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O sonho de consumo botafoguense parecia mais perto naquela manhã de janeiro de 1977, quando o presidente Charles Borer partiu rapidamente para chegar em Salvador antes de Carmine Furletti, representante do Cruzeiro.

Esperançoso, Borer carregava na maleta, além da costumeira documentação, um cheque do banco Banerj preenchido com uma quantia respeitável: 1 milhão e 400 mil cruzeiros.

Na “Boa Terra”, o cartola carioca assinou mais dois títulos, com vencimentos para 30 e 60 dias no valor de 300 mil cruzeiros cada um.

Quando o dia escureceu, Perivaldo já estava no aeroporto de malas prontas com destino ao Rio de Janeiro.

O filho famoso de Itabuna chegou ao Botafogo de Futebol e Regatas carregando a fama de melhor lateral direito do campeonato brasileiro de 1976.

Crédito: revista Placar – 1975.

Foto de Ignácio Ferreira. Crédito: revista Placar – 21 de janeiro de 1977.

Perivaldo Lúcio Dantas, o “Peri da Pituba”, como ficou conhecido, nasceu em Itabuna (BA), no dia 12 de julho de 1953.

Um dos seis filhos do casal Teobaldo Cabral e Terezinha Cabral, Perivaldo foi registrado por sua avó materna e curiosamente não herdou o sobrenome do pai.

Iniciou sua trajetória jogando nas categorias amadoras do Itabuna Esporte Clube no início dos anos setenta.

Como lateral ou ponteiro, sempre pelo lado direito do gramado, Perivaldo vivia com uma ajuda de custo de 300 cruzeiros mensais, até ser observado mais atentamente pelo técnico Tombinho.

Aproveitado no elenco principal do Itabuna em 1972, Perivaldo já se destacava pela grande capacidade ofensiva. Em 1973 contraiu matrimônio, mesmo diante de um salário modesto e de uma carreira incerta.

Foto de Ignácio Ferreira. Crédito: revista Placar – 21 de janeiro de 1977.

Foto de Ignácio Ferreira. Crédito: revista Placar – 21 de janeiro de 1977.

Perivaldo logo se firmou entre os titulares do Itabuna e pouco depois despertou o interesse do Esporte Clube Vitória e do Esporte Clube Bahia, que trabalhou mais rápido nos bastidores.

Assim, em fevereiro de 1974, o Bahia pagou 20.000 cruzeiros pelo passe do jogador, que assinou contrato com o tricolor para receber 2.500 cruzeiros mensais.

Sem muita chance entre os titulares, Perivaldo foi emprestado por 10.000 cruzeiros ao Ferroviário Atlético Clube do Ceará, onde foi lapidado com cuidado pelo técnico Alencar.

Retornou para o Bahia e finalmente teve seu futebol reconhecido nas conquistas estaduais de 1975 e 1976. Ganhador da “Bola de Prata” da revista Placar em 1976, Perivaldo entrou na lista de 40 selecionáveis da Seleção Brasileira do técnico Brandão.

Foto de Ignácio Ferreira. Crédito: revista Placar – 21 de janeiro de 1977.

Perivaldo chegou ao Botafogo com o título de “Os melhores dentes da Bahia”, além de uma condição física invejável. Fotos de Ignácio Ferreira. Crédito: revista Placar – 21 de janeiro de 1977.

A imprensa, empolgada com o desempenho do jovem lateral direito, era categórica ao afirmar que Perivaldo fazia pela direita o mesmo estrago que Marinho Chagas fazia pela esquerda.

Se para Orlando Fantoni o lateral era uma arma de poder inestimável pela direita, para Paulo Maracajá o jogador representava títulos e, principalmente, muito dinheiro na conta bancária.

E realmente, a venda de Perivaldo para o Botafogo significou um capital considerável nos cofres do clube.

Com fitinhas do Senhor do Bonfim no pulso, Perivaldo não despertou muitas atenções quando chegou ao time da “Estrela Solitária” para fazer exames médicos.

Com um contrato fixado em 18.000 cruzeiros mensais, o bom futebol e o destacado condicionamento físico de Perivaldo logo se tornaram motivo de grande preocupação para os adversários.

Crédito: albumefigurinhas.no.comunidades.net.

Foto de Ignácio Ferreira. Crédito: revista Placar – 19 de outubro de 1979.

Lateral direito? Ponta direita ou meio campista… Afinal, o que movia o incansável Perivaldo?

Diante de tanto sucesso, os momentos de sofrimento e incertezas vividos em Itabuna foram rapidamente esquecidos. Orgulhoso, Perivaldo desfilava agora um novo e questionado visual.

