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Final de semana festivo com churrasco, futebol e tudo de direito no sítio do compadre. Quando o jovem Murilo passa pelo pai ouve uma frase o marcaria para sempre:

– Se for para dar pontapé nem se meta em jogar bola. Não vá me fazer passar vergonha aqui.

Murilo Silva nasceu na cidade de Paraopeba (MG), em 17 de abril de 1921. Em 1940 rumou até Sabará em busca de trabalho e por lá ficou. Algum tempo depois iniciou sua trajetória jogando pelo Esporte Clube Siderúrgica.

Naquele tempo, o Esporte Clube Siderúrgica era patrocinado pela empresa Belgo Mineira, o que ajudou o clube no cenário futebolístico da época.

Murilo jogou pelo Siderúrgica até o final da temporada de 1943, quando surgiu o interesse do Clube Atlético Mineiro.

Murilo ganhou destaque no Esporte Clube Siderúrgica, antes de chegar ao Atlético Mineiro. Crédito: revista Esporte Ilustrado.

Murilo, em destaque, no time do Atlético Mineiro que conquistou o Torneio Início e o campeonato mineiro na edição de 1949. Crédito: O Atlético em revista. Material publicado no site cacellain.com.br.

Tricampeão estadual nas edições de 1946, 1947 e 1949, o zagueiro Murilo também era um dos destaques do selecionado mineiro no campeonato brasileiro de seleções.

Quando Corinthians e Atlético Mineiro realizaram alguns amistosos no início de 1950, os dirigentes do alvinegro paulista ficaram encantados com o futebol de Murilo, que mal encostava nos atacantes para fazer o desarme.

Assim, pouco depois, um dos maiores zagueiros brasileiros depois de Domingos da Guia foi apresentado no Parque São Jorge. 

Murilo não cometia faltas e sua colocação na área era algo notável. Sua disciplina o credenciou mais tarde ao prêmio Belfort Duarte, uma honraria concedida aos jogadores com impecável conduta esportiva.

Murilo foi destaque em várias edições da revista do Corinthians nos anos 50. Crédito: revista do Corinthians.

O Corinthians no gramado do Maracanã. Em pé: Cabeção, Murilo, Goiano, Julião, Idário e Roberto Belangero. Agachados: Cláudio, Luizinho, Baltazar, Gatão e Colombo. Crédito: revista O Globo Sportivo número 687.

Campeão paulista de 1951, o Corinthians disputou a segunda edição da Copa Rio de 1952, torneio que ganhou maior representação depois da importante conquista do Palmeiras em 1951.

Com boa campanha, o Corinthians avançou até os compromissos semifinais, quando encontrou o Penãrol do Uruguai.

O Corinthians venceu o primeiro prélio disputado no Pacaembu por 2×1. Como o Penãrol abriu mão de disputar o segundo confronto, o quadro paulista avançou para decidir o título contra o Fluminense.

Mas o duelo contra o Penãrol ficou marcado pelos lances de pouca esportividade. Murilo se machucou seriamente em uma disputa de bola com o atacante Óscar Omar Míguez, o mesmo que disputou o mundial de 1950.

Na mesmo dia, Roberto Belangero também foi atingido de forma desleal por Abadie. Obdulio Varela fez pouco e ironicamente pediu calma, como se tudo aquilo não fosse nada.

Crédito: Livro Timão 100 Anos – Celso Dario Unzelte – Editora Gutenberg.

O atacante Óscar Omar Míguez. Ao fundo, de costas, o meia Juan Alberto Schiaffino, outro participante do prélio contra o Brasil pelo quadrangular decisivo da Copa do Mundo de 1950. Crédito: revista Mundo Deportivo número 356.

Juan Alberto Schiaffino, envergonhado, cansou de pedir moderação aos companheiros. Além de Roberto Belangero, Goiano e Baltazar também foram atingidos, em jogadas que não levavam nenhum perigo ao gol do Penãrol.

Em matéria publicada no Jornal Mundo Esportivo de 29 de julho de 1952, Murilo falou sobre o lance:

– Já tinham me falado da deslealdade dos uruguaios, mas nunca acreditei. O Míguez, entrou duro no meu joelho direito e quando eu estava no chão terminou o serviço me pisando na maldade.

– Senti que não poderia mais me levantar, quando percebi que o Schiaffino se aproximou. Ele me beijou no rosto e pediu desculpas pelo ato do companheiro.

– Outro que foi decente comigo foi o Rodriguez Andrade. Os demais eram verdadeiros animais.

Murilo temeu ficar inutilizado para o futebol. Crédito: Jornal Mundo Esportivo número 368 – Terça Feira, 29 de julho de 1952.

Murilo teve o menisco e os ligamentos da perna direita rompidos. Em recuperação no hospital, o jogador do Corinthians temeu pelo próprio futuro. Chorava pelos cantos e pouco queria conversar.

Questionado sobre o lance, o atacante Míguez argumentou que já tinha armado o chute quando Murilo apareceu do nada:

– Não sei de onde ele apareceu. Parece um fantasma!

Desfalcado, o Corinthians enfrentou o Fluminense em duas partidas no Estádio do Maracanã. Foi derrotado na primeira por 2×0 e empatou o segundo jogo em 2×2, resultados que deram ao time carioca o título da competição.

Murilo troca de roupa para mais uma batalha nos gramados. Crédito: Jornal A Gazeta Esportiva.

Murilo ficou oito meses parado e quando voltou já não era o mesmo. Fez parte do elenco bicampeão paulista de 1952 e também conquistou o bicampeonato do Torneio Rio São Paulo de 1953 e 1954, além da pequena Taça do Mundo de 1953 na Venezuela.

Murilo permaneceu no Corinthians até 1954. Próximo dos 34 anos de idade recebeu o “Passe Livre” e voltou para o Atlético Mineiro.

Conforme registros do livro “Timão 100 anos” do autor Celso Dario Unzelte, o zagueiro não marcou gols nos 126 jogos disputados pelo Corinthians. Foram 81 vitórias, 26 empates e 19 derrotas.

Murilo foi bicampeão mineiro em 1955 e 1956. Ao todo, em suas duas passagens pelo Atlético Mineiro, foram 550 partidas disputadas.

Conforme encontrado em algumas fontes, Murilo ainda jogou pelo Sete de Setembro Futebol Clube (MG), em 1957. Murilo Silva faleceu em 24 de junho de 1998, em Belo Horizonte.

Crédito: Livro Timão 100 Anos – Celso Dario Unzelte – Editora Gutenberg.

Crédito: Jornal Mundo Esportivo número 558 – Terça Feira, 25 de maio de 1954.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Arthur Ferreira e Ramón Garcia), revista do Corinthians, revista do Esporte, revista Esporte Ilustrado, revista Mundo Deportivo, revista O Globo Sportivo, Jornal A Gazeta Esportiva, Jornal Mundo Esportivo (por Solange Bibas), cacellain.com.br, campeoesdofutebol.com.br, placar.abril.com.br, site do Milton Neves, Livro: Timão 100 Anos – Celso Dario Unzelte – Editora Gutenberg.

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