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Final de semana festivo com churrasco, bom futebol e tudo de direito no sítio do compadre. Quando o tapazola Murilo passa pelo pai ouve uma frase o marcaria para sempre:

– “Ei Murilo… Se for para dar pontapé nem se meta em jogar bola! Não vá me fazer passar vergonha justamente aqui”.

Murilo Silva nasceu no município de Paraopeba (MG), em 17 de abril de 1921. Em 1940 rumou até Sabará em busca de trabalho e por lá ficou. Algum tempo depois iniciou sua trajetória esportiva jogando como zagueiro pelo Esporte Clube Siderúrgica (MG).

Naqueles tempos, o Esporte Clube Siderúrgica era patrocinado pela Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira, o que impulsionou bastante a agremiação de Sabará no cenário futebolístico da época.

O jovem zagueiro jogou pelo Siderúrgica até o findar da temporada de 1943, quando apareceu o interesse dos representantes do Clube Atlético Mineiro (MG).

Em destaque, Murilo aparece em uma das formações do Atlético Mineiro na temporada de 1949. Crédito: revista Esporte Ilustrado.

Um velho sonho do Corinthians, Murilo firmou compromisso no Parque São Jorge em fevereiro de 1950. Crédito: revista O Globo Sportivo número 597 – 3 de março de 1950.

Campeão mineiro nas edições de 1946, 1947 e 1949, o zagueiro Murilo também era um dos destaques do selecionado de Minas Gerais no campeonato brasileiro de seleções.

Um velho sonho do Corinthians, Murilo continuou nas fileiras do Atlético Mineiro até o devido encarramento de seu vínculo contratual. Dessa forma, com luvas de 350 mil cruzeiros, o estupendo defensor foi apresentado no Parque São Jorge em fevereiro de 1950.

Contudo, antes de deixar Belo Horizonte, Murilo foi reconhecido publicamente pelos dirigentes do Atlético Mineiro, que tudo fizeram na tentativa de manter o jogador no clube.  

Murilo quase não cometia faltas e sua colocação na área era algo notável. Sua disciplina o credenciou mais tarde ao prêmio Belfort Duarte, uma importante honraria oferecida aos jogadores com impecável conduta esportiva.

Campeão paulista de 1951, o Corinthians disputou a segunda edição da Copa Rio em 1952, torneio internacional que ganhou maior representatividade depois da memorável conquista do Palmeiras em 1951.

Murilo foi lembrado em várias edições da revista oficial do Corinthians na década de 1950. Crédito: revista do Corinthians.

O Corinthians pronto para mais um duelo no Maracanã. Em pé: Cabeção, Murilo, Goiano, Julião, Idário e Roberto Belangero. Agachados: Cláudio, Luizinho, Baltazar, Gatão e Colombo. Crédito: revista O Globo Sportivo número 687.

Com uma boa campanha na fase preliminar, o Corinthians avançou com méritos até os compromissos semifinais, quando encontrou pela frente o Club Atlético Peñarol do Uruguai.

O Corinthians venceu o primeiro prélio disputado no Pacaembu por 2×1. Como o Penãrol abriu mão de disputar o segundo confronto, o quadro paulista avançou para decidir o título contra o Fluminense.

Mas o duelo contra o Penãrol ficou marcado pelos lances de pouca esportividade por parte do quadro uruguaio. Murilo foi atingido seriamente em uma disputa de bola com o atacante Óscar Omar Míguez, o mesmo que disputou o mundial de 1950.

O centro-médio Roberto Belangero também foi vítima de uma entrada covarde e desleal de Abadie, o que fez o veterano Obdulio Varela sugestionar ao árbitro que o jogador paulista estava apenas encenando!

Envergonhado, Juan Alberto Schiaffino cansou de pedir moderação aos próprios companheiros. Além de Roberto Belangero, Baltazar e Goiano também foram atingidos em jogadas que não levavam nenhum perigo ao arco uruguaio.

