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Mesmo depois de tanto tempo, aquelas recordações de infância ainda moravam na cabeça e no coração do velho Nilton.

Flecheiras, na Ilha do Governador, era um paraíso para a garotada!

A pesca, os banhos de mar, o roubo de frutas no quintal alheio e o quicar da bola ao lado dos marmanjos, uma constante preocupação para os pais Pedro e Josélia, que temiam que o filho voltasse para casa seriamente machucado.

Mas o progresso chegou, o Aeroporto do Galeão cresceu e os campinhos de pelada foram aos poucos desaparecendo.

O carioca Nílton Reis dos Santos, que entrou para os livros de história do futebol brasileiro como a “Enciclopédia do Futebol”, nasceu em 16 de maio de 1925.

Crédito: reprodução revista O Globo Sportivo número 654 – 25 de julho de 1951.

No início dos anos 40, Nilton Santos era apenas um esforçado ponteiro esquerdo do time do Cruzeiro de Flecheiras.

Conhecido na Aeronáutica como “Soldado 105”, Nilton Santos era o melhor jogador de seu regimento. Ganhou estrutura física e estava tão bem que era escalado no time dos oficiais.

Indicado pelo Major Honório, Nilton Santos tomou coragem e foi ao Botafogo de Futebol e Regatas para fazer uma experiência. Perdido entre tantos aventureiros, que também sonhavam com a fama, o “Soldado 105”  mais ouvia do que falava!

Mas, naquele dia, o clima no Botafogo não estava bom. Em razão de uma derrota na última partida, o técnico Zezé Moreira estava uma fera. Entre tantos resmungos Zezé disparou:

– É só o time perder que aparecem novas porcarias para treinar. Já não bastam algumas porcarias que temos por aqui.

Crédito: revista Esporte Ilustrado.

Joel e Nilton Santos. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 805 – 10 de setembro de 1953.

A frase pesada do homem forte do Botafogo abalou os garotos que ali estavam. Com todos em silêncio, Zezé Moreira perguntou quem jogava de beque. Então, muitos levantaram o braço.

Ainda um tanto impaciente, Zezé Moreira disse que não era necessário ter pressa pois todos seriam testados. Em seguida alguém se aproximou e pediu para Zezé maneirar, pois o indicado do Major Honório estava entre os garotos.

O treino já estava pela metade quando mandaram Nilton Santos entrar em campo.

Firme em seu propósito, Nilton Santos jogou como nos velhos tempos da Ilha do Governador. Deu toques de efeito, correu, lançou e até chutou ao gol!

Depois de três treinamentos jogando em sua posição preferida na ponta esquerda, Nilton Santos foi convidado para ficar. Em abril de 1948 assinou seu primeiro compromisso com o clube e deu baixa na Aeronáutica.

Crédito: reprodução revista Esporte Ilustrado número 945.

Djalma Santos, Gylmar e Nilton Santos. Crédito: revista El Gráfico.

O debute entre os titulares foi tão rápido que o próprio Nilton Santos ficou espantado. Na segunda partida, uma vitória por 4×2 sobre o Canto do Rio. Nilton Santos foi escalado na lateral-esquerda e dali não saiu mais.

O primeiro ano foi além do esperado. O Botafogo conquistou o título carioca de 1948 e impediu o bicampeonato do Vasco da Gama.

Em boa fase, Nilton Santos fez parte do elenco da Seleção Brasileira que conquistou o campeonato Sul Americano de 1949.

Em maio de 1950, com a Copa do Mundo batendo na porta, o técnico Flávio Costa fez questão de contar com o novato lateral do Botafogo para a suplência do experiente Bigode do Flamengo.

Nilton Santos não foi aproveitado na Copa do Mundo de 1950. Depois da trágica derrota para o Uruguai, o lateral do Botafogo continuou em sua caminhada com a camisa do escrete e foi campeão do Pan-Americano de 1952.

O compadre Mané Garrincha. Amizade até o último dia. Crédito: revistafootball.com.br.

Crédito: revista A Gazeta Esportiva Ilustrada.

No verão de 1953, mais um treino estava para começar em General Severiano. Ao entrar no gramado, Nilton Santos logo percebeu o defeito físico de um mulato desconhecido que apareceu para treinar.

