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Com um velho paletó amarrotado, de sofrível caimento, o lúcido e gentil Martim abriu sua porta, sua memória e seu coração sem cerimônias.

Em Belo Horizonte, na casa da mãe, dona Maria Antonieta, Martim Francisco prefere usar o próprio quarto em meio aos tesouros de suas conquistas e recordações.

Sem roteiro previamente tratado, começa sua entrevista junto ao repórter da revista Placar.

Martim Francisco senta e vira os olhos sem levantar a cabeça. Apóia o corpo no travesseiro e estica os braços para pegar um copo de limonada e uma antiga credencial.

Crédito: revista Placar - 15 de outubro de 1976.

Crédito: revista Placar – 15 de outubro de 1976.

Antes de mais nada, faz questão de pequenos comentários que o fazem se sentir melhor:

–  É limonada mesmo. Parei com essa história de pilequinhos, que bebida sai na urina e coisa e tal… Com o meu charutinho eu não paro não! 

– Eu aprendi a amar esta profissão de treinador de futebol. Aprendi muito com o Ondino Vieira em 1946 no Fluminense.

– Ele foi meu mestre, me orientou direitinho. Foi naquela época que desisti de ser um péssimo goleiro e me entreguei na direção das divisões inferiores do clube carioca. 

Crédito: revista Placar.

Crédito: revista Placar.

Crédito: revista Placar.

Crédito: revista Placar.

E sua mente volta ao ano de 1951:

– Cansei de ver os escravos do esquema WM criado por Herbert Chapmann. Era preciso libertar os jogadores, então criei uma disposição diferente de esquema que ficou conhecido como 4-2-4.

Descendente de José Bonifácio de Andrada e Silva, o “Patriarca da Independência” do Brasil, Martim Francisco Ribeiro de Andrada nasceu na cidade de Barbacena (MG), em 21 de fevereiro de 1928.

Na infância, sempre rodeado pelos livros, encontrava tempo para ser o goleiro do infantil do Olympic Club de Barbacena, até que um acidente evitou o prosseguimento de suas contestadas atuações em baixo das balizas.

Crédito: revista Manchete Esportiva.

Crédito: revista Manchete Esportiva.

Formado em psicologia e direito, abraçou o ideal do magistério como profissão até que o futebol entrou em sua vida novamente.

Usou da influência de amigos e bateu no portão do estádio das Laranjeiras para receber do técnico uruguaio Ondino Vieira suas primeiras lições sobre estratégias do futebol.

Trabalhou por um tempo nas divisões amadoras do Fluminense Football Club e no início de 1950 voltou para Minas Gerais.

Assumiu um cargo burocrático na Federação Mineira de Futebol, até que o destino o aproximou dos dirigentes do Villa Nova Atlético Clube de Nova Lima.

Crédito: revista do Globo número 711 - Março de 1958.

Crédito: revista do Globo número 711 – Março de 1958.

Então, munido da vontade e do conhecimento adquirido nos tempos em que esteve no Rio de Janeiro, Martim surpreendeu e conquistou o título estadual de 1951, derrotando nas finais o Clube Atlético Mineiro do técnico Yustrich.

No ano seguinte surpreendeu novamente, quando no comando do Siderúrgica chegou ao vice campeonato.

Na mesma temporada, dirigiu com sucesso o selecionado mineiro de novos que sapecou os cariocas, ainda praticantes de algumas variações do antigo esquema WM.

Em 1953 Martim assumiu o Atlético Mineiro e novamente chegou ao título estadual. No ano seguinte, rumou para o futebol carioca aceitando um convite do América.

O técnico Martim Francisco, centro da foto, recebe Alarcon nos vestiários do Maracanã. Crédito: Arquivo Público do Estado de São Paulo. Memória Pública – Jornal Última Hora.

O técnico Martim Francisco, centro da foto, recebe Alarcon nos vestiários do Maracanã. Crédito: Arquivo Público do Estado de São Paulo. Memória Pública – Jornal Última Hora.

