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Manoel dos Santos nasceu em Pau Grande, subdistrito de Magé, um lugarejo no pé da serra de Petrópolis (RJ), em 18 de outubro de 1933. 

Família pobre e numerosa, Manoel era o quinto filho de Amaro Francisco dos Santos e Maria Carolina dos Santos. Nos primeiros anos de vida, o guri andava dia e noite com a mesma camisa e era chamado de “camisinha”.

Vivia pelas matas da região descalço como bicho solto. E foi por isso que ganhou da irmã mais velha o apelido de “Garrincha”, um pássaro que canta bonito, mas não se dobra ao cativeiro.

Aos 15 anos de idade foi trabalhar na Cia América Fabril, época em que recebeu o “Francisco” no nome e conheceu Swing e Pincel, os amigos que o acompanhavam nas bebedeiras e caçadas de passarinhos.

Não demorou para treinar no time da fábrica, mas não teve chance de jogar imediatamente. Além da pouca idade, o técnico do time temia sacrificar o garoto que tinha problemas nas pernas.

Garrincha com a camisa do Esporte Clube Pau Grande. Crédito: revista Manchete Esportiva número 122 – 1958.

Foto de Domingos Pereira. Crédito: revista A Gazeta Esportiva Ilustrada – 1959.

Sua coluna era deformada, sua perna direita tinha o formato de uma tesoura curvada para dentro; enquanto sua perna esquerda era curvada para fora e 6 centímetros mais curta.

Mas nenhuma dessas deformidades impediu que seu talento aflorasse. Triste por não poder jogar no time da fábrica, Garrincha ficou alguns meses no time do Serrano de Petrópolis, até ser acolhido no Esporte Clube Pau Grande.

Naqueles tempos, muitas equipes do Rio de Janeiro faziam amistosos na região de Petrópolis. Foi assim que o jogador Araty do Botafogo levou seu time, o Restauradores, para enfrentar o Esporte Clube Pau Grande.

Quem apitou o jogo foi o próprio Araty, que no final da partida ficou impressionado com o talento do ponteiro direito do Pau Grande: “Você tem lugar em qualquer time do mundo. Vou te levar para treinar no Botafogo”.

Antes, Garrincha já tinha tentado ser aprovado nas peneiras do Fluminense, São Cristóvão e Vasco da Gama. Mas acabou dispensado antes mesmo de entrar em campo, ao ser considerado um “torto”.

Crédito: revista Miroir Du Football número 32 – Agosto de 1962.

Crédito: revista do Esporte número 185 – 22 de setembro de 1962.

Garrincha chegou ao Botafogo no dia 10 de junho de 1953. O técnico Gentil Cardoso não estava e coube ao filho Newton Cardoso receber o rapaz indicado por Araty.

Escalado na ponta direita do time reserva, Garrincha fez o consagrado Nilton Santos suar. O experiente lateral não estava acostumado aos dribles sem bola!

Isso explica o tumulto no final do treino, quando os homens do Botafogo correram para fazer o rapaz assinar qualquer papel para permanecer no clube. Enquanto isso, Nilton Santos disparou: “Pelo amor de Deus contratem logo esse tal de Garrincha. Se ele for para outro time estamos fritos”.

A primeira partida pelo quadro principal do Botafogo aconteceu no início de junho de 1953, na vitória sobre o Bonsucesso por 6×3. Garrincha marcou 3 gols.

Depois desse jogo, quem perdeu noites de sono foram os laterais esquerdos dos outros times, os quais Garrincha chamava apenas de “João”.

Crédito: revista Placar.

Crédito: revista do Esporte número 65.

Ameaçava o drible e saia correndo sem a bola, com o marcador correndo junto! Suas vítimas mais conhecidas foram Jordan do Flamengo, Altair do Fluminense e Coronel do Vasco da Gama.

“Alegria do Povo” e “Anjo das Pernas Tortas”, o homem que fazia o Maracanã lotar para assistir seus dribles estranhos. Garrincha apanhava e sofria. Nem todos queriam ser transformados em “João”.

O primeiro jogo pelo escrete canarinho foi em 18 de setembro de 1955, no empate com o Chile por 1×1. Os primeiros gols só aconteceram em maio de 1958, na vitória da Seleção Brasileira sobre o Corinthians por 5×0.

Campeão carioca de 1957, Garrincha foi convocado para a Copa do Mundo de 1958 como suplente de Joel Martins. Só foi escalado como titular na terceira partida contra a União Soviética e não saiu mais do time.

Com o título mundial de 1958, a popularidade de Garrincha era impressionante. Se como ídolo do Botafogo já era difícil andar na rua, como “estrela do escrete” ficava quase impossível sair de casa.

