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Aos poucos, com o entardecer, as águas do Guaíba são transformadas em uma espécie de tapete avermelhado. É mais um dia de outono que vai terminando na então pacata cidade de Porto Alegre em 1939.

Envolvidos em alegria, meninos de pé no chão correm atrás da bola de meia levantando poeira no areal da Rua Baronesa de Gravataí, bem próxima ao rio.

Alheios aos alaridos, dois rapazes conversam no portão de uma simples casinha de madeira, como se estivessem planejando o futuro. Naquele dia, Trololó mostra-se mais insistente do que de costume.

Trololó jogava pelo juvenil do Sport Club Internacional e queria convencer o amigo Tesourinha para fazer o mesmo. Preocupado, Tesourinha só pensava nas responsabilidades e não conseguia se imaginar vivendo do futebol.

Crédito: revista Panorama Esportivo.

Osmar Fortes Barcellos, o consagrado Tesourinha, nasceu em Porto Alegre (RS), no dia 13 de dezembro de 1921.

Família humilde, Dona Ernestina ficou viúva em 1925, quando se viu obrigada no ofício de lavar roupas para sustentar os três filhos: Ademar o filho mais velho, Osmar (O Tesourinha, dois anos mais novo) e a pequena Dilma.

E o peralta Tesourinha vivia seu mundo agitado pela vizinhança. Entregava as roupas lavadas por Dona Ernestina e jornais para reforçar o orçamento doméstico.

Aos doze anos de idade suportava uma jornada de trabalho em tempo integral como Serralheiro no serviço de intendência, ganhando 40 mil Réis por mês.

Com o tempo quase todo preenchido pelo trabalho, Tesourinha deixava os livros de lado para poder jogar futebol. Aos domingos, uma autêntica romaria se estabelecia no portão de casa com inúmeros convites para jogar pelos times da região.

Crédito: revista Placar – 14 de janeiro de 1977.

Partindo da esquerda; Tesourinha, Rui, Adãozinho, Eliseu e Carlitos. Crédito: osgigantesdacolina.blogspot.com.br.

Iniciou sua vida esportiva jogando na várzea porto-alegrense como ponteiro esquerdo de times como o Bangu, Juventude, XX de Setembro e o Castelo. Posteriormente, jogou também pelo Ferroviário da capital gaúcha.

Tesourinha, que na juventude detestava usar chuteiras, ou “botinas” como também eram conhecidas, nunca reclamou dos calos ou ferimentos.

O apelido “Tesourinha” surgiu de um bloco carnavalesco, chamado “Os Tesouras”, do qual fazia parte. Mas bem que poderia ser uma referência ao modo como “cortava” seus adversários com dribles mágicos em espaço reduzido.

Em 1939 finalmente foi convencido e levado para fazer um teste no Estádio dos Eucaliptos. Agradou tanto que acabou ficando no Internacional.

Tesourinha não permaneceu por muito tempo no quadro de Aspirantes. Sua primeira participação no time principal aconteceu no domingo de 23 de outubro de 1939, no empate em 1×1 contra o Cruzeiro gaúcho.

Crédito: revista o Globo Sportivo.

Um ataque de respeito. Partindo da esquerda; Ademir Menezes, Jair Rosa Pinto, Heleno de Freitas, Zizinho e Tesourinha. Crédito: revista Placar – 14 de janeiro de 1977.

Franzino e muito pobre, Tesourinha ganhou uma autorização especial da direção do Internacional para pegar diariamente dois litros de leite nos armazéns, perto do Estádio dos Eucaliptos.

Logo, Tesourinha foi deslocado para o lado direito do gramado em razão da presença de Carlitos na ponta esquerda.

Aquele time, que ficou conhecido como o “Rolo Compressor”, contava com uma linha de ataque que marcou época no “Colorado”: Tesourinha, Rui, Adãozinho, Eliseu e Carlitos.

Quando assinou seu primeiro contrato fixado em 150 mil Réis por mês, Tesourinha entrou em casa e disse para Dona Ernestina que os tempos de míngua estavam com os dias contados.

Crédito: revista Esporte Ilustrado número 615 – 19 de janeiro de 1950.

Em meio ao clima de felicidade, Tesourinha só ficava triste quando lembrava das tragédias familiares que viveu.

O irmão Ademar faleceu muito jovem por complicações de uma cirurgia de hérnia, enquanto que a pequena Dilma faleceu vitimada por uma apendicite.

