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Homem de convicções fortes, Flávio Costa era um treinador exigente, inflexível e especialmente polêmico. Em hipótese alguma tolerava ser desobedecido ou mesmo questionado.

Até o trabalho de preparação física era administrado por ele. Há quem diga que os únicos serviços que Flávio Costa não fazia era cozinhar, lavar o fardamento e dirigir o ônibus do time.

Mas era Flávio Costa quem decidia o que os jogadores comiam e vestiam dentro e fora dos gramados. Nada de meias arriadas, camisa para fora do calção ou o uso de gorrinhos, branco ou nas cores do clube.

Sempre lembrado por decisões unilaterais, Flávio Costa afastou da equipe titular jogadores importantes e consagrados; como Dida, Heleno de Freitas e Ipojucan.

E independente do pesado rótulo de “ditador”, algo costumeiramente divulgado nos jornais e revistas de sua época, Flávio Costa era acima de tudo um dedicado estudioso do futebol, um grande estrategista!

Moral de sobra no comando da Seleção Brasileira! Crédito: revista Goal número 7 – Abril de 1950.

Maracanã 1950. O maior silêncio do mundo! Crédito: revista Placar.

É considerado um dos grandes vencedores do futebol, ainda que tenha levado para o túmulo o cruel estigma do “Maracanazo” de 1950. Flávio Rodrigues Costa nasceu na cidade mineira de Carangola, em 14 de setembro de 1906.

Sua caminhada esportiva foi iniciada como lateral-direito em um clube pequeno chamado Heleno. Em meados de 1924 foi encaminhado ao quadro de Aspirantes do Clube de Regatas do Flamengo (RJ).

Foi aproveitado no elenco principal em 1926 na posição de médio e, apesar do considerável empenho, seu modesto futebol nunca foi considerado um colírio no conceito dos torcedores!

Em razão da curvatura das pernas e do costume de aplicar carrinhos temerários nas disputas de bola, Flávio Costa ficou conhecido pelos companheiros como “Alicate”.

Como jogador foi uma carreira curta e sobretudo minguada de títulos. Apenas o certame carioca de 1927 e o campeonato brasileiro de seleções estaduais na temporada de 1935.

Até breve Flamengo! O abraço de despedida entre Flávio Costa e o presidente Gilberto Cardoso. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 771 – 15 de janeiro de 1953.

Pelo Flamengo foram 136 partidas; com 64 vitórias, 27 empates, 45 derrotas e 16 gols marcados. Os números foram publicados pelo Almanaque do Flamengo, dos autores Clóvis Martins e Roberto Assaf.

A trajetória de treinador foi iniciada nas fileiras do mesmo Flamengo, enquanto ainda atuava como jogador. Em 1937 trabalhou na Portuguesa carioca e depois no Santos Futebol Clube em 1938.

Regressou ao Rio de Janeiro em 1939 para concluir o curso de Educação Física. Em seguida foi convidado para voltar ao Flamengo, onde inicialmente trabalhou como auxiliar técnico do treinador húngaro Dori Kurschner.

Ao assumir o comando do time principal, Flávio Costa ganhou contornos de um disciplinador ferrenho. Conquistou o campeonato carioca de 1939, mesmo ano em que apostou no futebol de um jovem promissor conhecido como Zizinho!

E o tal do Zizinho mostrou muito mais do que o esperado! Dono de um futebol vistoso, o rapazola foi determinante na conquista do primeiro tricampeonato do clube em 1942, 1943 e 1944.

Trabalho reconhecido em São Januário! Crédito: reprodução revista O Globo Sportivo número 641 – 26 de maio de 1951.

Uma boa passagem pelo futebol português! Crédito: revista O Globo Sportivo número 646.

Em suas passagens pelo time da Gávea foram aproximadamente 780 partidas no comando da equipe. Ainda hoje é o recordista de permanência no cargo!

Além do tricampeonato carioca conquistado no Flamengo, Flávio Costa também comandou o selecionado carioca na conquista do então campeonato brasileiro de seleções em várias edições.

No findar de 1946, Flávio Costa deixou o Flamengo e foi trabalhar no Vasco da Gama. O contrato foi reconhecido na época como o maior valor firmado com um treinador!

Uma de suas primeiras providências em São Januário foi exigir o pronto retorno do astro Ademir Marques de Menezes, que disputou o campeonato carioca de 1946 pelo Fluminense.

Com punhos de ferro, Flávio Costa montou o chamado “Expresso da Vitória”, um forte esquadrão que dominou o cenário carioca com um sistema de jogo que era uma variação do esquema WM inglês.

Novamente no Flamengo, Flávio Costa logo colocou sua cartilha de disciplina em vigor! Crédito: revista do Esporte número 296 – 7 de novembro de 1964.

No Flamengo, uma página especial de uma carreira marcante e vitoriosa! Crédito: revista Placar.

