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Acompanhado por um batalhão de 23 guarda-costas, Castor de Andrade caminha em passos largos para seu luxuoso automóvel.

Chapéu, terno de fino corte, sapato de cromo alemão e meias importadas. Reconhecidamente, um senhor de fino trato e boa cultura, amigo de ministros e outras autoridades.

– Tenho amigos de direita, de esquerda e de centro. Estou sempre com o governo e não tenho culpa se ele muda de lado!

Patrono da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel, Castor era igualmente reverenciado nas rodas de samba e nos corredores de “Moça Bonita”.

Castor Gonçalves de Andrade e Silva nasceu no Rio de Janeiro em 12 de fevereiro de 1926. Filho de Euzébio de Andrade, Castor herdou do pai o compromisso com o empenho da palavra e a importância da formação religiosa.

Crédito: revista Placar.

Crédito: revista Placar 2 de agosto de 1985.

Da mãe, Dona Carmem, herdou o amor pelas coisas populares e os “pontos” de Jogo do Bicho, atividade que nasceu nos tempos em que sua avó Eurídice atendia os fregueses numa casinha de sapê em Bangu.

Cria autêntica dos subúrbios cariocas, como jogador de futebol Castor nunca passou de um razoável ponta-esquerda, que na opinião de alguns se mantinha no time pelo fato de comprar as bolas e o fardamento.

A vida estudantil se iniciou no colégio católico São Bento seguindo depois no Colégio Pedro Segundo. Mais tarde, Castor concluiu o curso de Direito na Faculdade Nacional de Direito em 1962, mas nunca se interessou em exercer a profissão.

Suas atenções sempre permaneceram voltadas ao controle do Jogo do Bicho e nas coisas do carnaval e do futebol.

Ao assumir os negócios do pai, Castor multiplicou os lucros apoiado na criação de um processo muito mais rápido e rentável.

Crédito: revista do Esporte.

Em 1963 Parada recebe oxigênio no intervalo de uma partida no Maracanã enquanto conversa com Castor de Andrade. Crédito: revista Placar – 9 de agosto de 1985.

Paralelamente, Castor era um dos sócios da Indústria e Metalúrgica Castor em Nova Iguaçu, principal fornecedora da Diretoria de Material de Intendência (DMI) do Exército brasileiro.

Na matéria publicada pela revista Placar de 14 de março de 1980, Castor mostrou ser um homem que administrava com métodos simplificados e muita sinceridade. Certa vez, em plena greve dos metalúrgicos, Castor reuniu seus funcionários e disse:

– Quem quiser fazer greve, muito bem. Acho que é justo lutar por um meio de vida melhor. Mas vou garantir o direito de quem quer trabalhar. Na minha empresa não quero piquetes.

No dia seguinte 60% dos faltosos voltaram ao trabalho. Três dias depois todos estavam em seus postos. Castor não descontou o dia de ninguém e ainda gratificou os que não aderiram ao movimento.

– O sindicato dos patrões queria que eu descontasse o salário dos faltosos. Eu disse: Aqui mando eu e vocês vão pro inferno!

Crédito: revista Placar – 14 de março de 1980.

Crédito: revista Placar – 30 de janeiro de 1981.

E foi o pai, seu Zizinho (Euzébio de Andrade), que iniciou o filho Castor na paixão quase desenfreada pelo Bangu Atlético Clube.

Seu Zizinho foi presidente do Bangu entre os anos de 1963 e 1969, período em que Castor comandou o departamento de futebol profissional no clube.

Foi uma época de ouro para o alvirrubro: Além da grande campanha em 1963, destacamos o vice-campeonato carioca nas edições de 1964, 1965 e 1967 e o título de 1966, o ponto alto da administração dos “Andrade e Silva”.

E naquela campanha do título de 1966, o amor e a fúria de Castor nunca caminharam tão juntos. Em 26 de novembro de 1966 Bangu e América realizaram uma partida marcada por inúmeros acontecimentos, dentro e fora do gramado do estádio do Maracanã.

Aos 27′ do segundo tempo o árbitro Idovan Silva marcou um pênalti duvidoso em favor do América. Na cobrança, o ponteiro esquerdo Eduardo do América estabeleceu 2×2.

Pelo Bangu Castor enfrentava o árbitro e até os policiais. Crédito: revista Placar – 6 de janeiro de 1984.

Revoltado, Castor invadiu o campo e com um revólver nas mãos partiu em direção ao homem do apito. A confusão foi contida pelo Major Hélio Vieira, chefe da segurança do estádio, que retirou Castor da roda formada por um montão de gente.

Porém, Castor permaneceu firme na beira do gramado assistindo o jogo ao lado do técnico Alfredo Gonzalez.

O jogo terminou com o triunfo banguense pelo placar de 3×2, com o gol da vitória marcado por Cabralzinho em uma penalidade máxima considerada também como duvidosa.

Em dezembro de 1967 Castor entrou armado um estúdio de TV durante transmissão de um programa mesa-redonda.

