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Acompanhado por um batalhão de 23 guarda-costas, Castor de Andrade caminha em passos largos em direção ao seu luxuoso automóvel.

Chapéu, terno de fino corte, sapato de cromo alemão e meias importadas. Reconhecidamente, um senhor de fino trato e boa cultura, amigo de ministros e outras autoridades.

– Tenho amigos de direita, de esquerda e de centro. Estou sempre com o governo e não tenho culpa se ele muda de lado!

Patrono da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel, Castor era igualmente reverenciado nas rodas de samba e nos corredores de “Moça Bonita”.

Castor Gonçalves de Andrade e Silva nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 12 de fevereiro de 1926. Filho de Euzébio de Andrade, Castor herdou do pai o compromisso com o empenho da palavra e a importância da formação religiosa.

Crédito: revista do Esporte.

Da mãe, Dona Carmem, herdou o amor pelas coisas populares e os “pontos” de Jogo do Bicho, atividade que nasceu nos tempos em que sua avó Eurídice atendia os fregueses numa casinha de sapê em Bangu.

Cria autêntica dos subúrbios cariocas, como jogador de futebol Castor nunca passou de um razoável ponta-esquerda, que na opinião de alguns se mantinha no time pelo fato de comprar bolas e fardamentos.

A vida estudantil foi iniciada no Colégio Católico São Bento, seguindo depois no Colégio Pedro Segundo. Mais tarde, em 1962, Castor concluiu o curso de Direito na Faculdade Nacional de Direito, embora nunca tenha exercido a profissão.

Suas atenções sempre permaneceram voltadas ao controle do Jogo do Bicho e nas coisas do carnaval e do futebol. Ao assumir os negócios do pai, Castor multiplicou os lucros apoiado na criação de um processo mais rápido e rentável.

Paralelamente, Castor era um dos sócios da Indústria e Metalúrgica Castor, em Nova Iguaçu, principal fornecedora da Diretoria de Material de Intendência (DMI) do Exército brasileiro.

Enquanto conversa com Castor de Andrade, o jogador Parada recebe oxigênio. Crédito: revista Placar.

Na metalúrgica entre panelas e com sua amada bandeira do Bangu. Fotos de Rodolpho Machado. Crédito: revista Placar – 14 de março de 1980.

Na matéria publicada pela revista Placar em 14 de março de 1980, Castor mostrou ser um administrador com métodos simplificados e muita sinceridade. Certa vez, em plena greve dos metalúrgicos, Castor falou aos funcionários:

– Quem quiser fazer greve, muito bem. Acho justo lutar por um meio de vida melhor. Mas vou garantir o direito de quem quer trabalhar. Na minha empresa não quero piquetes.

No dia seguinte 60% dos faltosos voltaram ao trabalho. Três dias depois todos estavam em seus postos. Castor não descontou nada de ninguém e ainda gratificou os que não aderiram ao movimento.

E foi o pai, seu Zizinho (Euzébio de Andrade), que estimulou o filho na paixão quase desenfreada pelo Bangu Atlético Clube. Seu Zizinho foi presidente do clube entre 1963 e 1969, período em que Castor comandou o Departamento de Futebol Profissional.

Foi uma época de ouro para o alvirrubro. O Bangu ficou com o vice-campeonato carioca nas edições de 1964, 1965 e 1967, além do título de 1966, o ponto alto da administração dos “Andrade e Silva”.

Crédito: revista Placar.

Fotos de Ignácio Ferreira. Crédito: revista Placar – 30 de janeiro de 1981.

E na campanha de 1966, o amor e a fúria de Castor nunca caminharam tão juntos. Em 26 de novembro de 1966, Bangu e América realizaram uma partida marcada por inúmeros acontecimentos, dentro e fora do gramado do Maracanã.

Aos 27′ do segundo tempo, o árbitro Idovan Silva marcou um pênalti duvidoso em favor do América. Na cobrança, o ponteiro esquerdo Eduardo do América estabeleceu 2×2.

Revoltado, Castor invadiu o campo e com um revólver nas mãos partiu em direção ao homem do apito. A confusão foi contida pelo Major Hélio Vieira, chefe da segurança do Maracanã, que retirou Castor da roda formada por um montão de gente.

Porém, Castor permaneceu firme na beira do gramado assistindo o jogo ao lado do técnico Alfredo Gonzalez. O Bangu venceu por 3×2, com o gol da vitória marcado por Cabralzinho, em uma penalidade também considerada duvidosa.

