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Com um velho paletó amarrotado, de sofrível caimento, o lúcido e gentil Martim Francisco abriu sua porta, sua memória e seu coração sem cerimônias.

Em Belo Horizonte, na casa de dona Maria Antonieta, sua mãe, Martim Francisco prefere usar o próprio quarto, espremido aos tesouros de suas conquistas e recordações.

Sem roteiro previamente tratado, o velho mineiro começa sua entrevista junto ao repórter da revista Placar.

Por um instante, a conversa fica parada. Com o corpo encostado no travesseiro, Martim Francisco pega um copo de limonada e uma antiga credencial para ilustrar seu próximo assunto.

Foto de Paulo Neri. Crédito: revista Placar – 21 de setembro de 1973.

Foto de Paulo Neri. Crédito: revista Placar – 21 de setembro de 1973.

Antes de prosseguir, alguns comentários o fazem se sentir melhor:

–  É limonada mesmo. Parei com essa história de pilequinhos, que bebida sai na urina e coisa e tal… Com o meu charutinho eu não paro não! 

– Eu aprendi a amar a profissão de treinador de futebol. Devo muito ao Ondino Viera, que me orientou muito no Fluminense em 1946.

– Ondino Viera foi meu mestre, me ensinou direitinho. Foi naquela época que desisti de ser um péssimo goleiro e me entreguei na direção das divisões inferiores do clube carioca. 

– Cansei de ver escravos do esquema WM criado por Herbert Chapman. Era preciso libertar os jogadores. Então criei uma disposição diferente de esquema que ficou conhecido como 4-2-4.

Crédito: revista Manchete Esportiva.

Descendente de José Bonifácio de Andrada e Silva, o “Patriarca da Independência” do Brasil, Martim Francisco Ribeiro de Andrada nasceu na cidade de Barbacena (MG), em 21 de fevereiro de 1928.

Na infância, sempre rodeado pelos livros, o pequeno Martim encontrava tempo para ser o goleiro do infantil do Olympic Club de Barbacena, até que um acidente evitou o prosseguimento de suas contestadas atuações debaixo das balizas.

Formado em Psicologia e Direito, Martim Francisco abraçou o ideal do Magistério como profissão, até que o danado do futebol entrou em sua vida novamente.

Usou da influência de amigos e bateu no portão do Estádio das Laranjeiras. Recebeu do técnico uruguaio Ondino Viera as primeiras lições sobre estratégias do futebol.

O técnico Martim Francisco, centro da foto, recebe o camisa 10 Alarcon no corredor do vestiário do Maracanã. Crédito: Arquivo Público do Estado de São Paulo – Memória Pública – Jornal Última Hora.

Em 1955, no vestiário da seleção carioca após partida diante dos mineiros, vemos o técnico Martim Francisco abraçando o centroavante Leônidas, que jogava no América. Armando Nogueira, que no início de sua carreira trabalhou como repórter, aparece ao fundo com sua máquina fotográfica. Crédito: acerj.com.br (por José Rezende).

Trabalhou por um tempo nas divisões amadoras do Fluminense Football Club e no início de 1950 voltou para Minas Gerais.

Assumiu um cargo burocrático na Federação Mineira de Futebol, até que o destino o aproximou dos dirigentes do Villa Nova Atlético Clube de Nova Lima.

Então, munido da vontade e do conhecimento adquirido nos tempos em que esteve no Rio de Janeiro, Martim Francisco surpreendeu e conquistou o título estadual de 1951, ao derrotar nas finais o Atlético Mineiro do técnico Yustrich.

No ano seguinte surpreendeu novamente no comando do Siderúrgica e chegou ao vice campeonato.

Na mesma temporada, Martim Francisco dirigiu com sucesso o selecionado mineiro de novos que sapecou os cariocas, uma equipe que ainda praticava algumas variações do antigo esquema WM.

Crédito: kikedabola.blogspot.com.br.

Fleitas Solich e Martim Francisco. Crédito: revista Manchete Esportiva número 51 – 10 de novembro de 1956.

Em 1953 Martim assumiu o Atlético Mineiro e novamente faturou o título estadual. No ano seguinte rumou para o futebol carioca para trabalhar no América.

Martim desenvolveu um grande trabalho no América, mas esbarrou no Flamengo em 1954 e 1955. Mesmo assim, o grande futebol praticado pelos rapazes de vermelho foi a grande sensação nas arquibancadas e nos meios esportivos da época.

Depois do sucesso no América e no selecionado carioca, Martim foi contratado pelo Club de Regatas Vasco da Gama em 1956.

No time da “Colina”, Martim conquistou o título carioca de 1956, evitando assim o tetracampeonato do Flamengo.

Para conseguir esse feito, Martim teve antes que administrar uma longa agenda de amistosos pela Europa, além de perder Paulinho de Almeida, Bellini e Sabará, convocados para servir ao escrete canarinho.

Crédito: reprodução revista Manchete Esportiva número 78 – Maio de 1957.

Em 1957 Martim Francisco apresentou suas artimanhas nos gramados da Europa. Faturou o Torneio de Paris e o Torneio Teresa Herrera.

Apelidado de “Cientista do Futebol”, Martim Francisco era um estudioso da literatura futebolística, com centenas de livros cuidadosamente organizados em sua biblioteca particular.

Martim Francisco fazia de tudo para tornar o regime de concentração o mais leve possível. Para isso, os familiares dos jogadores sempre foram bem aceitos nas dependências onde o elenco estava hospedado antes das partidas.

Além disso, Martim Francisco promovia passeios externos e liberava atividades como Xadrez, Sinuca, Dominó, Rádio e Televisão.

Crédito: revista do Globo número 711 – Março de 1958.

Mesmo conquistando torneios importantes no exterior, Martim Francisco não chegou até 1958 como treinador do Vasco. Trocou o time da “Colina” pelo Sport Club Internacional para em seguida dirigir o Atlético de Bilbao na Espanha.

Voltou ao Brasil e trabalhou novamente no Vasco em 1961, sem o mesmo brilho da primeira passagem. Em seguida, treinou o Corinthians e o Comercial de Ribeirão Preto.

Martim Francisco comandou ainda o Cruzeiro, o Bangu, novamente o Atlético Mineiro em 1964, o Valeriodoce, o América (MG), novamente o Villa Nova em 1971, 1976 e 1977, o CRB de Alagoas e o Gama de Brasilia, onde foi campeão estadual de 1979.

– Se tivesse que começar da estaca zero eu seria técnico de futebol novamente. Faria tudo igualzinho. É uma vida que sacrifica o convívio familiar. Eu perdi minha família pelo futebol. 

Martim Francisco faleceu em Belo Horizonte, no dia 22 de junho de 1982, na véspera da partida contra a Nova Zelândia pela Copa do Mundo de 1982.

Crédito: revista Placar – 15 de outubro de 1976.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Carlos Cavalcante, Irlam Rocha Lima, Michel Laurence, Paulo Neri e Sérgio A. Carvalho), revista do Esporte, revista Esporte Ilustrado, revista Manchete Esportiva (por Ronaldo Boscoli), revista do Globo (por Walter Galvani), Arquivo Público do Estado de São Paulo – Memória Pública – Jornal Última Hora, acerj.com.br (por José Rezende), campeoesdofutebol.com.br, kikedabola.blogspot.com.br, albumdosesportes.blogspot.com.br.

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