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Até a fatídica tarde do dia 9 de dezembro de 1956, quando fraturou a perna em uma disputa de bola com Mauro Ramos de Oliveira, Vasconcelos era considerado o grande craque do Santos.

Ninguém admitia ou mesmo imaginava que a posição de meia-esquerda pudesse ser ocupada por outro jogador. Mas existia um menino calado, que era chamado pelos mais velhos de “Gasolina”, hoje mundialmente conhecido como Pelé.

Válter Vasconcelos Fernandes nasceu na cidade de Belo Horizonte (MG), em 25 de maio de 1930. Os primeiros desafios no mundo da bola aconteceram em meados de 1947, nas categorias amadoras do Club de Regatas Vasco da Gama (RJ).

Time mais badalado do Rio de Janeiro, o então poderoso “Expresso da Vitória” ostentava com orgulho o título carioca nas edições de 1947, 1949, 1950; além da importante conquista do Sul-Americano de 1948.

Dessa forma, conservar um lugar como titular absoluto no quadro de Aspirantes do “cruzmaltino” já era considerado uma façanha e tanto!

Vasconcelos era conhecido pelos companheiros como “Vasco” ou também “Bagaço”, pelo hábito de chupar laranjas antes dos treinos. Crédito: reprodução revista A Gazeta Esportiva Ilustrada.

Em duelo pelo Torneio Rio-São Paulo, o Santos foi derrotado por 2×1 para o Fluminense no Pacaembu. No lance, Vasconcelos (direita) tenta passar a bola para Tite, enquanto é acompanhado de perto por Jair e Píndaro. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 842 – 27 de maio de 1954.

Nos Aspirantes do Vasco da Gama, o jovem e promissor Vasconcelos jogava pela meia-direita, já que Jansen Moreira – que fez grande sucesso pelo selecionado olímpico – atuava como meia-esquerda.

Vasconcelos até que recebeu algumas oportunidades no time principal do Vasco, mas permanecer na briga por um lugar ao sol era algo difícil demais para um jovem recém promovido.

Até que uma nova esperança apareceu em 1951, momento em que os dirigentes da Associação Atlética Portuguesa Santista manifestaram grande interesse por seu futebol.

Sem muitas pretensões em São Januário, o esforçado Vasconcelos não queria limitar seu destino somente ao time de Aspirantes. Assim, sem muito discutir, Vasconcelos rumou confiante para o simpático Estádio Ulrico Mursa.

Vasconcelos continuou na Portuguesa Santista até o início da temporada de 1953, quando foi transferido para o Santos Futebol Clube por 350 mil cruzeiros, mesmo com suspeitas não comprovadas de que era portador de uma moléstia cardíaca.

No vestiário do Santos; Álvaro Valente, Vasconcelos e Tite. Foto de Rafael Herrera. Crédito: revista A Gazeta Esportiva Ilustrada número 48 – 1955.

Festa na Vila Belmiro! O futebol vistoso de Vasconcelos foi determinante na grande conquista do título paulista de 1955. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 929 – 26 de janeiro de 1956.

Conforme publicado no site “santosfc.com.br”, sua primeira partida aconteceu no dia 15 de março de 1953, na Vila Belmiro. Foi um jogo amistoso diante do Clube Atlético Juventus, quando marcou 2 gols na goleada por 6×1.

Artilheiro do Torneio Rio-São Paulo de 1953 com 8 gols marcados, Vasconcelos era conhecido pelos companheiros como “Vasco” ou também como “Bagaço”, pelo hábito de chupar laranjas antes dos treinamentos.

Dono de um domínio de bola admirável, o habilidoso Vasconcelos encontrou seu lugar definitivo jogando pela meia-esquerda. Exímio articulador de jogadas e ótimo finalizador, seu papel foi determinante na memorável campanha do título paulista de 1955.

Boêmio confesso, Vasconcelos nunca convidou ninguém para farras. Mesmo na véspera de grandes jogos, o bom mineiro pulava janelas e seguia sozinho para os bares da cidade. Bebia, dançava e voltava ao amanhecer… Jogava, fazia gols e o Santos ganhava!

Quando Waldemar de Brito apareceu com Pelé na Vila Belmiro, seu Dondinho – o pai de Pelé – solicitou aos jogadores mais velhos para tomarem conta do filho. Imediatamente, Vasconcelos abraçou a tarefa de tutelar o garoto!

