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Geraldo morava em uma pequena casa no bairro de Cascadura, Zona Norte do Rio de Janeiro. Ao lado da mãe dona Jacira e dos irmãos José Mário e Moacir, o tempo passava devagar e a pobreza não vestia qualquer disfarce.

Nas mãos, Geraldo carregava um pequeno rádio de pilha, que só era ligado pouco antes do início dos jogos da Seleção Brasileira na Copa do México em 1970.

Quando tudo dava certo, algum vizinho mais abastado fazia o convite para compartilhar o televisor. E mesmo diante da TV, Geraldo não largava o rádio surrado, um companheiro certo e inseparável.

Geraldo Furtado Cury nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 16 de outubro de 1952.

Crédito: revista Placar.

Aos dezoito anos de idade, Geraldo era um grande admirador do zagueiro Hércules Brito Ruas, o melhor preparo físico do mundial de 1970.

Geraldo sabia que não era Brito, mas arrancava elogios do pequeno público que acompanhava os jogos do Nacional de Camboatá, um time amador que disputava o campeonato do Departamento Autônomo da Federação Carioca.

Ganhava pouco é verdade, mas o suficiente para colaborar nas despesas domésticas, tomar uma cervejinha e abastecer o rádio com pilhas novas.

No verão de 1971 Geraldo passou correndo pelo portão entreaberto. Entrou em casa e esbarrando na humilde mobília derramou sua euforia. Era um inesperado convite para jogar no juvenil do América Futebol Clube.

O América em 1973 – Em pé: Edu, Flecha, Tadeu, Sergio Lima e Jeremias. Agachados: Ivo, Djair e Alvaro. Sentados: Geraldo, o goleiro Pais e Gilmar. Crédito: revista Placar – 28 de dezembro de 1973.

Crédito: revista Placar – 19 de novembro de 1976.

Vencer sempre foi uma questão de sobrevivência e agora o seu futuro não dependia mais apenas da sorte.

Com 1;87 de altura e 78 quilos, Geraldo demarcou seu espaço na base da superação. No ardor das batalhas, o zagueiro esquecia o pequeno e perigoso hiato entre os cartões amarelo e vermelho.

Em 1972 recebeu com surpresa o comunicado que seria emprestado para um clube do interior do Maranhão. Foi então que o amigo e admirador Otto Glória convenceu os dirigentes americanos para manter o jogador em casa.

Conforme publicado pela revista Placar em sua edição de 20 de maio de 1977, o primeiro contrato profissional foi assinado em 1973 e lhe rendia apenas 300 cruzeiros mensais.

Em 1974 o técnico Danilo Alvim queria Geraldo ao lado do ótimo Alex. Campeão da Taça Guanabara, o barbudo Geraldo foi deixando a pobreza e também o anonimato de lado.

Crédito: revista Placar – 18 de fevereiro de 1977.

Crédito: revista Placar: 20 de maio de 1977.

Abaixo, o dia em que os comandados de Danilo Alvim mostraram do que seriam capazes na Taça Guanabara:

4 de agosto de 1974 – Campeonato carioca – Primeiro turno – Taça Guanabara – América 4×1 Vasco da Gama – Estádio do Maracanã – Árbitro: Luís Carlos Félix – Gols: Luisinho aos 16’, Roberto aos 18’ e Flecha aos 43’ do primeiro tempo. Gilson Nunes aos 23’ e Luisinho aos 36’ do segundo tempo.

Vasco da Gama: Carlos Henrique; Fidélis, Miguel, Joel, Alfinete; Alcir e Gaúcho; Jorginho (Bill), Ademir (Galdino), Roberto e Luís Carlos. Técnico: Mário Travaglini. América: Rogério; Orlando, Alex, Geraldo (Mauro) e Álvaro; Ivo e Renato; Flecha, Luisinho, Edu e Gilson Nunes. Técnico: Danilo Alvim. 

Pelo rádio ou pela TV, os velhos camaradas de Cascadura sentiam orgulho do sucesso do zagueiro Geraldo, o amigo de longa data.

Zico e Geraldo em acirrada disputa de bola no Maracanã. Crédito: revista Placar – 20 de maio de 1977.

No ano seguinte Geraldo assinou por 9.500 cruzeiros mensais, bem menos do que era pago aos principais “cobrões” do time. Para piorar, os dirigentes adotaram um salário teto e Geraldo foi impedido de negociar.

Até que em novembro de 1976 o América vendeu o passe de Geraldo ao Club de Regatas Vasco da Gama por 1 milhão e 400 mil cruzeiros.

Além de Geraldo, o time da “Colina” também acertou a transferência de Orlando Pereira, mais conhecido como “Orlando Lelé”.

Geraldo fez parte da defesa vascaína que ficou conhecida como “Linha do Inferno”, pois raramente era vazada: Orlando, Abel, Geraldo e Marco Antônio.

E foi no Vasco, ao lado de Abel, que Geraldo viveu uma grande fase ao conquistar a Taça Guanabara e o campeonato carioca de 1977.

Crédito: revista Placar – 14 de outubro de 1977.

Crédito: revista Placar – 14 de outubro de 1977.

No segundo semestre de 1978 Geraldo sofreu uma séria contusão no Tendão de Aquiles e precisou ficar ausente dos gramados durante seis meses.

Em 1979 foi negociado com o Club León do México e só retornou ao futebol brasileiro de forma definitiva em 1983, quando firmou com o Sport Club Internacional. Geraldo deixou os gramados depois de fraturar a tíbia e o perônio.

Conforme publicado pela revista Placar, Geraldo faleceu no dia 30 de setembro de 1983 ao cair da janela de seu apartamento, na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro.

E no bairro de Cascadura, um pequeno rádio de pilha se encarregou de levar aos amigos a notícia amarga da partida de Geraldo.

Crédito: albumefigurinhas.no.comunidades.net.

Crédito: revista Placar – 23 de fevereiro de 1979.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Raul Quadros, José Trajano, Maria Helena Araújo e Luís Augusto Chabassus), revista Manchete Esportiva, Jornal do Brasil, Jornal O Globo, Jornal dos Sports, vasco.com.br, campeoesdofutebol.com.br, albumefigurinhas.no.comunidades.net.

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