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A imprensa não economizou palavras: O que fizeram com o ponta esquerda do Flamengo foi uma verdadeira bagunça. Os médicos evitavam o assunto por uma questão de ética. Já os cartolas, queriam mesmo era silenciar o jogador.

Talvez, fosse o medo de expor a evidente falta de estrutura que ainda assolava os times do futebol brasileiro naquele início dos anos setenta.

Mas o medo poderia ser bem maior. Quem sabe, trazer a tona os crimes cometidos contra três jogadores: Dionísio, Tinho e por último Arílson.

Arílson Pedro da Silva nasceu no Rio de Janeiro em 18 de outubro de 1948. Despontou nos campinhos de terra batida do Bairro Itacolomi, na Ilha do Governador.

Crédito: revista Placar.

Crédito: revista Placar.

Uma das formações do Flamengo em 1969 no Maracanã. Em pé: Tinho, Sidney, Jorge Manicera, Onça, Rodrigues Neto e Paulo Henrique. Agachados: Doval, Liminha, Cabinho, Dionísio e Arílson.

Uma das formações do Flamengo em 1969 no Maracanã. Em pé: Tinho, Sidney, Jorge Manicera, Onça, Rodrigues Neto e Paulo Henrique. Agachados: Doval, Liminha, Cabinho, Dionísio e Arílson.

Em seguida, foi encaminhado para as categorias amadoras da Associação Atlética Portuguesa da Ilha do Governador. Em pouco tempo foi aproveitado como ponteiro esquerdo.

Jogador de grande habilidade, Arílson logo provocou o interesse do Clube de Regatas do Flamengo em 1965.

Rápida ascensão, as boas atuações no Torneio “Robertão” de 1969 levaram seu nome ao grupo da Seleção Brasileira durante o período de preparação para o mundial de 1970, no México.

Mas no primeiro semestre de 1970 o joelho de Arílson não agüentou. Pancadas, torções, recuperações mal feitas e, principalmente, um punhado de análises médicas confusas.

Mal conseguindo suportar as dores, uma primeira cirurgia em seu joelho esquerdo foi marcada pelo departamento medico do clube.

Crédito: albumefigurinhas.no.comunidades.net.

Crédito: albumefigurinhas.no.comunidades.net.

O Flamengo campeão da Taça Guanabara de 1970. Crédito: revista Placar – 5 de junho de 1970.

O Flamengo campeão da Taça Guanabara de 1970. Crédito: revista Placar – 5 de junho de 1970.

Depois da cirurgia, Arílson tentou voltar. Reclamava das dores e apesar de se esforçar muito não conseguia mais treinar.

O segundo parecer médico surgiu como uma bomba. Quando Arílson revelou publicamente que existiam fragmentos do menisco interno em seu joelho foi um verdadeiro escândalo. Os dirigentes então acusaram os jornalistas de sensacionalistas.

Sem pensar duas vezes, os cartolas trataram de abafar o surgimento de novas informações que pudessem piorar o estrago que já estava feito. Mais do que depressa, proibiram Arílson de falar.

Assim, o acesso ao quarto de Arílson no terceiro andar do Hospital da Cruz Vermelha foi totalmente proibido e vigiado 24 horas.

Então, como num passe de mágica, surgiu uma nova versão oficial: Era o menisco externo que tinha estourado!

Crédito: revista Placar – 7 de agosto de 1970.

Crédito: revista Placar – 7 de agosto de 1970.

Crédito: revista Placar – 15 de janeiro de 1971.

Crédito: revista Placar – 15 de janeiro de 1971.

Mais tarde, outro diagnóstico apontou que de fato o menisco externo apresentava problemas, mas, o interno realmente contava com fragmentos que não foram removidos na primeira cirurgia.

A coragem de dizer o que sentia, mesmo contrariando o interesse de alguns foi o que lhe salvou. E lá foi Arílson para o seu segundo procedimento cirúrgico.

Munido de muita coragem, o ponteiro esquerdo do Flamengo revelou o apoio de todos os companheiros, principalmente do técnico Dorival Knippel, o popular Yustrich:

– Até o seu Yustrich me deu muita força. Ele sempre perguntava como eu estava e dizia para ter fé! 

