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Corria o ano de 1984. Sentado em um bar no tradicional bairro da Mooca, aquele homem solitário e ainda reconhecido por poucos, olhava para o vazio enquanto tomava sua costumeira cervejinha em mais um final de tarde que se despedia.

Abandonado pelos amigos, esquecido pelos jornalistas e até pelos torcedores, os mesmos que um dia gritaram seu nome com entusiasmo nas arquibancadas dos estádios por esse imenso Brasil.

A traiçoeira diabetes tinha comprometido suas duas pernas. Outrora, pernas fortes e capazes de desferir chutes violentos, quase sempre certeiros. Pior que isso, eram os momentos de reflexão e de tristeza.

Falava pouco, caminhava com dificuldade e aceitava o anonimato rudemente desenhado pelos rumos da vida.

Rodrigues solitário em um bar no bairro da Mooca. Crédito: revista Placar.

Rodrigues solitário em um bar no bairro da Mooca. Crédito: revista Placar.

Mas essa história de capítulos surpreendentes, quase inusitados, começa bem antes, exatamente no dia 27 de junho de 1925.

Nessa data, nascia na cidade de São Paulo um menino batizado como Francisco Rodrigues, que mais tarde ficou conhecido no mundo do futebol apenas como “Rodrigues Tatu”.

Rodrigues começou no futebol em equipes amadoras do bairro da Mooca e região. Mais tarde, em 1941, o “Tatu” jogava pelo Niterói F.C quando sua excelente canhota foi notada por olheiros do C.A Ypiranga.

O apelido “Tatu” veio do futebol de várzea, das rodinhas de gozação, quando os amigos do Niterói F.C o apelidaram assim por sua semelhança com o simpático bichinho.

Orlando e Rodrigues. Crédito: museudosesportes.blogspot.com.br.

Orlando e Rodrigues. Crédito: museudosesportes.blogspot.com.br.

Crédito: albumdosesportes.blogspot.com.br.

Crédito: albumdosesportes.blogspot.com.br.

Além disso, o matreiro Rodrigues sabia como se esconder de seus marcadores, como se ficasse enrustido em uma toca. Repentinamente, surgia para fazer seus cruzamentos perfeitos ou ainda, estufar o barbante dos adversários com sua canhota mortal e sempre violenta.

Chutava forte, cruzava bonito, fazia gols… Mas gostava mesmo era de ficar escondido, como um autêntico “Tatu”, esperando uma oportunidade concreta para sair de seu esconderijo e “abocanhar” sua presa.

Sua estréia no quadro profissional do C.A Ypiranga ocorreu em 27 de Março de 1943, quando o simpático time do “Vovô da Colina” venceu o São Paulo pelo placar de 2×1.

Além do futebol, Rodrigues desenvolveu sua desenfreada paixão pelas corridas de cavalo e pelos encantos da agitada madrugada paulista.

Ataque do Fluminense: Santo Cristo, Carlyle, Silas, Orlando Pingo de Ouro e Rodrigues Tatu. Crédito: museudosesportes.blogspot.com.br.

Ataque do Fluminense: Santo Cristo, Carlyle, Silas, Orlando Pingo de Ouro e Rodrigues Tatu. Crédito: museudosesportes.blogspot.com.br.

Crédito: revista Esporte Ilustrado número 450 - 21 de novembro de 1946.

Crédito: revista Esporte Ilustrado número 450 – 21 de novembro de 1946.

Rodrigues permaneceu jogando pelo C.A Ypiranga até o ano de 1945, quando despertou o interesse dos dirigentes do Fluminense.

Conforme matéria publicada pelo Jornal Mundo Esportivo, em sua edição de 24 de junho de 1955, o clube das Laranjeiras precisou desembolsar 200 contos para contar com seu futebol.

Iniciou-se assim um ciclo que curiosamente marcaria sua carreira: As constantes idas e vindas entre o futebol paulista e o carioca!

