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Filho de um comerciante alemão e de uma lavadeira negra, Arthur Friedenreich nasceu em 18 de julho de 1892, na esquina das ruas Vitória e Triunfo, próximas ao centro da cidade de São Paulo. 

Ainda menino, Friedenreich roubava meias femininas para confeccionar bolas, o que causava enormes transtornos para sua mãe, que precisava tomar o bonde e ir ao centro da cidade para repor o guarda-roupas.

E no seu gramado imaginário, Friedenreich mantinha o sonho de ser um grande astro das elegantes praças esportivas da época, que por sua vez, não toleravam negros naquele início do século XX.

Por interferência de um tio, Friedenreich foi aceito no Sport Club Germania em 1909. Em um ambiente carregado de preconceitos estabelecidos por pseudos intelectuais, algumas artimanhas foram necessárias para sobreviver no clube.

Antes usadas como bola, meias femininas serviam agora como uma espécie de touca para esconder o cabelo mulato. Para completar a inusitada metamorfose, Friedenreich aplicava alguns borrifos de rouge no rosto, o que certamente era o bastante para iludir os almofadinhas absortos.

No findar de 1917, Friedenreich foi jogar pelo Club Athletico Paulistano. Crédito: acervo.oglobo.globo.com.

A fachada do Club Athletico Paulistano, agremiação onde Arthur Friedenreich dedicou muitos anos de sua rica caminhada esportiva! Crédito: Jornal Mundo Esportivo número 26 – Sexta Feira, 21 de fevereiro de 1947.

Naqueles tempos, Friedenreich já era um jogador cobiçado! Foi parar depois no Clube Atlético Ypiranga, momento em que seu relativo prestígio era o suficiente para dissimular a aparência mulata em amplo contraste com olhos esverdeados. 

Friedenreich falava fluentemente o idioma alemão e no curso de sua juventude aprendeu também o francês e o inglês. Foi estudante de engenharia e para tanto defendeu o time do Mackenzie College em 1912.

Depois de um breve período no Americano de São Paulo e também no Paysandu, Friedenreich foi jogar pelo Club Athletico Paulistano no findar de 1917.

No Paulistano, o atacante dedicou vários anos de sua carreira ainda amadora, o que lhe dava o direito de possuir uma carteirinha de sócio militante do clube.

Brilhou também com a camisa do escrete nacional na temporada de 1914. Anos depois participou da conquista do campeonato Sul-Americano de 1919, quando foi considerado o melhor jogador da competição!

Arthur Friedenreich com a camisa da Seleção Brasileira. Crédito: revista Placar.

Friedenreich aparece ao lado de Heitor do Palestra Itália. Crédito: Jornal A Gazeta Esportiva.

Em 1925, Friedenreich fez parte da equipe do Paulistano que fez muito sucesso nos gramados da Europa com 9 vitórias em 10 partidas disputadas. Em êxtase, a imprensa europeia logo outorgou ao quadro paulista o título simbólico de “Les Rois du Football” (Os Reis do Futebol).

No seu último ano de Paulistano em 1929, Friedenreich marcou 7 gols em uma única partida. O feito foi registrado em um confronto diante do União da Lapa, um recorde na época!

Pelo Paulistano foram vários títulos paulistas conquistados: 1918, 1919, 1921 (APEA – Associação Paulista de Esportes Atléticos) e 1926, 1927 e 1929 (LAF – Liga de Amadores de Futebol).

Com o fim das atividades do departamento de futebol do Paulistano em 1929, Friedenreich passou rapidamente pelo Internacional (SP), Atlético Santista e pelo Santos Futebol Clube.

Transferido para o São Paulo da Floresta, seu futebol foi elemento determinante na conquista do título paulista de 1931 (APEA – Associação Paulista de Esportes Atléticos).

Friedenreich vestindo uma camisa diferente do selecionado paulista. Crédito: revista Placar – 6 de maio de 1983.

No São Paulo, Friedenreich viveu um período muito produtivo. Crédito: revista Placar – Junho de 1999.

Também conhecido como “El Tigre”, Friedenreich foi o artilheiro do campeonato paulista nas edições de 1912, 1914, 1917, 1918, 1919, 1921, 1927 e 1929, embora os registros da APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos) e da LAF (Liga de Amadores de Futebol) apresentem números imprecisos.

Friedenreich só deixou o futebol de lado quando precisou apoiar o movimento da Revolução Constitucionalista de 1932. Liderou um batalhão de aproximadamente 3.000 outros atletas e foi promovido ao posto de Segundo Tenente.

Em 81 partidas disputadas pelo São Paulo, Friedenreich marcou 63 gols, o que coloca seu nome entre os maiores artilheiros da história do clube (por média) de todos os tempos.

Sua última partida pelo São Paulo da Floresta aconteceu no dia 2 de setembro de 1934, na vitória sobre o Palestra Itália por 1×0. O gol foi marcado aos 18 minutos da etapa complementar.

Depois de uma passagem pelo Atlético Mineiro (MG) e de um curto retorno ao Santos, Friedenreich encerrou sua trajetória no Flamengo (RJ) em 1935. Jogou ainda no selecionado paulista e também em vários combinados de clubes.

Friedenreich e Leônidas da Silva, grandes estrelas da história do tricolor. Crédito: revista O Globo Sportivo – 9 de junho de 1944.

Trinca de craques no gramado do Maracanã. Partindo da esquerda; Leônidas da Silva, Ademir Marques de Menezes e Arthur Friedenreich. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 960 – 30 de agosto de 1956.

Alguns registros apontam que Friedenreich marcou ao longo de sua caminhada o total de 1.239 gols. Entretanto, outras publicações divulgam 1281 gols em 1329 partidas.

Esse trocadilho pode ter provocado o número também conhecido de 1329 gols, marca que não oferece sustentação documental para uma devida comprovação. Mesmo assim podemos então concluir que Friedenreich chegou aos 1.000 gols antes que Pelé.

Em levantamento realizado pela revista Placar em junho de 2000, Friedenreich teria marcado 556 gols em 561 jogos, uma média de 0,99 gols por partida, com números superiores inclusive aos de Pelé, com 0,93 gols por jogo.

Ao deixar o futebol, Friedenreich foi beneficiado pelos laços com a comunidade germânica. A Companhia Antarctica Paulista o contratou como propagandista em setembro de 1938.

Aposentado, Arthur Friedenreich enfrentou duros anos de pobreza e faleceu na cidade de São Paulo (SP), em 6 de setembro de 1969.

Pelé e Arthur Friedenreich, os maiores artilheiros do mundo! Crédito: revista O Cruzeiro.

Um rico comparativo entre Friedenreich e Pelé foi publicado na obra “Fried versus Pelé”, dos autores Orlando Duarte e Severino Filho.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Alexandre da Costa, Celso Kinjô, Dagomir Marquezi, Maurício Azêdo, Paulo Mattiussi e Salvato Claudino), revista Esporte Ilustrado, revista O Cruzeiro, revista O Globo Sportivo, Jornal A Gazeta Esportiva, Jornal dos Sports, Jornal Mundo Esportivo, acervo.oglobo.globo.com, campeoesdofutebol.com.br, gazetaesportiva.net, placar.abril.com.br, santosfc.com.br (por André Mendes), saopaulofc.net, site do Milton Neves (por Marcelo Rozenberg), Livro: Fried versus Pelé – Orlando Duarte e Severino Filho – Editora Makron Books.