Crédito: revista do Esporte.

Garrincha e Pelé. Crédito: revista do Esporte número 323 – 1965.

Empolgado pelo romance com a cantora Elza Soares, Garrincha embarcou para disputar sua segunda Copa do Mundo em 1962. Com Pelé fora do time por contusão, o ponteiro direito do Botafogo brilhou como nunca e o Brasil conquistou o bicampeonato.

Na volta do Chile, seus joelhos clamavam por socorro. A situação foi piorando e os procedimentos de infiltração pareciam não fazer mais efeito.

Para continuar embolsando gordas cotas financeiras nos amistosos, os médicos do Botafogo não mediam esforços para manter o astro em campo.

Bicampeão carioca em 1961 e 1962, o confronto final de 1962 contra o Flamengo é considerado seu último grande momento no Maracanã.

Depois dessa partida, Garrincha entrou em um processo irreversível de decadência. Os joelhos não davam trégua e sua recuperação ficava cada vez mais difícil!

Crédito: revista do Esporte número 388 – 1966.

Crédito: revista O Cruzeiro – 1966.

O último jogo pelo time da “Estrela Solitária” aconteceu na vitória sobre a Portuguesa do Rio em 16 de setembro de 1965. Com a camisa do Botafogo foram 614 partidas disputadas com 245 gols marcados.

Em seguida, seu passe foi negociado com o Corinthians em 1966.

Apesar da conquista do Torneio Rio-São Paulo de 1966, o combalido Garrincha não correspondeu ao grande sentimento de esperança da Fiel Torcida.

Pelo time do Parque São Jorge foram apenas 13 partidas com 5 vitórias, 2 empates, 6 derrotas e 2 gols marcados. Os números foram publicados pelo Almanaque do Corinthians, do autor Celso Dario Unzelte.

Ainda em 1966, Garrincha participou da fracassada campanha canarinho na Copa do Mundo da Inglaterra. Mesmo sem condições físicas, seu nome foi imposto no elenco pelos caprichos de João Havelange, então presidente da CBD.

No Corinthians apenas uma sombra dos tempos do Botafogo. Crédito: revista Placar.

Garrincha no Flamengo. Crédito: revista Placar – 3 de dezembro de 1982.

Dispensado em 1968 pelo Atlético Junior da Colômbia, Garrincha assinou com o Flamengo. Foram 20 partidas com 12 vitórias, 4 empates, 4 derrotas e 4 gols marcados. Os registros fazem parte do Almanaque do Flamengo, dos autores Clóvis Martins e Roberto Assaf.

Depois de algumas participações pelo Olaria, a carreira profissional foi encerrada em 1972. Então, como um artista de circo, Garrincha participava de partidas de exibição por todo o Brasil.

Em situação financeira difícil, o consumo excessivo de álcool cobrava seu preço. Pressionados pela opinião pública e pela imprensa, os homens da antiga CBD fizeram o chamado “Jogo da Gratidão” em 1973.

Além da merecida homenagem, Garrincha receberia também o montante total das bilheterias. Assim, em 19 de dezembro de 1973, mais de 150 mil pessoas foram ao Maracanã para assistir o capítulo derradeiro de Garrincha na Seleção Brasileira.

Com internações frequentes e saúde debilitada, Garrincha foi definhando até falecer na cidade do Rio de Janeiro, em 20 de janeiro de 1983. 

Garrincha com a camisa do Olaria. Crédito: revista Placar.

Balada Número 7 foi um dos maiores sucessos da carreira de Moacyr Franco. A música foi lançada em 1971 e vendeu 347 mil discos. Crédito da imagem: revista do Rádio.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Dagomir Marquezi e Paulo Vinicius Coelho), revista A Gazeta Esportiva Ilustrada (por Domingos Pereira e Sérgio Barbosa), revista do Esporte, revista do Rádio, revista Esporte Ilustrado, revista Futebol e Outros Esportes, revista Manchete, revista Manchete Esportiva, revista Miroir Du Football, revista O Cruzeiro, revista Veja, Jornal A Gazeta Esportiva, Jornal da Tarde, Jornal do Brasil, Jornal dos Sports, Jornal O Globo, arquivonacional.gov.br, campeoesdofutebol.com.br, esporteclubepaugrande.blogspot.com.br, extra.globo.com, gazetaesportiva.net, globoesporte.globo.com, museudosesportes.blogspot.com.br, topicos.estadao.com.br, Livro: Estrela Solitária – Ruy Castro – Editora Companhia das Letras, Almanaque do Corinthians – Celso Dario Unzelte, Almanaque do Flamengo – Clóvis Martins e Roberto Assaf.