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Dias antes de qualquer confronto decisivo do campeonato paulista, uma mesma pergunta era ouvida em vários lugares da cidade: Domingo é o alemão que vai apitar?

Maluco, playboy e valentão. Rótulos nunca lhe faltaram! Dulcídio foi acusado até de desonesto por seus desafetos. No entanto, nunca foi possível ignorar a sua reputação como um dos melhores árbitros do Brasil.

Longe das obrigações do “apito”, Dulcídio era considerado um homem de poucos caprichos! Gostava de assistir novelas, de cuidar do pequeno aquário e de fazer compotas de frutas.

Também conhecido por “Alemão”, Dulcídio Wanderley Boschilia nasceu na cidade de São Paulo (SP), em 4 de janeiro de 1938.

Além de árbitro de futebol, Dulcídio foi Guarda Civil e Sargento da Polícia Militar. Trabalhou como escriturário no antigo DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna) e fez parte dos quadros da ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar).

Olhar fixo e mãos para trás! Dulcídio parece paralisado diante da magia de Pelé no gramado do Parque Antártica. Crédito: revista Placar número 174 – 13 de julho de 1973.

Em entrevista publicada nas páginas da revista Placar em 15 de dezembro de 1986, o “Alemão” revelou alguns detalhes de sua carreira policial:

– “Tenho vários processos na justiça e já bati em muito traficante. Mas eu não batia na covardia! Tirava a camisa e partia para o “mano a mano”. Por isso que a malandragem me respeitava”. 

– “No DOI-CODI eu era apenas um escriturário e nunca participei da tortura de ninguém. Essa bronca eu não carrego”.

De fato, no livro “Brasil Nunca Mais”, uma obra de autoria de Dom Paulo Evaristo Arns e organizada pela Arquidiocese de São Paulo, seu nome não consta no rol dos torturadores.

Na juventude, o espigado Dulcídio era o goleiro do segundo quadro de um time chamado Anay, no bairro de Santana, Zona Norte da cidade de São Paulo. Nos jogos do primeiro quadro Dulcídio apitava e com isso foi ganhando fama!

Destemido e disciplinador, para Dulcídio o regulamento nunca teve cor de camisa! Fotos de Lemyr Martins. Crédito: revista Placar – 15 de novembro de 1974.

Dulcídio foi um dos grandes nomes da arbitragem nacional. Foto de Lemyr Martins. Crédito: revista Placar – 15 de novembro de 1974.

Até que um dia, Dulcídio foi humilhado pelo pai ao pedir dinheiro para passar o final de semana. Envergonhado, o jovem prometeu que em pouco tempo seu nome seria famoso no Brasil inteiro.

Entrou para os quadros da Polícia e fez sua matrícula no Curso de Arbitragem da Federação Paulista e Futebol. Bem avaliado no aprendizado do “apito”, seu nome era recomendado inclusive para partidas na Casa de Detenção de São Paulo.

Paralelamente ao trabalho na Polícia, Dulcídio conquistou especial prestígio com os “figurões” da Federação. Era considerado o homem certo para suportar o ambiente competitivo das divisões de acesso do interior paulista.

O narrador Osmar Santos, que se destacou no início de sua carreira na cidade de Marília, sempre considerou Dulcídio o cara mais louco que conheceu!

Em um jogo na cidade de Penápolis, entre Penapolense e São Bento de Marília, Dulcídio foi pressionado para favorecer o time da casa! Com segurança precária, o “Alemão” precisou sacar um revólver para assustar os valentões.

Estrelas de mais um “Derby” no Morumbi: Roberto Rivellino, Dulcídio Wanderley Boschilia e Ademir da Guia. Crédito: globoesporte.globo.com.

O “catimbeiro” Waldir Peres é advertido por Dulcídio. A bronca rolou antes das penalidades decisivas entre São Paulo e Portuguesa de Desportos em 1975. Crédito: revista Veja.

Durante grande parte de sua carreira como árbitro, o pontual Dulcídio chegava aos estádios acompanhado de sua inseparável mochila, cujo conteúdo sempre fez questão de manter em absoluto segredo!

Sempre lembrado por suas grandes atuações em confrontos decisivos, Dulcídio também foi um excelente bandeirinha, como aconteceu no polêmico “Choque Rei” que definiu o título paulista de 1971, no Morumbi.

Naquele domingo de 27 de junho de 1971, o São Paulo vencia o Palmeiras por 1×0, gol marcado por Toninho Guerreiro aos 5 minutos da primeira etapa. Tudo corria bem, até Leivinha marcar de cabeça o gol de empate do alviverde.

O gol manteria o Palmeiras com chances de chegar ao título, já que o resultado de empate ainda era favorável ao São Paulo. Mas, o árbitro Armando Marques anulou o gol entendendo que Leivinha usou a mão para finalizar.

Enquanto isso, o bandeira Dulcídio corria para o centro do gramado para validar o lance: “Corri para o centro do campo porque o gol foi mesmo legítimo… Pouco me importa se o Armando me chamou de desleal depois do jogo”.

