube Atlético Juventus.

Com a colaboração de Pedro Luiz Boscato, amparada no Almanaque do Corinthians, a saída de Luizinho não aconteceu por desentendimentos com Sylvio Pirillo, como costumeiramente é divulgado.

Sylvio Pirillo comandou o Corinthians em um amistoso contra o Juventus no dia 24 de fevereiro de 1960. No jogo seguinte, em 5 de março de 1960, Alfredo Ramos assumiu o cargo.

Depois da saída de Sylvio Pirillo em março de 1960, Luizinho continuou no Corinthians. Inclusive, registros apontam sua participação contra o Palmeiras, em abril de 1960:

JOGO 710 – 13 de abril de 1960 – Corinthians 1×0 Palmeiras – Torneio Rio-São Paulo – Estádio do Pacaembu – Corinthians: Gylmar, Egídio, Olavo e Ari Clemente; Benedito e Oreco; Lanzoninho, Joaquinzinho (Luizinho), Higino, Rafael (Leonel) e Zague. Técnico: Alfredo Ramos.

Crédito: revista do Esporte número 286 – 29 de agosto de 1964.

Provavelmente, a chegada de Almir Albuquerque tenha causado instabilidade e descontentamento, tanto em Luizinho como no restante do elenco, em razão do alto salário do jogador carioca.

Ainda segundo Boscato, se Pirillo tivesse problemas com Luizinho não o teria aceitado no Juventus. Em 1964 o “Pequeno Polegar” voltou ao Corinthians e encerrou a carreira em 1967.

Pelo Corinthians Luizinho disputou um total de 603 partidas, com 358 vitórias, 130 empates, 115 derrotas e 175 gols marcados. Posteriormente trabalhou como Auxiliar Técnico e Treinador.

Luiz Trochillo faleceu em 17 de janeiro de 1998. Sua imagem está perpetuada com um busto dentro do Parque São Jorge.

Joaquinzinho e Luizinho no Juventus. Crédito: revista A Gazeta Esportiva Ilustrada.

Foto de Ricardo Corrêa. Crédito: revista Placar – Abril de 1993.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Ricardo Corrêa), revista do Esporte, revista Manchete Esportiva, revista A Gazeta Esportiva Ilustrada, revista O Cruzeiro, revista do Corinthians, gazetaesportiva.net, Jornal A Gazeta Esportiva, gazetavirtual.com.br, placar.abril.com.br, radioglobo.globoradio.globo.com, globoesporte.globo.com, topicos.estadao.com.br, esporte.uol.com.br, site do Milton Neves, Pedro Luiz Boscato, museudosesportes.blogspot.com, Programa Grandes Momentos do Esporte – TV Cultura, Livro: Timão 100 anos – Editora Gutenberg – Celso Dario Unzelte, Almanaque do Corinthians – Celso Dario Unzelte.

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