Naquela época “Pré-Maracanã”, o tímido Rodrigues não gostava muito de aparecer e fugia dos repórteres. Preferia ser uma espécie de coadjuvante naquela linha de ataque onde também brilhavam Pedro Amorim, Orlando Pingo de Ouro e, por algum tempo, Ademir Menezes.

Ponce de Leon, Rodrigues Tatu e um repórter. Crédito: Arquivo Público do Estado de São Paulo. Memória Pública – Jornal Última Hora.

Ponce de Leon, Rodrigues Tatu e um repórter. Crédito: Arquivo Público do Estado de São Paulo. Memória Pública – Jornal Última Hora.

Rodrigues e Carlyle. Crédito: Arquivo Público do Estado de São Paulo. Memória Pública – Jornal Última Hora.

Rodrigues e Carlyle. Crédito: Arquivo Público do Estado de São Paulo. Memória Pública – Jornal Última Hora.

Seu primeiro título foi o campeonato carioca de 1946, quando foi o artilheiro da competição com 28 tentos anotados.

No final de 1949, Rodrigues foi negociado com o Palmeiras por indicação do craque Jair Rosa Pinto. Novamente, ele estava no futebol paulista e com aquela transferência, Rodrigues ganhou um bom dinheiro!

E la estava Rodrigues novamente perto do seu querido bairro da Mooca. Dessa vez, envergando as cores de um clube grande e com chances concretas de fazer um bom pé de meia.

O salário não valia nada e para não onerar o clube com os tributos de leis trabalhistas, o que contava mesmo era o “Bicho”. O tal do Bicho é o prêmio pago aos jogadores por vitória ou ainda por um empate, desde que conveniente.

Crédito: Arquivo Público do Estado de São Paulo. Memória Pública – Jornal Última Hora.

Crédito: Arquivo Público do Estado de São Paulo. Memória Pública – Jornal Última Hora.

Crédito: Arquivo Público do Estado de São Paulo. Memória Pública – Jornal Última Hora.

Crédito: Arquivo Público do Estado de São Paulo. Memória Pública – Jornal Última Hora.

O “Bicho”, em dinheiro vivo, era pago ainda no vestiário, geralmente dentro de um envelope pardo com valores diferenciados, dependendo do desempenho de cada jogador na partida.

Então, Rodrigues enfiava o dinheiro no bolso e só ia contar o montante quando já estava cercado por lindas mulheres nos bares do bairro da Mooca. Esse tal de “Bicho” é que fazia a fama de homem endinheirado dos jogadores de futebol.

Rodrigues Tatu formou um ataque poderoso no Palmeiras ao lado de Achiles, Jair Rosa Pinto, Liminha e Canhotinho.

Crédito: albumefigurinhas.no.comunidades.net.

Crédito: albumefigurinhas.no.comunidades.net.

Crédito: revista O Cruzeiro – encarte ídolos do futebol brasileiro.

Crédito: revista O Cruzeiro – encarte ídolos do futebol brasileiro.

Desde 1949, Rodrigues já vestia o uniforme da Seleção Brasileira e no ano de 1950 foi convocado pelo técnico Flávio Costa para disputar o mundial, como suplente do ponta esquerda Chico do Vasco da Gama.

Depois da tristeza daquela inesperada derrota para o Uruguai, Rodrigues seguiu sua vida e foi campeão paulista de 1950, no conhecido “Jogo da Lama”, que só foi disputado no domingo de 28 de janeiro de 1951, contra o São Paulo no estádio do Pacaembu.

Também fez parte da campanha inesquecível do time palmeirense que foi ao Rio de Janeiro para os compromissos da primeira Copa Rio de 1951, o título mais significativo de sua carreira.

Rodrigues, em destaque, comemora com seus companheiros o título paulista de 1950 no famoso "Jogo da Lama".

Rodrigues, em destaque, comemora com seus companheiros o título paulista de 1950 no famoso “Jogo da Lama”.

Rodrigues foi o autor do primeiro gol no empate em 2x2 contra a Juventus da Itália, o suficiente para dar ao clube paulista o título da Copa Rio de 1951.

