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Sentado em um bar no tradicional bairro da Mooca, aquele senhor solitário tomava sua costumeira cervejinha em mais um final de tarde que se despedia.

O andar vagaroso pelas pernas enfraquecidas não colocava mais medo em ninguém. Ficou apenas a saudade do tempo em que seus petardos violentos levavam pavor aos goleiros.

No anonimato e sofrendo os efeitos da Diabetes, a evolução da doença o tirou até o prazer de rever os amigos nos botecos do bairro. Precisou amputar uma perna e logo em seguida a outra.

Francisco Rodrigues, o “Rodrigues Tatu”, nasceu na cidade de São Paulo (SP), em 27 de junho de 1925.

Rodrigues começou no futebol em equipes amadoras do bairro da Mooca e região. Foi descoberto por olheiros do Clube Atlético Ypiranga em 1941, quando jogava por uma equipe chamada Niterói Futebol Clube.

Rodrigues, que também brilhou pela Seleção Brasileira, viveu seus últimos anos de maneira simples no bairro da Mooca. Crédito: revista Placar – 13 de julho de 1979.

Linha de ataque do Fluminense em 1946. Partindo da esquerda; Pedro Amorim, Ademir Marques de Menezes, Simões, Orlando Pingo de Ouro e Rodrigues. Crédito: museudosesportes.blogspot.com.br.

O apelido “Tatu” surgiu ainda no futebol de várzea, quando os companheiros diziam que Rodrigues se ocultava dos marcadores como se ficasse em uma toca.

Chutava forte, cruzava bonito e fazia muitos gols. Sua primeira participação no quadro principal do Ypiranga aconteceu em 27 de março de 1943, na vitória diante do São Paulo pelo placar de 2×1.

Além do futebol, Rodrigues era um apaixonado pelas corridas de cavalo e pelos encantos da agitada madrugada paulista.

Rodrigues permaneceu jogando pelo Ypiranga até o ano de 1945, quando despertou o interesse dos dirigentes do Fluminense Football Club.

Crédito: revista Esporte Ilustrado número 450 – 21 de novembro de 1946.

Conforme matéria publicada pelo Jornal Mundo Esportivo, em sua edição de 24 de junho de 1955, o clube das Laranjeiras precisou desembolsar 200 contos para contar com seu futebol.

Começou assim um ciclo que curiosamente marcaria sua carreira: As constantes idas e vindas entre o futebol paulista e o carioca!

Naquela época “Pré-Maracanã”, o tímido Rodrigues não gostava muito de aparecer. Preferia ser uma espécie de coadjuvante naquela linha de ataque onde também brilhavam Pedro Amorim, Orlando Pingo de Ouro e Ademir Marques de Menezes.

Seu primeiro título foi o campeonato carioca de 1946, quando foi o artilheiro da competição com 28 gols marcados.

Crédito: albumdosesportes.blogspot.com.br.

Rodrigues foi o autor do primeiro gol no empate em 2×2 contra a Juventus da Itália, o suficiente para dar ao clube paulista o título da Copa Rio de 1951.

Lembrado na Seleção Brasileira desde 1949, Rodrigues foi convocado pelo técnico Flávio Costa para disputar o mundial de 1950, como suplente do ponta esquerda Chico do Vasco da Gama.

Depois da inesperada derrota para o Uruguai no quadrangular decisivo da Copa do Mundo, Rodrigues foi negociado com a Sociedade Esportiva Palmeiras em 1950.

Novamente no futebol paulista, a transferência até que rendeu um bom dinheiro. Morando de novo em seu querido bairro da Mooca, Rodrigues estava feliz e com tudo favorável para fazer um bom pé de meia.

O salário pouco representava. O que contava mesmo era o “Bicho”, um prêmio pago aos jogadores por vitória ou ainda por um empate, desde que fosse conveniente na tabela de classificação.

Rodrigues e Carlyle. Crédito: Arquivo Público do Estado de São Paulo – Memória Pública – Jornal Última Hora.

Crédito: revista O Cruzeiro – Encarte ídolos do futebol brasileiro.