Considerado pela imprensa carioca como um jogador “mascarado” e um contumaz esbanjador de dinheiro, o badalado lateral do Botafogo chegava aos treinamentos em seu reluzente automóvel Puma.

Sempre de óculos escuros e roupas espalhafatosas, o próprio Perivaldo classificava seu estilo como uma revolução para os padrões de moda da época.

Foto de Ignácio Ferreira. Crédito: revista Placar – 1 de agosto de 1980.

Fotos de Ignácio Ferreira. Crédito: revista Placar – 1 de agosto de 1980.

27 anos de idade, pai de dois filhos, desquitado e muito vaidoso, Perivaldo colocou sua nova forma de viver e de pensar em entrevista publicada pela revista Placar no dia 1 de agosto de 1980:

– Quando eu era criança morria de vontade de me vestir bem. Agora, estou na vanguarda da moda brasileira e não imito ninguém.

Com o passar do tempo Perivaldo vendeu o Puma e comprou um Passat usado. Chegava aos treinos sem cantar os pneus e se dizia mais responsável.

Para o técnico Paulinho de Almeida, Perivaldo deixou para trás o guarda roupas multicolorido e as trancinhas no cabelo. Mais experiente, só subia ao ataque quando se sentia inteiro para voltar.

Ganhador da “Bola de Prata” em 1981, Perivaldo foi convocado para a Seleção Brasileira e vivia seu melhor momento com a boa campanha do time no campeonato brasileiro.

Nunes brigando entre Perivaldo e Zé Eduardo. Foto de Rodholpo Machado. Crédito: revista Placar – 17 de outubro de 1980.

Fotos de Ronaldo Kotscho e Ignácio Ferreira. Crédito: revista Placar – 17 de abril de 1981.

Em janeiro de 1983, Perivaldo foi negociado por 100 milhões de cruzeiros para a Sociedade Esportiva Palmeiras.

No Parque Antártica, o lateral sofreu uma contusão e perdeu o lugar para o improvisado Vágner Bacharel. Recuperado, Perivaldo continuou no banco de reservas e criou caso ao pedir para ser vendido.

Mas, criar caso com Rubens Minelli nunca foi um bom negócio para ninguém. Sem ambiente no clube, seus direitos foram negociados com o Bangu Atlético Clube em 1984.

Foram apenas 43 participações pelo alviverde com 17 vitórias, 19 empates e 7 derrotas. Os dados foram publicados pelo Almanaque do Palmeiras, dos autores Celso Unzelte e Mário Sérgio Venditti.

Depois do Bangu, clube que deixou em 1986, Perivaldo ainda jogou pelo Yukong Elephants da Coreia do Sul, onde decidiu não renovar o contrato para voltar ao Rio de Janeiro em 1988.

Foto de Irmo Celso. Crédito: revista Placar – 8 de maio de 1981.

Perivaldo ganhou o prêmio da Bola de Prata em 1976 e repetiu o feito em 1981. Foto de Ronaldo Kotscho. Crédito: revista Placar- 15 de maio de 1981.

Sem propostas, Perivaldo decidiu embarcar para Portugal na esperança de prosseguir com sua carreira no futebol. Os anos foram passando e as economias foram acabando.

Em 1992 trabalhou como cozinheiro em Porto Santo (Madeira), ganhando 4 mil dólares por mês. Se não era o que Perivaldo queria, esse salário no restaurante até que dava para viver.

Mas o ex-jogador do Botafogo foi vítima de aproveitadores e passou os piores dias de sua vida. Perambulando sem destino pelas ruas de Lisboa, Perivaldo foi encontrado pela imprensa e sua situação precária causou espanto e dor aos brasileiros.

Resgatado pelo filho Marcelo e por Alfredo Sampaio, presidente do Saferj – Sindicato dos Atletas de Futebol do Estado do Rio de Janeiro, Perivaldo trabalhou na entidade e reencontrou os familiares na Bahia.

Perivaldo faleceu de pneumonia na cidade do Rio de Janeiro, em 27 de julho de 2017.

Crédito: revista Placar – 15 de abril de 1983.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Fernando Escariz, Ignácio Ferreira, Irmo Celso, Luiz Augusto Chabassus, Marco Aurélio Borba, Maria Helena Araújo, Rodholpo Machado e Ronaldo Kotscho), revista Manchete Esportiva, campeoesdofutebol.com.br, esporte.uol.com.br, globoesporte.globo.com, site do Milton Neves (por Rogério Micheletti), Almanaque do Palmeiras – Celso Dario Unzelte e Mário Sérgio Venditti, albumefigurinhas.no.comunidades.net.

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