Em grande fase, o esquadrão “Cruzmaltino” treinado por Flávio Costa faturou os títulos cariocas de 1947 e 1949, sem esquecer da conquista do Sul-Americano de clubes em 1948.

Mas nem tudo era um mar de rosas! Depois do campeonato Sul-Americano, os jogadores Djalma e Rafagnelli tentaram peitar Flávio Costa e prontamente foram negociados com o Bangu.

Que o diga o notável craque Ipojucan, que mergulhado em uma crise nervosa no intervalo de uma partida foi “despertado” por bofetes e safanões desferidos por Flávio Costa!

Com fama de competente e disciplinador, Flávio Costa assumiu o comando da Seleção Brasileira. Faturou a Copa Rio Branco nas edições e 1947 e 1950, além do campeonato Sul-Americano de 1949.

A Copa do Mundo de 1950 foi um capítulo distinto! Apesar de bem planejado, o trabalho esbarrou em algumas decisões duramente castigadas pela imprensa.

O técnico Flávio Costa ao lado de Valido, uma relação de amizade e muito trabalho! Crédito: revista Grandes Clubes Brasileiros.

Flávio Costa era muito popular entre os torcedores! Crédito: revista Grandes Clubes Brasileiros número 4 – Rio Gráfica e Editora – 1971.

Tudo começou quando Flávio Costa anunciou um time diferente para o segundo compromisso do mundial diante da Suíça no Pacaembu. Uma providência de cunho tipicamente político!

Assim, o time mostrou um compreensível desentrosamento e o prélio terminou empatado em 2×2. O resultado obrigou uma volta antecipada do contundido Zizinho para o duelo decisivo contra a Iugoslávia, no Maracanã.

Classificação garantida, Flávio Costa autorizou uma discutida mudança no local da concentração. Da pacata e tranquila Joá, o escrete foi instalado em São Januário, o que tornou a vida de seus comandados um verdadeiro tormento.

Todavia, seu erro mais contundente foi talvez negligenciar o experiente quadro do Uruguai. Depois do mundial, Flávio Costa juntou os cacos e conquistou pelo Vasco da Gama o primeiro campeonato carioca da “Era Maracanã” em 1950.

No ano seguinte orientou novamente o Flamengo, antes de regressar em 1953 ao mesmo Vasco para substituir o colega Gentil Cardoso.

“Não tenho mais paciência para ser babá de jogador”. Crédito: revista Placar – 19 de junho de 1970.

Zagallo e o mestre Flávio Costa. A difícil arte de conduzir grandes equipes! Crédito: revista Placar – 9 de novembro de 1973.

Flávio Costa ainda orientou o escrete nos anos de 1955 e 1956. Conquistou a Taça Oswaldo Cruz em 1955 e 1956 e a Taça do Atlântico, também em 1956.

No exterior trabalhou no futebol chileno e português. Passou também com brilho pela Portuguesa de Desportos e pelo São Paulo no intervalo entre 1960 e 1961.

Entre 1962 e 1965 viveu seu último período produtivo no Flamengo e conquistou o campeonato carioca de 1963. Depois de mais um bom momento em Portugal, o afamado treinador descansou até 1970, quando acertou sua volta no Bangu.

Foi também supervisor técnico de vários clubes e passou o restante de sua vida apresentando o seu ponto de vista sobre o triste malogro na Copa do Mundo de 1950.

Digno representante da opulência do papel do treinador nos bastidores, Flávio Rodrigues Costa faleceu no Rio de Janeiro (RJ), em 22 de novembro de 1999.

Símbolo de uma época onde o treinador era uma autoridade quase intocável, Flávio Costa foi um dos maiores vencedores do nosso futebol. Foto de Cláudio Edinger. Crédito: revista Placar.

Flávio Costa passou boa parte da vida tentando explicar o malogro de 1950. Fotos de Marco Antônio Cavalcanti. Crédito: revista Placar – 9 de junho de 1986.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Albino Castro Filho, Cláudio Edinger, José Maria de Aquino e Marco Antônio Cavalcanti), revista do Esporte, revista Esporte Ilustrado (por Alberto Ferreira, José Santos, Leo Batista, Leunam Leite, Levy Kleiman e Luís Mendes), revista Grandes Clubes Brasileiros, revista Goal, revista O Cruzeiro, revista O Globo Sportivo, Jornal do Brasil, Jornal dos Sports, acervo.oglobo.globo.com, bangu.net, campeoesdofutebol.com.br, flamengo.com.br, gazetaesportiva.net, globoesporte.globo.com, site do Milton Neves (por Marcelo Rozenberg), Almanaque do Flamengo – Clóvis Martins e Roberto Assaf, Livro: Dossiê 50 – Geneton Moraes Neto – Editora Objetiva, Livro: O futebol no jogo da verdade – Edson Pinto – Editora Cape.