Lembrava também do que lhe contaram sobre o pai, o senhor Bonifácio, que ao limpar uma arma sofreu um disparo acidental no joelho. Internado na Santa Casa de Misericórdia, o patriarca da família Barcellos faleceu em 1925.

Tesourinha era um ponta direita extremamente hábil e técnico, que além de driblar com incrível facilidade também chutava com precisão, o que lhe permitia ser muito mais do que um preparador de jogadas.

Crédito: revista Esporte Ilustrado.

Crédito: revista O Globo Sportivo número 650 – 1951.

Com exceção de 1946, Tesourinha ajudou o Internacional na conquista de oito campeonatos gaúchos no período compreendido entre 1940 e 1948.

Em 1944 Tesourinha foi convocado pela primeira vez para defender o escrete nacional na Copa Rio Branco. Sua estreia aconteceu no dia 15 de maio de 1944, em São Januário, com uma vitória maiúscula sobre o Uruguai por 6×1.

Em 1946, durante o campeonato Sul-Americano disputado no Chile, Tesourinha fez parte de uma das melhores linhas ofensivas na história da Seleção Brasileira em todos os tempos: Tesourinha, Zizinho, Heleno de Freitas, Jair e Ademir.

O ano de 1949 reservou muitos acontecimentos na vida de Tesourinha. Primeiro, conquistou o campeonato Sul-Americano de 1949, realizado no Brasil, ao mesmo tempo em que foi eleito, em concorrência nacional, como o “Melhoral dos Craques”.

Após uma derrota sofrida para o Grêmio, que custou ao Internacional o título da cidade em outubro de 1949, Tesourinha sentiu que sua história no “Colorado” estava com os dias contados.

Figurinha de Tesourinha no Vasco da Gama. Crédito: albumefigurinhas.no.comunidades.net.

Figurinha de Tesourinha no Grêmio. Crédito: albumefigurinhas.no.comunidades.net.

Em dezembro de 1949, pela vultosa quantia de 300 Contos, Tesourinha foi negociado com o Club de Regatas Vasco da Gama, onde formou outro ataque lendário ao lado de craques como Maneca, Ademir, Ipojucan e Friaça.

Se 1949 foi marcado pelas transformações e novidades, o ano de 1950 reservou capítulos nada agradáveis em suas andanças pelos gramados cariocas.

Uma grave lesão no joelho, ocasionada em uma disputa com o lateral Bigode, o tirou do grupo que disputou o mundial de 1950.

Apesar do sério contratempo na carreira, Tesourinha ainda conquistou o título carioca do mesmo ano, o primeiro da “Era Maracanã”.

Em março 1952 Tesourinha voltou ao futebol gaúcho para jogar pelo Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, quebrando assim o terrível preconceito racial que existia dentro do clube.

Crédito: revista Grandes Clubes Brasileiros.

Uma forte ligação com o Estádio dos Eucaliptos. Crédito: revista Grandes Clubes Brasileiros.

Apesar da indignação dos torcedores do Inter, Tesourinha foi um autêntico “abolicionista”, ao ser o primeiro negro com o uniforme do tricolor.

Tesourinha continuou no Grêmio até 1955. Em seguida, encerrou sua carreira no time do Nacional (RS) disputando os estaduais de 1956 e 1957, quando finalmente encerrou sua missão no futebol.

Em 26 de março de 1969 participou da despedida do Estádio dos Eucaliptos pelo Internacional, em amistoso contra o Rio Grande.

No final da partida, Tesourinha caminhou até uma das traves e tirou a rede para guardar como recordação. Emocionado, chorou ao lado dos garotos que disputavam sua camisa.

Dez anos depois, em 16 de junho de 1979, Tesourinha não resistiu aos efeitos de um câncer no estômago. Deixou o mundo na mesma cidade onde nasceu e fez história.

Crédito: revista Placar – 14 de janeiro de 1977.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Divino Fonseca), revista do Esporte, revista Esporte Ilustrado, revista Panorama Esportivo, revista O Globo Sportivo, revista Grandes Clubes Brasileiros, site do Milton Neves, museudosesportes.blogspot.com.br, esporte.uol.com.br, campeoesdofutebol.com.br, osgigantesdacolina.blogspot.com.br, internacional.com.br, colecionadorcolorado.com.br, albumefigurinhas.no.comunidades.net. 

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