Os registros da “batalha” entre Corinthians e Penãrol pela Copa Rio de 1952. Crédito: Timão 100 Anos – Celso Dario Unzelte – Editora Gutenberg.

Uma das grandes estrelas do Penãrol, o atacante Óscar Omar Míguez foi acusado de deslealdade no lance que tirou Murilo do gramado. Crédito: reprodução revista Mundo Deportivo número 356.

Em matéria publicada no Jornal Mundo Esportivo de 29 de julho de 1952, Murilo falou sobre o lance que ocasionou sua grave lesão:

– “Já tinham me falado da tal deslealdade dos uruguaios, mas nunca acreditei. O Míguez, entrou duro no meu joelho direito e quando eu estava no chão terminou o serviço me pisando na maldade”.

– “Senti que não poderia mais levantar do chão. Percebi então a aproximação de Schiaffino, que me beijou no rosto e pediu desculpas. Outro que foi decoroso comigo foi o Rodriguez Andrade. Os demais eram verdadeiros animais”.

Murilo teve o menisco e os ligamentos da perna direita rompidos. Em processo de recuperação no hospital, o jogador do Corinthians temeu pelo próprio futuro. Chorava pelos cantos e pouco queria conversar!

Questionado sobre o lance, o atacante Míguez respondeu que já tinha armado o chute quando Murilo apareceu do nada: “Não sei de onde ele apareceu. Parece um fantasma”.

Murilo quase ficou inutilizado para o futebol. Crédito: Jornal Mundo Esportivo número 368 – Terça Feira, 29 de julho de 1952.

Murilo chora enquanto é amparado pelos companheiros! Crédito: revista Esporte Ilustrado número 747 – 31 de julho de 1952.

Desfalcado, o Corinthians enfrentou o Fluminense em duas partidas no Estádio do Maracanã. Foi derrotado na primeira por 2×0 e empatou o segundo jogo em 2×2, resultados que deram ao quadro carioca o título da competição.

Murilo ficou vários meses parado e quando voltou já não era o mesmo! Fez parte do elenco bicampeão paulista de 1951 e 1952, do bicampeonato do Torneio Rio-São Paulo de 1953 e 1954 e também da pequena Taça do Mundo de 1953 na Venezuela.

O zagueiro permaneceu vinculado ao Corinthians até o findar de 1954. Próximo de completar os 34 anos de idade, Murilo recebeu o “Passe Livre” e voltou para o mesmo Atlético Mineiro.

Conforme registros publicados no livro “Timão 100 Anos”, do autor Celso Dario Unzelte, Murilo não marcou gols nos 126 jogos disputados com a camisa do Corinthians. Foram 81 vitórias, 26 empates e 19 derrotas.

Murilo foi ainda campeão mineiro em 1955. Em 1957 firmou compromisso com o Sete de Setembro Futebol Clube (MG), sua última equipe. Murilo Silva faleceu em 24 de junho de 1998, em Belo Horizonte (MG).

Na obra que comemorou o centenário do Corinthians, o nome de Murilo faz parte do seleto grupo de craques selecionados pelo autor. Crédito: Timão 100 Anos – Celso Dario Unzelte – Editora Gutenberg.

Murilo permaneceu no Corinthians até 1954. Próximo de completar os 34 anos de idade recebeu o “Passe Livre” e voltou para o Atlético Mineiro. Crédito: revista Esporte Ilustrado.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Alberto Helena Júnior, Arthur Ferreira, José Maria de Aquino e Ramón Garcia), revista do Corinthians, revista do Esporte, revista Esporte Ilustrado (por Alberto Ferreira, Levy Kleiman e Luís Mendes), revista Grandes Clubes Brasileiros, revista Mundo Deportivo, revista O Globo Sportivo (por Januário Carneiro), revista O Cruzeiro, Jornal A Gazeta Esportiva, Jornal dos Sports, Jornal Mundo Esportivo (por Solange Bibas), campeoesdofutebol.com.br, corinthians.com.br, placar.abril.com.br, Livro: Timão 100 Anos – Celso Dario Unzelte – Editora Gutenberg.