Em 1955, no vestiário da seleção carioca após partida diante dos mineiros, vemos o técnico Martim Francisco abraçando o centroavante Leônidas, que jogava no América. Armando Nogueira, que no início de sua carreira trabalhou como repórter, aparece ao fundo com sua máquina fotográfica. Crédito: acerj.com.br (por José Rezende).

Em 1955, no vestiário da seleção carioca após partida diante dos mineiros, vemos o técnico Martim Francisco abraçando o centroavante Leônidas, que jogava no América. Armando Nogueira, que no início de sua carreira trabalhou como repórter, aparece ao fundo com sua máquina fotográfica. Crédito: acerj.com.br (por José Rezende).

Martim desenvolveu um grande trabalho no América, mas esbarrou no Flamengo em 1954 e 1955. Mesmo assim, o grande futebol praticado pelos rapazes de vermelho foi uma grande sensação nas arquibancadas e nos meios esportivos da época.

Depois do sucesso no América e no selecionado carioca, Martim foi contratado pelo Club de Regatas Vasco da Gama em 1956.

No time da “Colina”, Martim conquistou o título carioca de 1956, evitando assim o tetracampeonato do Flamengo.

Para conseguir esse feito, Martim teve antes que administrar uma longa agenda de amistosos pela Europa, além de perder Paulinho de Almeida, Bellini e Sabará, convocados para servir ao escrete canarinho.

Em 1957 Martim apresentou suas artimanhas nos gramados da Europa. Faturou o Torneio de Paris e o Torneio Teresa Herrera.

Crédito: kikedabola.blogspot.com.br.

Crédito: kikedabola.blogspot.com.br.

Apelidado de “Cientista do Futebol”, Martim Francisco era um estudioso da literatura futebolística, com centenas de livros cuidadosamente organizados em sua biblioteca particular.

Martim fazia de tudo para tornar o regime de concentração o mais leve possível.

Para isso, recebia os familiares dos jogadores na concentração, fazia passeios externos e liberava o grupo de jogadores para atividades livres como xadrez, sinuca, dominó ou mesmo televisão e rádio.

Mesmo conquistando torneios importantes no exterior, Martim Francisco não chegou até 1958 como treinador vascaíno. Trocou o time da “Colina” pelo Sport Club Internacional para em seguida dirigir o Atlético de Bilbao na Espanha.

Crédito: revista Manchete Esportiva número 51 – 10 de novembro de 1956.

Crédito: revista Manchete Esportiva número 51 – 10 de novembro de 1956.

Voltou ao Brasil e trabalhou novamente no Vasco em 1961 sem o mesmo brilho da primeira passagem. Em seguida, treinou o Corinthians e o Comercial de Ribeirão Preto.

Martim comandou ainda o Cruzeiro, o Bangu, novamente o Atlético Mineiro em 1964, o Valeriodoce, o América (MG), novamente o Villa Nova em 1971, 1976 e 1977, o CRB de Alagoas e o Gama de Brasilia, onde foi campeão estadual de 1979.

– Se tivesse que começar da estaca zero, seria técnico de futebol novamente. Faria tudo igualzinho. É uma vida que sacrifica o convívio familiar. Eu perdi minha família pelo futebol. 

Martim Francisco faleceu aos 54 anos de idade, em Belo Horizonte, no dia 22 de junho de 1982, na véspera da partida contra a Nova Zelândia pela Copa do Mundo de 1982.

Crédito: kikedabola.blogspot.com.br.

Crédito: kikedabola.blogspot.com.br.

Crédito: revista do Esporte número 163 - Abril de 1962.

Crédito: revista do Esporte número 163 – Abril de 1962.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Iriam Rocha Lima, Sérgio A. Carvalho, Michel Laurence e Carlos Cavalcante), revista do Esporte, revista Esporte Ilustrado, revista Manchete Esportiva, revista do Globo (por Walter Galvani), acerj.com.br (por José Rezende), campeoesdofutebol.com.br, kikedabola.blogspot.com.br, albumefigurinhas.no.comunidades.net, Arquivo Público do Estado de São Paulo – Memória Pública – Jornal Última Hora.

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