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Mesmo depois de tanto tempo, aquelas recordações de infância ainda moravam na cabeça e no coração do velho Nilton. Flecheiras, na Ilha do Governador, era um paraíso para a garotada.

A pesca, os banhos de mar, o roubo de frutas no quintal alheio e as inesquecíveis peladas, onde o franzino Nilton preocupava seu pai Pedro e sua mãe Josélia, que temiam que o filho voltasse para casa seriamente machucado.

Mas o progresso chegou, o aeroporto do Galeão cresceu e lá se foram aquelas casinhas modestas e os campinhos de pelada.

Nílton Reis dos Santos nasceu em 16 de maio de 1925, em Flecheiras.

Crédito: Arquivo Público do Estado de São Paulo. Memória Pública – Jornal Última Hora.

Crédito: Arquivo Público do Estado de São Paulo. Memória Pública – Jornal Última Hora.

Crédito: Arquivo Público do Estado de São Paulo. Memória Pública – Jornal Última Hora.

Crédito: Arquivo Público do Estado de São Paulo. Memória Pública – Jornal Última Hora.

No começo dos anos quarenta, Nilton era o ponta esquerda do Cruzeiro de Flecheiras e sonhava com a fama.

Em 1946, o soldado 105, como ficou conhecido na aeronáutica, era o melhor jogador de seu regimento. Ganhou estrutura física e estava tão bem que foi escalado no time dos oficiais.

Pouco tempo depois, incentivado por tanta gente, foi ao Botafogo de Futebol e Regatas para fazer uma experiência. Perdido entre tantos aventureiros, que também esperavam por uma oportunidade, Nilton mais ouvia do que falava.

O Botafogo sofrera uma derrota no domingo e o técnico Zezé Moreira estava uma fera. Entre tantos resmungos Zezé disparou:

– É só o time perder que aparecem novas porcarias para treinar. Já não bastam algumas porcarias que temos aqui…

Crédito: revista Esporte Ilustrado número 970.

Crédito: revista Esporte Ilustrado número 970.

Crédito: revista Vida do Crack número 5.

Crédito: revista Vida do Crack número 5.

A frase pesada do homem forte do Botafogo abalou muitos dos garotos que ali estavam. Com todos em silêncio, Zezé falou novamente e perguntou quem jogava de beque. Então, vários garotos levantaram o braço.

Irritado novamente, Zezé disse que toda aquela pressa não era necessária, pois todos seriam testados naquele dia.

Em seguida alguém se aproximou de Zezé e pediu para ele maneirar, pois o indicado do major Honório estava entre os garotos. O treino já estava pela metade quando mandaram que Nilton entrasse como beque direito.

Firme em seu propósito, Nilton entrou em campo e jogou como jogava no Cruzeiro. Deu seus toques de efeito, correu, lançou e até chutou no gol. No final do treino, Zezé Moreira pediu para que Nilton voltasse no próximo treino.

Crédito: revista O Globo Sportivo número 654 - 25 de julho de 1951.

Crédito: revista O Globo Sportivo número 654 – 25 de julho de 1951.

Depois de três treinamentos, onde atuou em sua posição preferida na ponta esquerda, Nilton Santos assinou seu primeiro contrato em abril de 1948. Deu baixa na aeronáutica e seguiu em busca de seu sonho.

A primeira partida no time titular foi tão rápida que o próprio Nilton ficou espantado.

Em sua segunda apresentação pelo clube, no triunfo por 4×2 sobre o Canto do Rio, Nilton foi escalado na lateral-esquerda e dali não saiu mais.

Em seu primeiro ano na equipe principal, o Botafogo ganhou o título carioca de 1948 e impediu o bicampeonato do Vasco com o 3×1 de General Severiano.

Crédito: revista do Esporte número 112.

Crédito: revista do Esporte número 112.

No ano seguinte já estava na Seleção Brasileira campeã da Copa América disputada em 1949. Em maio de 1950, com o mundial batendo na porta, o técnico Flávio Costa preferiu efetivar o lateral Bigode do Flamengo como titular.

Nilton Santos não foi aproveitado na Copa de 1950. Depois da trágica derrota para o Uruguai, Nilton continuou sendo convocado para o escrete e foi campeão do Pan-Americano de 1952.

No verão de 1953, mais um treino estava para começar.

O lateral esquerdo Nilton Santos já era um jogador consagrado e não pôde deixar de notar o defeito físico daquele mulato desconhecido, que coincidentemente era ponta direita e apareceu para treinar naquele dia.

Joel e Nilton Santos. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 805 – 10 de setembro de 1953.

Joel e Nilton Santos. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 805 – 10 de setembro de 1953.

Crédito: revista O Cruzeiro – encarte ídolos do futebol brasileiro.

Crédito: revista O Cruzeiro – encarte ídolos do futebol brasileiro.

Sem pensar muito sobre o que dizia, Nilton Santos disparou:

– A coisa tá feia por aqui… Até aleijado aparecer para treinar!