Depois da segunda cirurgia, mesmo com um quadro de lenta recuperação, Arílson alimentava esperanças de voltar aos gramados totalmente curado.

Crédito: revista Placar – 15 de janeiro de 1971.

Crédito: revista Placar – 15 de janeiro de 1971.

Crédito: revista Placar – 5 de fevereiro de 1971.

Crédito: revista Placar – 5 de fevereiro de 1971.

Com revistas de palavras cruzadas, embrulhos de maçãs e maços de cigarros, Arílson só tinha a monotonia quebrada quando chegava o repórter Fausto Neto da revista Placar.

Como a imprensa não era bem vinda nos dias de visita, Fausto Neto precisava mentir para o vigilante do quarto dizendo que era um parente. Arílson sorria e então acenava positivamente para que o repórter pudesse entrar.

– Sou primo dele e estou trazendo umas coisinhas… Dizia Fausto Neto enquanto chegava rapidamente ao leito de Arílson.

Arílson venceu e voltou aos gramados. Aos poucos foi ganhando confiança e esquecendo os traumas do joelho.

Seu rendimento, se não era mais o mesmo, foi o suficiente para colaborar em grandes conquistas do Rubro Negro naquele período.

Crédito: revista Placar – 5 de fevereiro de 1971.

Crédito: revista Placar – 5 de fevereiro de 1971.

Jogando pelo Flamengo, Arílson levantou vários canecos: Campeonato carioca de 1972 e 1974, Taça Guanabara de 1970, 1972 e 1973 e o Torneio Internacional de Verão nas edições de 1970 e 1972.

Abaixo, os dados da partida em que Arílson marcou o gol que garantiu o título da Taça Guanabara de 1973:

6 de maio de 1973 – Campeonato Carioca – Taça Guanabara – Flamengo 1×0  Vasco da Gama – Estádio do Maracanã – Árbitro: José Favilli Neto – Gol: Arílson aos 30 minutos do 1.º tempo – Expulsão: Alfinete (Vasco da Gama). 

Flamengo: Renato; Moreira, Chiquinho, Fred e Rodrigues Neto; Liminha e Paulo Cesar; Vicentinho, Dario, Doval e Arílson. Técnico: Zagallo. Vasco da Gama: Andrada; Paulo César, Renê, Moisés e Alfinete; Alcir e Zanata; Jorginho. Dé (Roberto), Ademir (Buglê) e Luís Carlos.

Crédito: revista Placar – 5 de fevereiro de 1971.

Crédito: revista Placar – 5 de fevereiro de 1971.

Crédito: revista Placar - 1 de dezembro de 1972.

Crédito: revista Placar – 1 de dezembro de 1972.

De acordo com o Almanaque do Flamengo, dos autores Clóvis Martins e Roberto Assaf, Arílson disputou um total de 224 jogos, obtendo 107 vitórias, 64 empates, 53 derrotas e 36 gols marcados. 

Arílson jogou ainda por um curto período no Corinthians em 1975. Depois, atuou pelo Americano e pelo Volta Redonda, clube onde encerrou sua carreira em 1977.

Conforme reportagem da revista Placar em sua edição de 16 de setembro de 1983, depois de encerrar sua carreira como jogador profissional, Arílson se dedicou ao bar que inaugurou em 1980 no bairro carioca do Grajaú.

– Minha sorte é que nos finais de semana aparecem por aqui o Silva, o Dida e o Carlinhos. Então, os clientes lotam o estabelecimento e eu faturo alto! 

Posteriormente, trabalhou nas categorias amadoras do Flamengo por um período considerável até ser demitido sem uma explicação satisfatória.

Crédito: revista Placar – 16 de setembro de 1983.

Crédito: revista Placar – 16 de setembro de 1983.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Teixeira Heizer, Maurício Azêdo, Fausto Neto e Mário Della Rina), revista Manchete Esportiva, revista Grandes Clubes Brasileiros, campeoesdofutebol.com.br, site do Milton Neves (por Marcelo Rozenberg), flapedia.com.br, odia.ig.com.br (por Márcia Vieira), albumefigurinhas.no.comunidades.net, Almanaque do Flamengo – Clóvis Martins e Roberto Assaf.

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