Uma atuação marcante na discutida final do campeonato paulista de 1977. Crédito: gazetaesportiva.com.

Os anos de chumbo! Dulcídio foi Guarda Civil e Sargento da Polícia Militar. Crédito: revista Placar – 11 de dezembro de 1981.

Disciplinador quanto ao efetivo cumprimento das regras, Dulcídio ficou marcado na carreira do ex-goleiro e treinador Emerson Leão.

Em partidas do Palmeiras diante do Corinthians e da Portuguesa de Desportos, Dulcídio mandou voltar por várias vezes a cobrança de penalidades máximas, atitude motivada pelo adiantamento de Leão antes de sua autorização.

Com um rico histórico, Dulcídio trabalhou nas decisões do campeonato nacional de 1975 e 1988, além das finais no campeonato paulista de 1974, 1975, 1977, 1981, 1983, 1986 e 1987.

Dulcídio revelou que sua final inesquecível foi entre Corinthians e Palmeiras em 1974, quando testemunhou uma multidão de torcedores alvinegros deixar o Morumbi completamente desolados, mas sem contestar sua arbitragem!

Ainda em 1974, Dulcídio foi chamado na Federação Paulista de Futebol para ser comunicado sobre sua nomeação como árbitro da FIFA. Dias depois, o próprio Álvaro Paes Leme revelou o cancelamento da referida indicação.

Sócrates e Dulcídio. Muita água e pouca bola! Foto de Nico Esteves. Crédito: revista Placar – 23 de dezembro de 1983.

Em 1977 mais uma vez seu nome foi manchete na imprensa esportiva. Antes do terceiro jogo decisivo entre Corinthians e Ponte Preta, Dulcídio ficou sabendo que era procurado insistentemente por três homens no prédio da Federação.

Os gatunos afirmavam que tinham uma encomenda que só poderia ser entregue para ele. Depois da famosa noite de 13 de outubro de 1977, o assunto voltou ao noticiário!

Perplexo, Dulcídio finalmente ficou sabendo que foi “comprado” pela quantia de Dois milhões de cruzeiros. Em entrevista na revista Placar de 27 de dezembro de 1985, o árbitro colocou um ponto final no assunto:

– “Alguém levou esse dinheiro! Se fosse comigo eu toparia encontrar os caras até receber o pacote em minha mãos. Em seguida daria voz de prisão para esse bando de canalhas”.

Seu nome ainda foi envolvido em outra denúncia em 1983. Aconteceu em Natal (RN), quando supostos dirigentes queriam fabricar um resultado entre América e ABC. Dulcídio aceitou o cheque para depois usar como prova de suborno. Não conseguiu provar nada e ainda correu o risco de levar um processo.

Como goleiro (esquerda), Dulcídio reclamava muito das arbitragens! Mas o destino o reservou um lugar especial no “ofício do apito”. Crédito: revista Placar – 27 de dezembro de 1985.

“Podem me chamar de louco ou qualquer coisa, menos de desonesto”. Crédito: revista Placar – 27 de dezembro de 1985.

Na partida decisiva do campeonato paulista de 1987, entre Corinthians e São Paulo, Dulcídio entrou em campo com a sombra de que não teria condições psicológicas para tamanha responsabilidade.

No mês de agosto, Dulcídio estava ao volante de seu Monza quando bateu na traseira de um caminhão na Rodovia Castelo Branco. O acidente aconteceu no retorno para São Paulo, depois de apitar uma partida entre Tupã e Palmital.

No leito do Hospital, Dulcídio recebeu a triste notícia do falecimento de Berenice, sua segunda esposa. No automóvel também estavam os bandeirinhas Daniel Fernandes e Edimauro Garcia, que sofreram fraturas, mas escaparam com vida!

Formado em Direito em 1982, Dulcídio terminou sua carreira policial no cargo de Investigador na Policia Civil. Embora nunca tenha confirmado publicamente, os mais íntimos afirmavam que seu time de coração era o São Paulo Futebol Clube.

Dulcídio Wanderley Boschilia, que encerrou sua carreira como árbitro em 1988, faleceu na cidade de São Paulo (SP) no dia 14 de maio de 1998.

“Já me compraram muitas vezes. O problema é que eu não sabia”. Fotos de Nélson Coelho. Crédito: revista Placar – 15 de dezembro de 1986.

Fatalidade na estrada! Foto de Nélson Coelho. Crédito: revista Placar – 24 de agosto de 1987.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Ari Borges, Carlos Maranhão, Célio Apolinário, Lemyr Martins, Nélson Coelho, Nélson Urt, Nico Esteves e Roberto Salim), revista Grandes Clubes Brasileiros, revista Manchete Esportiva, revista Veja, Jornal A Gazeta Esportiva, apitonacional.com.br, campeoesdofutebol.com.br, gazetaesportiva.com, globoesporte.globo.com, site do Milton Neves (por Marcelo Rozenberg).