Mas esse comentário infeliz de Nilton Santos mudou depois que o treino começou. O desconhecido mulato, com nome de passarinho, fez o que quis e colocou Nilton Santos de bumbum na grama com as pernas para o alto.

Terminado o treino, ainda ouvindo comentários e risadas que partiam de vários pontos de General Severiano, Nilton Santos correu em direção do técnico Gentil Cardoso e disse:

– Pelo amor de Deus, contrata logo esse tal de Garrincha. Se ele for para o Fluminense, para o Vasco ou para o Flamengo estamos fritos!

Crédito: revista Esporte Ilustrado número 945.

Crédito: revista Esporte Ilustrado número 945.

Djalma Santos, Gylmar e Nilton Santos. Crédito: revista El Gráfico.

Djalma Santos, Gylmar e Nilton Santos. Crédito: revista El Gráfico.

Depois desse dia, Garrincha e Nilton Santos se tornaram amigos inseparáveis, dentro e fora do Botafogo.

Nilton Santos foi convocado para o mundial de 1954, na Suíça. Titular absoluto naquela campanha, Nilton sempre lembrou da falta de organização e do amadorismo na preparação, que culminou com nossa eliminação e o banho de bola aplicado pelos húngaros.

Em 1957 o Botafogo finalmente levantou o caneco estadual, o que não acontecia desde 1948.

Nilton Santos já era um craque reconhecido quando foi relacionado para disputar seu segundo mundial em 1958 na Suécia, quando finalmente conseguimos nossa primeira estrela no peito.

O compadre Mané Garrincha. Amizade até o último dia. Crédito: revistafootball.com.br.

O compadre Mané Garrincha. Amizade até o último dia. Crédito: revistafootball.com.br.

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Na Suécia, Nilton fez um gol importante no primeiro compromisso diante da Áustria. No lance, o técnico Feola cansou de pedir para que Nilton recuasse e mesmo assim o lateral avançou e anotou o segundo tento canarinho no jogo.

Na Copa de 1962, mesmo com uma seleção envelhecida e sem Pelé, que estava contundido, o Brasil sobrou nos gramados chilenos.

Trabalho mesmo, só nas partidas contra o Chile e contra os velozes e alucinados jogadores da “Fúria Espanhola”.

O jogo contra os espanhóis, válido pela última rodada da fase de classificação no grupo C, apresentava um ingrediente perigoso: O risco de voltar para casa!

Crédito: revista Placar.

Crédito: revista Placar.

De Sordi e Nilton Santos. Crédito: revista Manchete Esportiva número 134 – 14 de junho de 1958.

De Sordi e Nilton Santos. Crédito: revista Manchete Esportiva número 134 – 14 de junho de 1958.

O Brasil fazia uma partida nervosa e perdia por 1×0. Foi quando Nilton Santos cometeu um pênalti escandaloso.

Assim que o jogador espanhol caiu dentro da área, Nilton deu dois passos para frente e se colocou fora da área. O árbitro, que estava longe do lance, marcou uma falta e mandou o jogo seguir.

Bicampeão carioca de 1961 e 1962, do Torneio Rio-São Paulo de 1962 e 1964, Nilton Santos disputou ao todo 729 jogos pelo Botafogo. Considerado o maior lateral-esquerdo de todos os tempos, vestiu apenas duas camisas na vida: Botafogo e Seleção Brasileira.

Sua despedida dos gramados aconteceu em dezembro de 1964, na vitória por 1×0 contra o Flamengo no estádio do Maracanã.

Naquela oportunidade, Carlinhos do Flamengo entregou um troféu como parte das homenagens destinadas ao ídolo do Botafogo.

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Crédito: revista O Cruzeiro número 44 – 16 de agosto de 1958.

Crédito: revista O Cruzeiro número 44 – 16 de agosto de 1958.

Mesmo encerrando sua carreira, Nilton nunca deixou de viver o futebol. Foi treinador, diretor de futebol do Botafogo, comentarista, escritor e até proprietário de uma loja de material esportivo.

Mas o que realmente o agradou foi o trabalho desenvolvido com mais de mil crianças na cidade de Brasília.

A “Enciclopédia do Futebol” nos deixou em 27 de novembro de 2013. Internado em uma clínica, o craque sofria do Mal de Alzheimer, apresentando também problemas cardíacos e memória comprometida.

O Botafogo, desde 2007, quando o presidente era Bebeto de Freitas, arcava com os custos da internação do ídolo.

Crédito: revista do Esporte número 33 – 1959.

Crédito: revista do Esporte número 33 – 1959.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Fausto Neto, Teixeira Heizer, Maria Helena Araújo e Marcelo Rezende), revista Vida do Crack, revista do Esporte, revista O Globo Sportivo, revista Esporte Ilustrado, revista O Cruzeiro – encarte ídolos do futebol brasileiro, revista El Gráfico, revista Manchete Esportiva, revistafootball.com.br, esporte.uol.com.br, site do Milton Neves, Arquivo Público do Estado de São Paulo – Memória Pública – Jornal Última Hora, goldenfoot.com, niltonsantos.com.br.

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