Rodrigues foi o autor do primeiro gol no empate em 2×2 contra a Juventus da Itália, o suficiente para dar ao clube paulista o título da Copa Rio de 1951.

Rodrigues foi o autor do primeiro gol, no empate em 2×2 contra a Juventus da Itália, que foi o suficiente para dar ao clube paulista o título do torneio. Ainda no mesmo ano, Rodrigues foi campeão do Torneio Rio-São Paulo.

Também foi o titular da ponta-esquerda da Seleção Brasileira que disputou o mundial da Suíça, em 1954. O ataque fortíssimo, era formado por Julinho Botelho, Didi, Índio (ou Humberto Tozzi), Pinga e o próprio Rodrigues.

Nossa seleção ficou pelo caminho quando foi derrotada pela forte formação da Hungria por 4×2, na partida que ficou conhecida como “A Batalha de Berna”.

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Pela Seleção Brasileira o ponteiro atuou em 21 oportunidades, obtendo 16 vitórias, 3 empates, 2 derrotas e 7 gols marcados. Os números foram publicados no livro Seleção Brasileira 90 Anos, dos autores Antonio Carlos Napoleão e Roberto Assaf.

Continuou jogando pelo Palmeiras até o ano de 1955. Ao todo, foram 221 jogos disputados com 133 vitórias, 36 empates, 52 derrotas e 125 gols marcados.

Os dados foram publicados pelo reconhecido Almanaque do Palmeiras, dos autores Celso Dario Unzelte e Mário Sérgio Venditti.

Para não perder o costume, voltou ao Rio de Janeiro para jogar pelo Botafogo de Futebol e Regatas, onde permaneceu até o ano de 1959.

Os bons tempos de Rodrigues no escrete. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 840.

Os bons tempos de Rodrigues no escrete. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 840.

Depois do período discreto no time da “Estrela Solitária”, Rodrigues também teve uma breve passagem pelo futebol argentino, entre os anos de 1960 e 1961, quando defendeu o Rosário Central.

Em seguida, retornou de forma definitiva ao futebol paulista, desta vez ao mesmo bairro da Mooca para jogar pelo C.A Juventus e pouco depois pendurar definitivamente suas chuteiras.

Longe do futebol profissional, o “Tatu” ainda batia sua bolinha pelo C.A Parque da Mooca. Francisco Rodrigues, o Rodrigues Tatu, ex-ponta-esquerda do Palmeiras nos anos cinquenta, faleceu na cidade de São Paulo (SP), no dia 30 de outubro de 1988.

Rodrigues foi capa da revista El Gráfico quando defendeu o Rosário Central.

Rodrigues foi capa da revista El Gráfico quando defendeu o Rosário Central.

C.A Juventus: Em pé: zagueiro não identificado, Mão de Onça, Clóvis, Homero, Lima e Pando. Agachados: Lanzoninho, Zeola, Buzzone, Cássio e Rodrigues Tatu. Crédito: site do Milton Neves.

C.A Juventus: Em pé: zagueiro não identificado, Mão de Onça, Clóvis, Homero, Lima e Pando. Agachados: Lanzoninho, Zeola, Buzzone, Cássio e Rodrigues Tatu. Crédito: site do Milton Neves.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por José Maria de Aquino e Alberto Helena Junior), revista El Gráfico, revista do Esporte, revista Manchete Esportiva, revista A Gazeta Esportiva Ilustrada, revista Esporte Ilustrado, revista O Cruzeiro – encarte ídolos do futebol brasileiro, revista O Globo Sportivo, site do Milton Neves, museudosesportes.blogspot.com.br, gazeta esportiva.net, albumdosesportes.blogspot.com.br, memoriafutebol.com.br, Arquivo Público do Estado de São Paulo – Memória Pública – Jornal Última Hora, Livro: Seleção Brasileira – 90 Anos – Antonio Carlos Napoleão e Roberto Assaf, Almanaque do Palmeiras – Celso Dario Unzelte e Mário Sérgio Venditti, albumefigurinhas.no.comunidades.net, Jornal Mundo Esportivo.