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A imprensa não economizou nas palavras: “O que fizeram com o ponta esquerda do Flamengo foi uma verdadeira crueldade”.

Os médicos evitaram tocar no assunto por uma questão ética. Já os cartolas, queriam mesmo era silenciar o jogador de qualquer maneira!

Talvez, o medo de expor a evidente falta de estrutura que ainda assolava os times do futebol brasileiro no início dos anos 70.

Mas o medo poderia ser bem maior. Quem sabe, trazer a tona os crimes cometidos contra três jogadores: Dionísio, Tinho e por último Arílson.

Crédito: revista Placar – 7 de agosto de 1970.

O Flamengo no Maracanã. Em pé: Tinho, Sidney, Jorge Manicera, Onça, Rodrigues Neto e Paulo Henrique. Agachados: Doval, Liminha, Cabinho, Dionísio e Arílson. Crédito: oglobo.globo.com.

Arílson Pedro da Silva nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 18 de outubro de 1948. Despontou nos campinhos de terra batida do bairro Itacolomi, na Ilha do Governador.

Mais tarde foi encaminhado aos quadros amadores da Associação Atlética Portuguesa da Ilha do Governador. Jogador de grande habilidade, em pouco tempo foi aproveitado como ponteiro esquerdo.

O futebol vistoso e atrevido logo despertou o interesse do Clube de Regatas do Flamengo em 1965.

Com boas atuações no Torneio “Robertão” de 1969, seu nome foi lembrado na Seleção Brasileira durante o período de preparação para o mundial de 1970.

Mas no primeiro semestre de 1970, o joelho esquerdo de Arílson não suportou. Pancadas, torções, recuperações mal feitas e, principalmente, um punhado de análises médicas confusas.

O Flamengo campeão da Taça Guanabara de 1970. Crédito: revista Placar – 5 de junho de 1970.

Crédito: revista Placar – 15 de janeiro de 1971.

Mal conseguindo suportar o incômodo das dores, uma primeira cirurgia no joelho foi marcada pelo Departamento Medico do clube.

Depois da cirurgia, Arílson tentou voltar mas era vencido pelas dores. Apesar do esforço, o atacante mal conseguia treinar.

O segundo parecer médico foi uma bomba. Quando Arílson revelou publicamente que existiam fragmentos do menisco interno no joelho foi um escândalo. Os dirigentes então acusaram os jornalistas de sensacionalistas.

Para abafar o caso, Arílson foi proibido de falar. No terceiro andar do Hospital da Cruz Vermelha, o acesso ao quarto do jogador foi totalmente proibido e vigiado 24 horas.

E como num passe de mágica, uma nova versão oficial apareceu do nada: Era o menisco externo que tinha estourado!

Crédito: revista Placar – 15 de janeiro de 1971.

Crédito: revista Placar – 5 de fevereiro de 1971.

Algum tempo depois, outro diagnóstico apontou que de fato o menisco externo apresentava problemas. Todavia, os fragmentos realmente não foram removidos totalmente na primeira cirurgia.

Sensibilizado, o ponteiro esquerdo do Flamengo agradeceu o apoio dos companheiros e principalmente do técnico Dorival Knippel, o popular Yustrich: “Seu Yustrich me deu muita força. Sempre perguntava como eu estava”.

Munido de esperanças para voltar rapidamente aos gramados, lá foi Arílson para o segundo procedimento cirúrgico.

Na recuperação da cirurgia; revistas de palavras cruzadas, embrulhos de maçãs e maços de cigarros tentavam quebrar o ambiente monótono. O tédio só era quebrado na presença do repórter da revista Placar.

Como a imprensa não era bem vinda, o repórter Fausto Neto precisava mentir para o vigilante do quarto. “Sou primo dele e estou trazendo umas coisinhas”. Então Arílson acenava sorridente e Fausto Neto tinha livre acesso ao leito do jogador.

Crédito: revista Placar – 5 de fevereiro de 1971.

Censura na cama do Hospital. Crédito: revista Placar – 5 de fevereiro de 1971.

Em sua volta aos gramados, Arílson foi aos poucos ganhando confiança. O rendimento, se não era mais o mesmo, foi o suficiente para colaborar em grandes conquistas do Flamengo naquele período.

Pelo Flamengo, Arílson levantou vários canecos: Campeonato carioca 1972 e 1974, Taça Guanabara 1970, 1972 e 1973 e o Torneio Internacional de Verão, nas edições de 1970 e 1972.

Abaixo, os registros da partida em que Arílson marcou o gol do título da Taça Guanabara de 1973:

6 de maio de 1973 – Campeonato Carioca – Taça Guanabara – Flamengo 1×0 Vasco da Gama – Estádio do Maracanã – Árbitro: José Favilli Neto – Gol: Arílson aos 30′ do primeiro tempo – Expulsão: Alfinete (Vasco da Gama). 

Flamengo: Renato; Moreira, Chiquinho, Fred e Rodrigues Neto; Liminha e Paulo Cesar; Vicentinho, Dario, Doval e Arílson. Vasco da Gama: Andrada; Paulo César, Renê, Moisés e Alfinete; Alcir e Zanata; Jorginho, Dé (Roberto), Ademir (Buglê) e Luís Carlos.

Censura na cama do Hospital. Crédito: revista Placar – 5 de fevereiro de 1971.

De acordo com o Almanaque do Flamengo, dos autores Clóvis Martins e Roberto Assaf, Arílson disputou um total de 224 jogos com 107 vitórias, 64 empates, 53 derrotas e 36 gols marcados. 

Arílson jogou ainda por um curto período no Corinthians em 1975. Depois, atuou pelo Americano e pelo Volta Redonda, clube onde encerrou sua carreira em 1977.

Conforme reportagem da revista Placar de 16 de setembro de 1983, após deixar os gramados, Arílson se dedicou ao bar que inaugurou em 1980, no bairro carioca do Grajaú.

– Minha sorte é que nos finais de semana aparecem por aqui o Silva, o Dida e o Carlinhos. Então, os clientes lotam o estabelecimento e eu faturo alto! 

Posteriormente, Arílson trabalhou nas categorias amadoras do Flamengo até ser demitido sem uma explicação satisfatória.

Foto de Zeka Araújo. Crédito: revista Placar – 1 de dezembro de 1972.

Foto de Ignácio Ferreira. Crédito: revista Placar – 16 de setembro de 1983.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Fausto Neto, Ignácio Ferreira, Maurício Azêdo, Mário Della Rina, Teixeira Heizer e Zeka Araújo), revista Grandes Clubes Brasileiros, revista Manchete Esportiva, Jornal do Brasil, Jornal dos Sports, campeoesdofutebol.com.br, odia.ig.com.br (por Márcia Vieira), oglobo.globo.com, site do Milton Neves (por Marcelo Rozenberg), Almanaque do Flamengo – Clóvis Martins e Roberto Assaf, albumefigurinhas.no.comunidades.net.

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