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Certa vez Gentil assim definiu sua própria existência. Em outra encarnação ele teria sido um marajá do império persa que fez muita gente humilde sofrer.

Por isso voltou ao mundo com duas cruzes pesadas para carregar: Nasceu negro e era técnico de futebol.

Gentil Alves Cardoso nasceu em Recife (PE), no dia 5 de julho de 1906. Infância e juventude sofrida, Gentil trabalhou como engraxate, garçom e padeiro, ofícios que desenharam suas primeiras impressões sobre o vasto universo das relações humanas.

Ingressou na marinha e moldou sua conduta pela disciplina e pelo valor da cultura. Afável, ele gostava de encerrar suas conversas com um abraço e uma mensagem escolhida especialmente para aquele momento.

Poucas vezes Gentil foi fotografado de surpresa. Ele posava. Crédito: revista Placar – 1 de dezembro de 1972.

Crédito: revista Placar – 15 de dezembro de 1972.

Admirador de Mahatma Gandhi e Rui Barbosa, Gentil ingressou no mundo do futebol em uma época onde o racismo imperava absoluto e incólume. Seu primeiro clube foi o Sírio Libanês em 1928.

Gentil só colecionou amigos em sua carreira rica de experiências e aprendizado. Plantou sementes de convivência produtiva em cada canto que passou.

Foram vários os clubes, sendo que em alguns Gentil trabalhou por duas ou mais vezes:

–  Olaria, Bonsucesso, E.C Rio Grande (RS), Cruzeiro de Porto Alegre, América, Bangu, Flamengo, Vasco, Botafogo, Fluminense, Ponte Preta, Corinthians, Sporting de Portugal, Portuguesa (RJ), Campo Grande (RJ), Sport Recife, Santa Cruz e Náutico.

Crédito: revista Placar – Outubro de 1994.

Rodrigues Tatu e Gentil Cardoso nas Laranjeiras. Crédito: revista O Globo Sportivo número 375 – 1945.

Seu primeiro grande trabalho aconteceu no comando do Fluminense. Contratado em 1945 lançou o desconhecido goleiro Carlinhos, que mais tarde ficaria conhecido como o lendário Castilho.

Sem um título estadual desde 1941, Gentil lançou um desafio aos aristocráticos cartolas do tricolor: “Dêem-me o Ademir que lhes darei o campeonato”.

Não deu outra. Ademir Marques de Menezes foi decisivo na conquista do campeonato carioca de 1946 pelo Fluminense.

Com uma passagem apenas razoável pelo Flamengo, Gentil também esteve rapidamente no futebol gaúcho. Voltando ao Rio de Janeiro, recebeu uma proposta do presidente Cyro Aranha para comandar o Vasco da Gama na temporada de 1952.

Competente, Gentil recolocou o “Expresso da Vitória” nos trilhos e faturou o campeonato estadual.

“Dêem-me o Ademir que lhes darei o campeonato”. Crédito: revista Placar – 1 de dezembro de 1972.

O triunfo no Fluminense. Crédito: revista Placar – 8 de dezembro de 1972.

Bem informado sobre os bastidores de São Januário, Gentil tomou conhecimento de uma forte corrente pela volta de Flávio Costa. Causa esta que diariamente ganhava novos simpatizantes dentro do corpo diretivo.

Ainda embriagado pelo sucesso que emanava das arquibancadas pela conquista do título, Gentil foi surpreendido por uma dispensa arbitrária ainda nos vestiários.

Contratado pelo Botafogo testemunhou o nascimento do mito de Garrincha. Desenvolveu um bom trabalho no time da “Estrela Solitária, o que não foi o suficiente para brecar o forte Flamengo daquele período.

Campeão pernambucano pelo Sport, pelo Santa Cruz e também pelo Náutico, Gentil continuou fazendo sucesso com seus hábitos, frases, aforismos, máximas e pensamentos.

Garrincha e o técnico Gentil Cardoso. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 812.

Crédito: revista Manchete número 41 – 31 de janeiro de 1953.

1) Sobre o fato de sempre ser lembrado para dirigir times em momentos de grande turbulência: Só me chamam pra enterro, ninguém me convida pra comer bolo de noiva.

2) Para os jogadores que só davam chutão: Meus filhos, vocês sabem o que comem os bois? Capim responderam os jogadores. Então coloquem a bola para rolar no capim e parem de dar chutão.

3) Também um pensador das coisas do futebol: Quem se desloca recebe, quem pede tem preferência.

4) Quando treinava o quadro da Portuguesa carioca Gentil lançou o conhecido jargão “Vai dar Zebra”, muito popular na época do sucesso da Loteria Esportiva. Afinal, Zebra não existe no jogo do bicho e Gentil sabia que dificilmente seu time ganharia do poderoso Vasco.

5) Nos treinamentos era comum usar um megafone para se comunicar com os jogadores.

Crédito: revista do Esporte número 274 – Junho de 1964.

Partindo da esquerda: Gentil Cardoso, Paulo Borges, Parada, Araras, Roberto Pinto e Canhoto. Crédito: revista do Esporte número 331 –1965.

Conforme matéria especial com Newton Cardoso (filho de Gentil Cardoso) publicada na revista Placar em sua edição de 15 de dezembro de 1972, Gentil foi internado no Hospital da Aeronáutica para fazer uma cirurgia em maio de 1970.

Seus problemas de saúde se iniciaram em 1968 e com o passar do tempo foram piorando bastante.

Largou o futebol e aparentemente se recuperou. Na reportagem, o filho Newton Cardoso não entrou em maiores detalhes sobre os motivos de sua moléstia.

O procedimento cirúrgico ocorreu normalmente. Todavia, complicações no quadro pós-operatório foram progredindo e causaram seu falecimento em 8 de setembro de 1970.

Crédito: revista Placar – 15 de dezembro de 1972.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Fausto Neto e Albino Castro Filho), revista do Esporte, revista Esporte Ilustrado, revista Manchete, revista Manchete Esportiva, revista O Globo Sportivo, revista O Cruzeiro, campeoesdofutebol.com.br, site do Milton Neves (por Marcelo Rozenberg), albumefigurinhas.no.comunidades.net, gazetaesportiva.com, Programa Grandes Momentos do Esporte – TV Cultura.

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