“Se não temos torcida eu mando comprar”. Foto de Rodolpho Machado. Crédito: revista Placar: 9 de dezembro de 1983.

Pelo Bangu, Castor enfrentava árbitros e até a polícia. Crédito: revista Placar – 6 de janeiro de 1984.

Em dezembro de 1967, Castor entrou armado em um estúdio de TV. Tudo começou depois das declarações de João Saldanha sobre um possível suborno junto ao goleiro Manga do Botafogo.

Em reportagem publicada na revista Placar pelo repórter Marcelo Rezende, Castor contou um pouco do que aconteceu nos estúdios da televisão:

– O Saldanha pode se considerar meu inimigo, mas eu o tenho como amigo. Naquela decisão de 1967 entre Bangu e Botafogo, o Saldanha me acusou de bicheiro, contraventor e de ter comprado o goleiro Manga. 

– Nem discuti. Peguei meus seguranças e invadimos o estúdio… Eu, com duas “máquinas” na mão… Foi um corre-corre danado. Pois bem, o Saldanha era macho mesmo e me enfrentou! 

– Anos depois foram em cima do Saldanha. Queriam provas contra mim. Ele disse: “Castor é um homem importante no nosso futebol. Nada sei sobre sua vida particular e nada mais falarei”. Isso é o que eu chamo de dignidade!

Foto de Sérgio Berezovsky. Crédito: revista Placar – 20 de julho de 1984.

Foto de Zeka Araújo. Crédito: revista Placar – 22 de março de 1985.

Em 1981 Castor cansou das reclamações sobre os constantes atrasos de um determinado jogador. Certo dia, Castor mandou chamar o “atrasadinho” em seu escritório. 

O rapaz entrou na sala tremendo e ainda tentou justificar. Antes que pudesse terminar de falar foi surpreendido com uma solução inesperada, acompanhada de uma sonora bronca: 

– Fiquei sabendo que o senhor acha normal chegar aos treinos atrasado. Passe lá na minha agência de automóveis e pegue um fusquinha. É seu. Mas se chegar atrasado de novo perde o carro e o emprego! 

Além da costumeira generosidade, Castor sempre honrou os compromissos assumidos com dinheiro vivo. Quando contratou Leir Gilmar da Costa junto ao Palmeiras, o técnico Moisés entregou ao goleiro uma caixa de sapatos forrada de dinheiro.

Eram exatamente 7,5 milhões de cruzeiros, metade do pagamento das luvas prometidas por Castor de Andrade na assinatura do contrato.

Foto de Ricardo Beliel. Crédito: revista Placar 2 de agosto de 1985.

Crédito: revista Placar 2 de agosto de 1985.

Os anos no futebol o transformaram em um negociador habilidoso. Quando colocava na cabeça que queria um jogador não media esforços para fechar o negócio: “Craques são como cavalos de exposição; cada um tem o seu preço”.

Nos anos 80, com Castor como “padrinho”, os grandes investimentos voltaram ao Bangu. Terceiro colocado no campeonato carioca de 1983, o clube viveu seu melhor ano em 1985, com o segundo lugar no campeonato carioca e no “Brasileirão”.

Seu último grande feito como dirigente foi a conquista da Taça Rio em 1987. No ano seguinte, Castor deixou o futebol com os dedos da Justiça em seu encalço.

Dedicou seu tempo ao samba, com sua querida Mocidade, bicampeã nos carnavais de 1990 e 1991. Preso em 1993, Castor foi diagnosticado com problemas cardíacos e cumpriu o restante da pena em prisão domiciliar, mas sempre dava suas escapadinhas.

Em 11 de abril de 1997, durante uma visita na casa de um amigo, Castor de Andrade se sentiu mal e faleceu com um ataque cardíaco fulminante.

Foto de Ricardo Beliel. Crédito: revista Placar 2 de agosto de 1985.

“O Castor é meu senhor e nada nos faltará”. Foto de Ricardo Beliel. Crédito: revista Placar – 15 de novembro de 1985.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Hideki Takizawa, Ignácio Ferreira, Marcelo Rezende, Mílton Costa Carvalho, Ricardo Beliel, Rodolpho Machado, Sérgio Berezovsky, Tim Lopes e Zeka Araújo), revista do Esporte, revista Fatos e Fotos, revista Manchete, revista Manchete Esportiva, Jornal do Brasil, Jornal O Globo, Jornal dos Sports, bangu.net, campeoesdofutebol.com.br, globoesporte.globo.com, futrio.net, site do Milton Neves.

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