Na vitória pelo placar de 3×1 sobre o São Bento de São Caetano do Sul (SP), Vasconcelos sobe de cabeça para marcar o primeiro gol do Santos na Vila Belmiro. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 955 – 26 de julho de 1956.

O Santos no gramado da Vila Belmiro em 1956. Em pé: Ramiro, Hélvio Piteira, Fioti, Manga, Zito e Ivan. Agachados: Alfredinho, Álvaro, Pagão, Vasconcelos e Tite. Crédito: Jornal Mundo Esportivo.

Com o passar do tempo, Pelé e Vasconcelos ficaram grandes amigos. Um, na plenitude da forma e o outro na esperança de que ainda conquistaria o mesmo esplendor do companheiro mais velho!

Contudo, tamanha amizade não era motivo para Vasconcelos relaxar na tarefa de vigiar Pelé; como aconteceu em maio de 1956, quando alguns jogadores do Santos estavam na casa de Manga comemorando o aniversário do goleiro.

Lá pelas tantas, Pelé foi visto com um copo de bebida na mão. Rapidamente, Vasconcelos foi de encontro ao rapazola. Ficou olhando por algum tempo e repentinamente deu um tapa no copo de Pelé, o que fez o vidro espatifar na parede.

O campeonato paulista de 1956 marcou uma disputa ferrenha entre Santos e São Paulo. O “Peixe” buscava o bicampeonato, enquanto o tricolor tentava reaver o título conquistado em 1953.

Na reta final do certame, em 9 de dezembro, o Santos recebeu o São Paulo na Vila Belmiro e perdeu o confronto por 3×1. A partida ficou marcada, não só pelo resultado, que colocou o título santista em perigo, mas também pela infelicidade em uma disputa de bola entre Mauro Ramos de Oliveira e Vasconcelos.

Santos e Corinthians na Vila Belmiro. O camisa 10 Vasconcelos fica na marcação de Olavo e Goiano, enquanto Alfredinho acompanha o lance. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 971 – 15 de novembro de 1956.

Uma fatalidade em dezembro de 1956. Vasconcelos fraturou a perna em uma jogada com o zagueiro Mauro Ramos de Oliveira. Crédito: revista Placar.

Vasconcelos deixou o campo com uma fratura na perna, o que poderia significar o fim de sua caminhada no futebol. O Santos ficou com o título da temporada, mas perdeu sua maior estrela!

Mais do que um acidente de trabalho, tamanho infortúnio representou o início do declínio físico e emocional do jogador mineiro, que vivia um momento especial na Vila Belmiro.

Depois de muito tempo parado, Vasconcelos voltou aos gramados, mas já não era o mesmo. Ficou pouco tempo na Vila Belmiro e em seguida foi transferido por empréstimo para uma rápida passagem pela Sociedade Esportiva Palmeiras em 1958.

Pelo Santos, entre 1953 e 1958, Vasconcelos realizou 181 compromissos marcou 111 gols. Jogou ainda pelo Jabaquara Atlético Clube (SP) e pelo Clube Náutico Capibaribe (PE). Encerrou a carreira no interior do Paraná pelo Apucarana.

Esquecido pela família, o ex-craque do Santos acabou dominado pelo vício do álcool e vivendo de favores dos poucos amigos. Válter Vasconcelos Fernandes faleceu em 22 de janeiro de 1983, em Brusque (SC).

Capão, Formiga e Vasconcelos na festa do bicampeonato paulista do Santos em 1956. Crédito: site do Milton Neves.

Craque boêmio, Vasconcelos viveu sua melhor fase no Santos. Crédito: revista Placar – 5 de fevereiro de 1971.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Jose Maria de Aquino), revista A Gazeta Esportiva Ilustrada (por Pedro de Paulo Neto e Rafael Herrera), revista Esporte Ilustrado, revista Grandes Clubes Brasileiros, Jornal A Gazeta Esportiva, Jornal Mundo Esportivo, acervosantosfc.com (por Gabriel Santana), campeoesdofutebol.com.br, Pedro Luiz Boscato, santosfc.com.br (por Gabriel Santana e Guilherme Guarche), site do Milton Neves (por Chico Santo), albumefigurinhas.no.comunidades.net.