O “Bicho”, em dinheiro vivo, era pago ainda no vestiário, geralmente dentro de um envelope pardo e com valores diferenciados, dependendo do desempenho de cada jogador.

Então, Rodrigues colocava o dinheiro no bolso e só ia contar o montante quando já estava cercado por lindas mulheres. Esse tal “Bicho” é que fazia a fama de homem endinheirado dos jogadores de futebol.

Ao lado de Aquiles, Jair Rosa Pinto, Liminha e Canhotinho, Rodrigues formou uma linha de ataque poderosa no Palmeiras, com importante participação no período de ouro marcado pela conquista das “Cinco Coroas”:

– 1ª Coroa: Taça Cidade de São Paulo de 1950; 2ª Coroa: Campeonato Paulista de 1950; 3ª Coroa: Torneio Rio-São Paulo de 1951; 4ª Coroa: Taça Cidade de São Paulo de 1951; 5ª Coroa: Copa Rio de 1951.

Além dos triunfos no período das “Cinco Coroas”, Rodrigues também faturou os torneios internacionais da Taça Peñarol em 1951 e o Troféu Cidade do México em 1952.

Os bons tempos de Rodrigues no escrete. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 840.

Rodrigues também foi o titular da ponta-esquerda da Seleção Brasileira que disputou o mundial da Suíça, em 1954. O ataque era formado por Julinho Botelho, Didi, Índio (ou Humberto Tozzi), Pinga e o próprio Rodrigues.

Nossa seleção ficou pelo caminho ao ser derrotada pela forte formação da Hungria por 4×2, na partida que ficou conhecida como “A Batalha de Berna”.

Pela Seleção Brasileira foram 21 participações com 16 vitórias, 3 empates, 2 derrotas e 7 gols marcados. Os números foram publicados no livro “Seleção Brasileira 90 Anos”, dos autores Antonio Carlos Napoleão e Roberto Assaf.

Rodrigues continuou jogando pelo Palmeiras até 1955, retornando depois em 1957. Ao todo, foram 221 jogos com 133 vitórias, 36 empates, 52 derrotas e 125 gols marcados.

Os registros foram publicados pelo reconhecido Almanaque do Palmeiras, dos autores Celso Dario Unzelte e Mário Sérgio Venditti.

Crédito: Arquivo Público do Estado de São Paulo – Memória Pública – Jornal Última Hora.

Crédito: revista A Gazeta Esportiva Ilustrada.

Para não perder o costume, Rodrigues voltou mais uma vez ao Rio de Janeiro em 1955, ao ser emprestado para o Botafogo de Futebol e Regatas, equipe onde permaneceu até 1956.

Após o curto período no time da “Estrela Solitária”, o atacante retornou ao Palmeiras em 1957. Rodrigues jogou ainda no futebol argentino pelo Rosário Central e depois pelo Clube Atlético Juventus.

Algumas fontes registram ainda uma curta passagem pelo Paulista Futebol Clube, da cidade de Jundiaí (SP). Longe do futebol profissional, o “Tatu” ainda jogou sua bolinha no Clube Atlético Parque da Mooca.

Francisco Rodrigues, o Rodrigues Tatu, faleceu na cidade de São Paulo (SP), no dia 30 de outubro de 1988.

Rodrigues foi capa da revista El Gráfico quando defendeu o Rosário Central.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por José Maria de Aquino e Alberto Helena Junior), revista El Gráfico, revista do Esporte, revista Manchete Esportiva, revista A Gazeta Esportiva Ilustrada, revista Esporte Ilustrado, revista O Cruzeiro, revista O Globo Sportivo, Jornal Mundo Esportivo, Arquivo Público do Estado de São Paulo – Memória Pública – Jornal Última Hora, gazeta esportiva.net, museudosesportes.blogspot.com.br, albumdosesportes.blogspot.com.br, memoriafutebol.com.br, site do Milton Neves, Livro: Seleção Brasileira – 90 anos – Antonio Carlos Napoleão e Roberto Assaf, Almanaque do Palmeiras – Celso Dario Unzelte e Mário Sérgio Venditti.

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