Tudo começou quando Castor tomou conhecimento das declarações de João Saldanha sobre o possível suborno efetuado pelo próprio Castor junto ao goleiro Manga do Botafogo.

“Se não temos torcida suficiente eu mando comprar”. Crédito: revista Placar: 9 de dezembro de 1983.

Crédito: revista Placar – 20 de julho de 1984.

Em reportagem publicada na revista Placar pelo repórter Marcelo Rezende, Castor contou um pouco do que aconteceu nos estúdios da televisão:

– O Saldanha pode se considerar meu inimigo, mas eu o tenho como amigo. Naquela decisão entre Bangu e Botafogo em 1967 o Saldanha me acusou de bicheiro, contraventor, de ter comprado o goleiro Manga, coisas assim… 

– Nem discuti. Peguei meus seguranças e invadimos os estúdios. Eu, com duas “máquinas” na mão. Foi um corre-corre danado… Pois bem, o homem é macho e me enfrentou… 

– Anos depois foram em cima do Saldanha. Queriam provas contra mim. Ele disse: “Castor é um homem importante no nosso futebol, nada sei sobre sua vida particular e nada mais falarei”. Isso é o que eu chamo de dignidade. Foi amigo em um momento difícil. 

Castor foi preso nos últimos dias de 1968 e só voltou para sua rotina muito tempo depois.

Crédito: revista Placar – 22 de março de 1985.

Crédito: revista Placar 2 de agosto de 1985.

Os anos de militância no futebol transformaram Castor um negociador habilidoso. Dedicado, Castor cuidava de tudo nos mínimos detalhes e negociava diretamente a renovação de contratos.

Quando colocava na cabeça que queria um jogador não media esforços e nem dinheiro para fechar o negócio:

– Craque é como aqueles cavalos muito caros de exposição: Precisa de um tratamento especial… O Cabralzinho não queria vir de jeito nenhum para o Bangu. Então fui até a casa dele e lhe dei uma lancha de presente.

Paulo Borges, o eterno “Risadinha”, campeão carioca de 1966, sempre afirmou que Castor foi o melhor dirigente com quem trabalhou:

– A gente chegava dizendo que tinha uma dor de cabeça e prontamente ele colocava a mão no bolso e tirava uma nota novinha de 100 cruzeiros.   

Crédito: revista Placar 2 de agosto de 1985.

Crédito: revista Placar 2 de agosto de 1985.

Em 1981 Castor cansou das reclamações sobre um jogador que costumeiramente chegava atrasado aos treinamentos. Certo dia, Castor o mandou chamar o “atrasadinho” em seu escritório. 

O rapaz entrou tremendo na sala de Castor e ainda tentou justificar que era o ônibus que sempre chegava fora do horário. Antes que pudesse terminar de falar foi surpreendido com uma solução inesperada acompanhada de uma sonora bronca: 

– Fiquei sabendo que o senhor acha normal chegar aos treinos atrasado. Passe lá na minha agência de automóveis e pegue um fusquinha. É seu. Mas se chegar atrasado mais um dia perde o carro e o emprego! 

Além da costumeira generosidade, Castor sempre honrou os compromissos assumidos com dinheiro vivo. Quando contratou Leir Gilmar da Costa junto ao Palmeiras, o técnico Moisés entregou ao surpreso goleiro uma caixa de sapatos cheia de dinheiro vivo.

Eram exatamente 7,5 milhões de cruzeiros, metade do pagamento das luvas prometidas por Castor de Andrade na assinatura do contrato.

O Senhor é o meu Castor e nada nos faltará. Crédito: revista Placar – 15 de novembro de 1985.

Nos anos oitenta, com Castor como “Padrinho”, os grandes investimentos voltaram ao Bangu. Terceiro colocado no campeonato carioca de 1983 viveu seu melhor ano em 1985, com os “vices” no certame estadual e no Brasileirão.

Após participação na Libertadores da América o Bangu venceu a Taça Rio em 1987, seu último grande feito. Castor se retirou do clube no ano seguinte já com os dedos da Justiça em seu encalço.

Longe dos gramados dedicou-se mais ao samba com sua querida Mocidade; bicampeã nos carnavais de 1990 e 1991.

Preso novamente em 1993, Castor foi diagnosticado com problemas cardíacos e cumpriu o restante da pena em prisão domiciliar, mas sempre dava suas escapadinhas.

Em 11 de abril de 1997, durante uma visita na casa de um amigo, Castor de Andrade se sentiu mal e faleceu ao sofrer um ataque cardíaco fulminante.

Crédito: globoesporte.globo.com.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Hideki Takizawa, Tim Lopes, Marcelo Rezende e Mílton Costa Carvalho), revista do Esporte, revista Manchete, revista Manchete Esportiva, revista Fatos e Fotos, Jornal do Brasil, Jornal O Globo, futrio.net, bangu.net, campeoesdofutebol.com.br, globoesporte.globo.com, site do Milton Neves.

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