Sem pensar muito, Nilton Santos disparou: “A coisa tá feia por aqui. Até aleijado aparecer para treinar”. Mas esse comentário infeliz teve seu preço. O mulato, com nome de passarinho, fez o que quis e deixou Nilton Santos esparramado na grama.

Quando o treino acabou, entre comentários e risadas que partiam de vários pontos das arquibancadas, Nilton Santos correu em direção do técnico Gentil Cardoso.

– Pelo amor de Deus, contratem logo esse tal de Garrincha. Se ele for para outro time estamos fritos!

Depois desse dia, uma forte amizade foi estabelecida entre Garrincha e Nilton Santos, dentro e fora do Botafogo.

De Sordi e Nilton Santos. Crédito: revista Manchete Esportiva número 134 – 14 de junho de 1958.

Em 1954 Nilton Santos foi convocado para disputar sua segunda Copa do Mundo.

Titular absoluto naquela campanha, Nilton Santos sempre lembrou da falta de organização e do amadorismo na preparação, o que resultou em nossa eliminação e no banho de bola aplicado pelos húngaros.

A derrota por 4×2 para a Hungria foi mais uma página de aprendizado para o amadurecimento do futebol brasileiro.

Nilton Santos já era um craque consagrado quando seu nome foi relacionado para disputar sua terceira Copa do Mundo em 1958, na Suécia.

Na campanha de nosso primeiro título mundial, Nilton Santos marcou um gol importante no primeiro compromisso diante da Áustria, mesmo ouvindo os berros desesperados de Vicente Feola, que não aprovava suas aventuras ao campo de ataque.

Crédito: revista O Cruzeiro – Encarte ídolos do futebol brasileiro.

Crédito: revista do Esporte número 112.

No mundial de 1962, mesmo com uma seleção envelhecida e Pelé machucado, o Brasil sobrou nos gramados chilenos. Dificuldade mesmo, só nas partidas contra o Chile e contra os alucinados da “Fúria Espanhola”.

Esse jogo contra a Espanha, válido pela última rodada da fase de classificação, apresentava um ingrediente perigoso: O risco de voltar para casa mais cedo!

O Brasil fazia uma partida nervosa e perdia por 1×0. Foi quando Nilton Santos cometeu um pênalti escandaloso.

Assim que o jogador espanhol caiu dentro da área, Nilton Santos deu dois passos para frente e se colocou fora da área. O árbitro, longe do lance, marcou uma falta e mandou o jogo seguir.

Bicampeão mundial, a “Enciclopédia do Futebol” era um homem realizado.

Pinheiro e Nilton Santos. Crédito: revista do Esporte número 187 – 6 de outubro de 1962.

Campeão carioca de 1948, 1957, 1961, 1962 e campeão do Torneio Rio-São Paulo de 1962 e 1964, Nilton Santos disputou ao todo 729 jogos pelo Botafogo.

A despedida aconteceu em dezembro de 1964, na vitória por 1×0 contra o Flamengo no Maracanã. Naquela oportunidade, o jogador Carlinhos do Flamengo entregou um troféu como parte das homenagens destinadas ao ídolo do Botafogo.

Mesmo com a carreira encerrada, Nilton Santos nunca deixou de viver o futebol. Foi treinador, diretor de futebol, comentarista, escritor e até proprietário de uma loja de material esportivo.

Mas o que realmente o agradou foi o trabalho desenvolvido com mais de mil crianças na cidade de Brasília. A “Enciclopédia do Futebol” nos deixou em 27 de novembro de 2013.

Internado em uma clínica, o craque sofria do Mal de Alzheimer, além de problemas cardíacos e memória comprometida. O Botafogo, desde 2007, arcava com os custos da internação.

Foto de Jurandir Costa. Crédito: revista do Esporte número 292 – 10 de outubro de 1964.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Fausto Neto, Marcelo Rezende, Maria Helena Araújo e Teixeira Heizer), revista A Gazeta Esportiva Ilustrada, revista do Esporte (por Gerson Monteiro e Jurandir Costa), revista El Gráfico, revista Esporte Ilustrado, revista Manchete Esportiva, revista O Cruzeiro, revista O Globo Sportivo, revista Vida do Crack, Jornal A Gazeta Esportiva, Jornal do Brasil, Jornal dos Sports, campeoesdofutebol.com.br, esporte.uol.com.br, globoesporte.globo.com, goldenfoot.com, niltonsantos.com.br, revistafootball.com.br, site do Milton Neves.

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