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Dia movimentado na Toca da Raposa. Nelinho exercita seus chutes e Joãozinho se esforça para curar as pernas sempre esfoladas pelas chuteiras de seus marcadores.

Do outro lado do gramado, o goleiro Raul tenta aprimorar a saída do gol nos escanteios. Não muito distante, Wilson Piazza corre para manter o físico enquanto Neca treina cabeçadas.

E o grandalhão Morais? Ora, Morais abre os jornais e volta a ler uma manchete que não é tão atual assim: “Cruzeiro tenta acertar com Oscar da Ponte Preta”.

Em entrevista concedida para a revista Placar em 26 de agosto de 1977, Morais contou que sua situação sempre foi mais ou menos assim:

– Nunca falaram diretamente comigo. Mas é um saco abrir o jornal todo dia e saber que o Cruzeiro está buscando um jogador para resolver o que eles chamam de “problema da defesa”.

Crédito: revista Placar – 12 de dezembro de 1975.

Morais, camisa 3, na homenagem dos jogadores do Cruzeiro ao companheiro Roberto Batata. Crédito: revista Placar.

José Francisco de Morais, zagueiro durão que defendeu o Cruzeiro nos anos setenta, nasceu na cidade de Belo Horizonte (MG) em 26 de julho de 1948.

Iniciou sua carreira profissional na segunda metade dos anos sessenta defendendo o Democrata Futebol Clube de Sete Lagoas (MG).

Abaixo, uma das primeiras participações de Morais no time principal do Democrata, quando entrou em campo no segundo tempo da partida contra o América:

23 de março de 1968 – Campeonato mineiro – primeira rodada – América 3×1 Democrata – Estádio do Mineirão – Árbitro: José de Assis AragãoGols: Canhoto aos 50, Clóvis aos 59, Samuel aos 85 e Julinho aos 87’. 

América: Djair, Café, Poças, Caló e Vanderlei; Dirceu Alves e Carlos Pedro; Mosquito, Julinho, Samuel e Canhoto. Democrata: Careca, Cafifa, Raul (Morais), Alex e Valtinho; Eduardo e Luis Carlos; Clóvis, Alirio, Tié e Sonoca.

Morais e Reinaldo, que saiu de campo com nove pontos na canela. Crédito: revista Placar – 15 de abril de 1977.

Morais e Reinaldo, que saiu de campo com nove pontos na canela. Crédito: revista Placar – 15 de abril de 1977.

Morais e Zé Carlos em partida contra o Coritiba. Crédito: revista Placar – 26 de agosto de 1977.

Contratado com cifras modestas junto ao Democrata, Morais chegou ao Cruzeiro Esporte Clube em 4 de setembro de 1969.

Na época eram muitos os beques que lutavam por um lugar no time. Na lista, muita gente experiente que se misturava aos jovens valores: Brito, Fontana, Celton, Gleison, Aluísio, Miro, Mário Tito, Darci, Raul Fernandes, Vitor e Morais.

Todos foram embora enquanto que Morais e Darci permaneceram no clube para fazer parte do grupo campeão mineiro de 1972 e 1973. Mas a diretoria nunca deixou de tocar no assunto da contratação de um novo zagueiro.

O argentino Perfumo foi contratado e Morais continuou. Perfumo foi embora e Morais ficou. Apoiado pelo técnico Yustrich, Morais continuou em sua batalha particular pela afirmação de seu futebol.

Crédito: revista Placar – 26 de agosto de 1977.

Em primeiro plano, partindo da esquerda; Morais, o goleiro Raul e Nelinho. Crédito: revista Placar.

Então, novamente cismaram com Morais e seu ciclo de empréstimos foi iniciado. Primeiro para o Londrina (PR), depois o Ceará (CE), Comercial de Campo Grande (MS) e finalmente o Sampaio Corrêa (MA).

Morais retornou ao Cruzeiro em 1974. E os títulos continuaram: Campeão mineiro nas edições de 1974, 1975, 1977, campeão da Taça Libertadores da América em 1976 e vice-campeão brasileiro de 1974 e 1975.

Emprestado em 1978 ao América Futebol Clube de São José do Rio Preto (SP), Morais disputou o campeonato paulista e em seguida retornou ao Cruzeiro.

Quando chegou na Toca da Raposa os cartolas “celestes” prometeram que seu contrato seria renovado. Tudo seria resolvido em alguns dias.

Crédito: revista Placar – 9 de fevereiro de 1979.

Crédito: revista Placar – 9 de fevereiro de 1979.

Mas a realidade foi bem diferente. Encostado e esquecido no clube, Morais virou praticamente um desconhecido. Proibido de treinar, o “becão” precisou manter sua forma física com os companheiros do elenco juvenil.

Com o salário atrasado por três meses, Morais não era ouvido quando suplicava por uma solução. As reuniões para tratar do assunto eram sempre adiadas e remarcadas sob qualquer pretexto.

A tirada clássica ou a graça de um drible bem feito sempre permaneceram distantes de seus pés. Durante dez anos a torcida do Cruzeiro soube respeitar a raça de Morais, os dirigentes não!

Com o passe livre nas mãos, Morais acertou com o América mineiro. Então, o Cruzeiro se sentiu traído e entrou com uma ação na CBD, o que impediu Morais de assinar com o América.

Figurinha de Morais quando jogou pelo América de São José do Rio Preto em 1978. Crédito: albumefigurinhas.no.comunidades.net.

Morais, em destaque, nesta formação do América de São José do Rio Preto durante o campeonato paulista de 1978. Crédito: Crédito: albumefigurinhas.no.comunidades.net.

Mas finalmente chegou o dia de ir embora. Com uma história escrita com títulos e muita dedicação, Morais disse adeus ao próprio passado.

Nos primeiros meses de 1979 Morais acertou com o Uberlândia Esporte Clube e deixou a Toca da Raposa. Algumas fontes registram que seu último clube foi o Galícia Esporte Clube (BA).

Morais também trabalhou como treinador em várias equipes, principalmente no cenário do futebol mineiro.

Em 3 de setembro de 1999, quando era gerente de futebol do Atlético Paranaense, Morais faleceu em um acidente de automóvel. O ex-zagueiro sentiu um mal súbito ao volante próximo da cidade de Botucatu (SP).

Crédito: revista Placar – 7 de dezembro de 1979.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Sérgio A. Carvalho e Luiz Gonzaga), revista Manchete Esportiva, campeoesdofutebol.com.br, mg.superesportes.com.br, albumefigurinhas.no.comunidades.net, site do Milton Neves.

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