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Uma densa neblina pousa sobre o cais, enquanto o chão de paralelepípedos brilha com a umidade da manhã. Junto ao armazém 29, uma multidão de estivadores encapotados com casacos de couro puído tenta espantar o frio.

Entre tantos homens castigados pela vida dura, alguns mais atentos aos acontecimentos do “esporte bretão” não deixam por menos:

– Você não é o Joel Camargo que jogou no Santos?

– Eu? Joel Camargo? Nada disso, sou apenas parecido com ele!

Depois de sumir do mundo da bola, Joel Camargo nunca mais procurou os antigos companheiros na Vila Belmiro.

Categoria de base da Portuguesa Santista em 1960. Em pé: Joel Camargo, Pedrão, Ronaldo Tedesco, jogador não identificado, Mário Reis e Ricardo Careca. Agachados: Zico, Pereirinha, Juninho, Valdir Teixeira e Rogério. Crédito: varzeasantista.com.

Crédito: revista Bola Alvinegra número 3 – Edição especial –
Novembro de 1963. Material publicado no site: novomilenio.inf.br.

Em situação financeira difícil, Joel Camargo fechou duas casas lotéricas e tratou de vender a medalha conquistada na campanha do tricampeonato de 1970.

Enfim, o futebol profissional era uma página do passado. Naquele momento da vida, o que realmente importava era o trabalho como estivador, um ofício suado, mas conveniente para quem buscava o anonimato.

Filho de Lourdes Camargo e Antônio Camargo, Joel Camargo nasceu na cidade de Santos (SP), em 18 de setembro de 1946. *Algumas publicações registram seu nascimento em 1944.

A carreira foi iniciada como quarto-zagueiro, nas categorias amadoras da Associação Atlética Portuguesa Santista, onde rapidamente ganhou prestígio.

Dono de um futebol vistoso e elegante, Joel Camargo jogava de cabeça erguida e braços abertos, o que lhe valeu o curioso apelido de “açucareiro”. Também era chamado pelos companheiros como “Besouro”.

Crédito: revista do Esporte número 491 – Agosto de 1968.

Formação da Seleção Brasileira no Morumbi em 1970. Em pé: Carlos Alberto Torres, Leão, Brito, Joel, Clodoaldo e Marco Antônio. Agachados: Jairzinho, Gerson, Roberto Miranda, Pelé e Paulo Cesar. Crédito: revista Fatos e Fotos.

Contratado pelo Santos Futebol Clube em agosto de 1963, Joel Camargo fez parte do elenco que conquistou o segundo título Intercontinental contra o Milan.

A primeira partida como titular só aconteceu em 1 de setembro, diante da Ferroviária de Araraquara.

Em 1969, depois da conquista do tricampeonato paulista, o técnico João Saldanha não tinha mais dúvidas sobre o titular da quarta zaga para a Copa do Mundo do México.

Para Saldanha, Joel Camargo era o melhor quarto zagueiro do mundo. Mas, se na seleção Joel Camargo era o titular absoluto, no Santos o técnico Antoninho Fernandes teimava em escalar Ramos Delgado e Djalma Dias, também excepcionais!

E Saldanha, que não tinha “papas na língua”, reprovava publicamente a opção do colega praiano.

Clássico entre Flamengo e Santos no Maracanã. Partindo da esquerda; Joel Camargo, Ramos Delgado (encoberto), Liminha e Rildo. Crédito: revista Placar – 20 de novembro de 1970.

Foto de Lemyr Martins. Crédito: revista Placar 4 de dezembro de 1970.

Depois da polêmica saída de Saldanha do escrete, Joel Camargo foi perdendo espaço, até ser deixado de lado por Mário Jorge Lobo Zagallo, que optou em improvisar o volante Wilson Piazza em sua posição.

Fontana ainda foi aproveitado na campanha do México, enquanto Joel Camargo foi apenas um turista na conquista do tricampeonato.

De volta ao cenário do futebol paulista, Joel Camargo sofreu um sério acidente de automóvel. O barulho da violenta batida do Opala vermelho em um poste da avenida Ana Costa, em Santos, foi ouvido de longe.

Acusado de dirigir embriagado, o Santos suspendeu o contrato do jogador. Além disso, o longo período de recuperação desvalorizou seu passe.

Sua volta aos gramados revelou cicatrizes no peito e uma alteração anatômica na perna direita. Sem o mesmo futebol que o consagrou, Joel entrou em declínio!

Foto de Lemyr Martins. Crédito: revista Placar 4 de dezembro de 1970.

Crédito: revista Placar – 5 de março de 1971.

A última partida pelo Santos aconteceu em 21 de novembro de 1970, no empate sem gols diante do América (RJ) no Parque Antártica, compromisso válido pela Taça de Prata.

Com a camisa do Santos foram muitos títulos conquistados em mais de 300 compromissos disputados:

– Campeonato paulista 1964, 1965, 1967, 1968 e 1969, Torneio Rio-São Paulo 1964 e 1966, Taça Brasil 1964 e 1965, Torneio Roberto Gomes Pedrosa 1968, Recopa Sul-Americana 1968, Recopa Mundial 1968, além de vários torneios nacionais e internacionais.

Em seguida Joel Camargo teve passagens discretas pelo Paris Saint-Germain Football Club da França, Clube de Regatas Brasil – CRB (AL), Saad de São Caetano do Sul e no Londrina Esporte Clube (PR).

Deixou o futebol precocemente e se aposentou como estivador no porto de Santos. Em seguida ocupou seu tempo administrando aulas de futebol em escolinhas. Joel Camargo faleceu no dia 23 de maio de 2014, na cidade de Santos.

Crédito: revista Placar – 14 de janeiro de 1972.

Crédito: revista Placar – 29 de julho de 1983.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Lemyr Martins, Mário Serapicos, Narciso James e Paulo Sotero), revista Bola Alvinegra, revista do Esporte, revista Fatos e Fotos, revista Grandes Clubes Brasileiros, revista Manchete, Jornal A Gazeta Esportiva, acervosantosfc.blogspot.com.br, campeoesdofutebol.com.br, folha.uol.com.br, novomilenio.inf.br, santosfc.com.br, site do Milton Neves, varzeasantista.com, albumefigurinhas.no.comunidades.net.

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