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Certa vez, Gentil Cardoso assim definiu sua própria existência:

“Em outra encarnação ele teria sido um Marajá do Império Persa que fez muita gente humilde sofrer. Por essa razão voltou ao mundo com duas cruzes pesadas para carregar: Nasceu negro e era técnico de futebol”.

Gentil Alves Cardoso nasceu em Recife (PE), no dia 5 de julho de 1906.

Infância e juventude sofrida, Gentil Cardoso trabalhou como Engraxate, Garçom e Padeiro; ofícios que desenharam suas primeiras impressões sobre o vasto universo das relações humanas.

Ingressou na Marinha e moldou sua conduta pela disciplina e pelo valor da cultura. Afável, Gentil Cardoso gostava de encerrar suas conversas com um abraço e uma mensagem escolhida especialmente para aquele momento.

Rodrigues Tatu ao lado de Gentil Cardoso em treino nas Laranjeiras. Crédito: revista O Globo Sportivo número 375 – 1945.

Admirador de Mahatma Gandhi e Rui Barbosa, Gentil Cardoso apareceu para o mundo do futebol em uma época onde o racismo imperava absoluto e incólume. Seu primeiro clube foi o Sírio Libanês, em 1928.

Em sua extensa caminhada, Gentil Cardoso só colecionou amigos. Foram vários os clubes, em alguns por duas ou mais oportunidades:

–  América (RJ), Bangu (RJ), Bonsucesso (RJ), Botafogo (RJ), Campo Grande (RJ), Flamengo (RJ), Fluminense (RJ), Olaria (RJ), Portuguesa (RJ), Vasco da Gama (RJ), Cruzeiro (RS), E.C Rio Grande (RS), Corinthians (SP), Ponte Preta (SP), Náutico (PE), Santa Cruz (PE), Sport Recife (PE) e Sporting de Portugal.

O trabalho como treinador começou efetivamente no Bonsucesso (RJ). Passou depois pelo futebol do Sul e logo em seguida voltou aos encantos da “Cidade Maravilhosa” para orientar o Vasco pela primeira vez.

Crédito: revista Manchete número 41 – 31 de janeiro de 1953.

Mas seu primeiro grande resultado aconteceu no Fluminense. Contratado em 1945, Gentil Cardoso revelou o desconhecido Carlinhos, que mais tarde ficaria conhecido como o lendário goleiro Castilho.

Sistemático e inovador, Gentil Cardoso costumava usar um megafone para se comunicar com os jogadores durante os treinamentos.

Sem um título carioca desde 1941, o ousado treinador pernambucano lançou um desafio aos aristocráticos cartolas do tricolor das Laranjeiras: “Dêem-me o Ademir que lhes darei o campeonato”.

Não deu outra. Os gols de Ademir Marques de Menezes foram decisivos na conquista do campeonato carioca de 1946.

Com passagens pelo Corinthians e Flamengo, Gentil Cardoso andou novamente pelo futebol gaúcho. De volta ao Rio de Janeiro, uma boa proposta do presidente Cyro Aranha o fez voltar ao Vasco em 1952.

Garrincha e o técnico Gentil Cardoso. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 812.

Crédito: revista do Esporte número 274 – Junho de 1964.

Competente, Gentil Cardoso recolocou o “Expresso da Vitória” nos trilhos e faturou o campeonato carioca.

Bem informado sobre os bastidores de São Januário, Gentil Cardoso tomou conhecimento de uma forte corrente pela volta de Flávio Costa. Uma preferência que diariamente ganhava novos simpatizantes no corpo diretivo.

Ainda embriagado pelo sucesso com a conquista do título carioca de 1952, Gentil Cardoso foi surpreendido por uma dispensa arbitrária ainda nos vestiários.

Contratado pelo Botafogo, Gentil Cardoso testemunhou os primeiros passos de Garrincha. Apesar do bom trabalho, o time da “Estrela Solitária não foi páreo para brecar o Flamengo em 1953.

Gentil Cardoso também treinou o escrete canarinho em 1959. No futebol pernambucano fez história e foi campeão pelo Náutico, Santa Cruz e Sport Recife.

Partindo da esquerda: Gentil Cardoso, Paulo Borges, Parada, Araras, Roberto Pinto e Canhoto. Crédito: revista do Esporte número 331 –1965.

Poucas vezes Gentil foi fotografado de surpresa. Ele posava. Foto reprodução Zeka Araújo. Crédito: revista Placar – 1 de dezembro de 1972.

Sempre munido das inseparáveis frases e pensamentos, o treinador deixou um legado de humor e ensinamentos:

1) Sobre dirigir times em momentos de crise: “Só me chamam pra enterro. Ninguém me convida pra comer bolo de noiva”.

2) Aos jogadores que só davam chutão: “Meus filhos, vocês sabem o que comem os bois? Capim respondiam os jogadores. Então coloquem a bola para rolar no capim e parem de dar chutão”.

3) Pensando o futebol: “Quem se desloca recebe; Quem pede tem preferência”.

4) Na Portuguesa (RJ), Gentil Cardoso criou o conhecido jargão “Vai dar Zebra”, muito popular na época da Loteria Esportiva. Afinal, Zebra não existe no jogo do bicho e Gentil sabia que dificilmente seu time ganharia do Vasco.

“Dêem-me o Ademir que lhes darei o campeonato”. Foto reprodução Zeka Araújo. Crédito: revista Placar – 1 de dezembro de 1972.

O grande triunfo no Fluminense. Foto reprodução Zeka Araújo. Crédito: revista Placar – 8 de dezembro de 1972.

No mês de dezembro de 1972, a revista Placar publicou um especial sobre a carreira de Gentil Cardoso. Foram três publicações consecutivas nas edições de número 142, 143 e 144.

Conforme depoimentos do filho Newton Cardoso, Gentil Cardoso foi internado para fazer uma cirurgia no Hospital da Aeronáutica em maio de 1970.

Os problemas de saúde apareceram em 1968 e com o passar do tempo foram piorando. Gentil Cardoso então deixou o futebol para se cuidar e aparentemente estava bem.

Nas reportagens publicadas pela revista Placar, Newton Cardoso não entrou em maiores detalhes sobre a doença do pai.

O procedimento cirúrgico ocorreu normalmente. Todavia, complicações no quadro pós-operatório foram progredindo e causaram o seu falecimento em 8 de setembro de 1970.

Foto reprodução Zeka Araújo. Crédito: revista Placar – 15 de dezembro de 1972.

Crédito: revista Placar – Outubro de 1994.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Albino Castro Filho, Fausto Neto, Lenivaldo Aragão e Zeka Araújo), revista do Esporte, revista Esporte Ilustrado, revista Grandes Clubes Brasileiros, revista Manchete, revista Manchete Esportiva, revista O Cruzeiro, revista O Globo Sportivo, Jornal do Brasil, Jornal dos Sports, campeoesdofutebol.com.br, gazetaesportiva.com, globoesporte.globo.com, site do Milton Neves (por Marcelo Rozenberg), Programa Grandes Momentos do Esporte – TV Cultura, albumefigurinhas.no.comunidades.net.

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