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Desde 1960, a disputa pela Libertadores da América sempre foi cercada de histórias envolvendo acontecimentos de cunho antiesportivo, dentro e fora dos gramados.

Mas para os torcedores do Flamengo, os compromissos finais da edição de 1981 passaram dos limites aceitáveis.

O Rubro Negro, com uma das melhores formações de sua história teria pela frente um time até então desconhecido, o Club de Deportes Cobreloa.

Vestidos de laranja, como os fantasmas holandeses de 1974, o modesto time patrocinado pela Codelco, maior exploradora mundial de cobre, emergiu com força para conquistar a América.

Na primeira partida no Maracanã, o time da Gávea venceu por 2×1. No jogo de volta, os jogadores do Flamengo foram caçados em campo. Deixaram o gramado com cicatrizes no corpo e na alma, além do placar adverso pela contagem mínima.

Crédito: revista Placar – 13 de novembro de 1981.

Mário Soto, camisa 4, comemora o gol da vitória do Cobreloa em Santiago. Fotos de Rodolpho Machado. Crédito: revista Placar – 27 de novembro de 1981.

Além da sofrida derrota no final da partida, o que custou a realização de mais um confronto para decidir quem ficaria com o caneco, os jogadores do Flamengo estavam visivelmente revoltados.

Entre tantos relatos, o mais comentado foi o comportamento do zagueiro Mário Soto, que teria jogado com uma pedra na mão.

Na terceira partida, disputada em Montevidéu, no Uruguai, o quadro carioca levou vantagem e com o 2×0 no placar faturou o título.

Mas, uma vitória na bola não bastava. Então, o técnico Carpegiani decidiu mexer no time e chamou o atacante Anselmo: ”Vai lá e dá um soco na cara do Mário Soto”.

Anselmo entrou em campo decidido. Se aproximou do zagueiro chileno e fez o serviço!

Anselmo e o soco vingador. Crédito: revista Placar.

Mário Soto atingido no olho por um soco de Anselmo do Flamengo. Crédito: revista Placar – 4 de dezembro de 1981.

Mas afinal, quem era esse zagueiro tão cruel e desprovido do mínimo respeito pelos companheiros de profissão?

Mário Soto Benavides nasceu em Santiago, no Chile, em 10 de julho de 1950. Sua carreira foi iniciada em meados de 1968, no Club Deportivo Magallanes de Santiago, onde permaneceu até 1973.

Destemido, Mário Soto sempre se destacou pela considerável disposição física e pela capacidade de antecipação. Transferido ao Club Unión Española, seu nome foi relacionado para a disputa da Copa América de 1975.

E por falar em 1975, a conquista do Troféu Ramón de Carranza custou muito caro ao Palmeiras. Com maior visibilidade, alguns craques da Academia estavam com os dias contados.

Se por um lado os cofres do alviverde ficaram cheios de dinheiro pela venda de Leivinha e Luís Pereira ao Club Atlético de Madrid, por outro, um sentimento de incerteza tomou conta da coletividade alviverde.

Em foto de JB. Scalco, Mário Soto na seleção chilena. Crédito: revista Placar – 18 de fevereiro de 1977.

Os dirigentes Jordão Bruno Saccomani e Ferruccio Sândoli em torno de Mário Soto. Crédito: revista Placar.

Quase duas temporadas depois, na impossibilidade de acertar com Oscar da Ponte Preta, o Palmeiras ainda tentava cobrir o enorme buraco deixado por Luís Pereira.

Com um investimento alto de quase 5 milhões de cruzeiros, Beto Fuscão e o chileno Mário Soto assinaram contrato nas dependências do Palestra Itália.

Aos 26 anos de idade, Mário Soto chegou ao Palmeiras em 1977, por 200 mil dólares (cerca de 3 milhões de cruzeiros).

O chileno desembarcou com planos para ficar. Família de classe média, casado, pai de três filhos e dono de uma butique, o zagueiro era só alegria no dia de sua apresentação aos torcedores no Parque Antártica.

A transação rendeu ao chileno 450 mil cruzeiros referentes aos 15%. Como ainda recebeu outro montante em “luvas” pela transferência, podemos considerar que Mário Soto ganhou um bom dinheiro.

Crédito: revista Placar – 18 de fevereiro de 1977.

Foto de JB. Scalco. Crédito: revista Placar – 18 de fevereiro de 1977.

Em entrevista publicada na revista Placar de 18 de fevereiro de 1977, o técnico Rubens Minelli, que esteve em Porto Alegre para assistir ao confronto entre o selecionado chileno e o Internacional, falou sobre o que observou em Mário Soto:

– Não gostei nas bolas altas. Baixo para a posição, mas é um bom jogador! 

No Palmeiras, Mário Soto foi escalado como zagueiro Central, mesmo revelando sua preferência para se manter em sua posição de origem, como quarto zagueiro.   

Depois de apenas 28 partidas, Mário Soto deixou o Palmeiras em 1978. Na reportagem da revista Placar de 6 de abril de 1987, Mário Soto comentou sobre a decisão de deixar o futebol paulista, mesmo antes do término de seu contrato de dois anos:

– Foram problemas de ordem familiar que pesaram em minha saída do Palmeiras. Meus filhos tinham ficado no Chile e sentiam muito minha falta. Acertei tudo com o Cobreloa e estou muito feliz! 

Beto Fuscão e Mário Soto. Foto de Ronaldo Kotscho. Crédito: revista Placar – 15 de abril de 1977.

Mário Soto treinando no Parque Antártica. Fotos de Ronaldo Kotscho. Crédito: revista Placar – 15 de abril de 1977.

Mário Soto defendeu o Cobreloa no período compreendido entre 1978 e 1985. Além do vice-campeonato na Libertadores em 1981 e 1982, o zagueiro conquistou os títulos chilenos nas edições de 1980, 1982 e 1985.

Ainda pelo selecionado chileno, Mário Soto disputou o mundial de 1982, na Espanha.

Deixou os gramados em 1986, quando recebeu os direitos sobre o próprio passe. Depois iniciou sua trajetória como treinador, realizando antes, em 1987, um estágio em várias equipes do futebol paulista para aprimorar seus conhecimentos.

Em reportagem especial para o site globoesporte.globo.com, Mário Soto afirmou ao ex-jogador do Flamengo Adílio que não jogou com nenhuma pedra na mão. Mas Adílio retrucou:

– Eu te pergunto Mário Soto, de onde apareceu aquela pedra que muita gente viu em sua mão? 

Crédito: revista Placar.

Crédito: revista Placar – 28 de outubro de 1977.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Eduardo Bruna, JB. Scalco, Jader de Oliveira, José Pinto, Marcelo Rezende, Mário Sérgio Venditti, Roberto Appel, Rodolpho Machado e Ronaldo Kotscho), revista Deporte Total (Chile), revista Manchete Esportiva, campeoesdofutebol.com.br, flapedia.com.br, globoesporte.globo.com, jogadoresdopalmeiras.blogspot.com.br, palmeiras.com.br, site do Milton Neves, solofutbol.cl, albumefigurinhas.no.comunidades.net.

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