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Armando Marques, o árbitro mais discutido da história do futebol brasileiro, até hoje é reconhecido como a maior referência do apito.

Vaidoso, costumava entrar em campo com os cabelos cuidadosamente penteados para trás. O uniforme, sempre alinhado e engomado, era desenhado pelo famoso e caro estilista Denner.

Armando Nunes Castanheira da Rosa Marques nasceu na cidade do Rio de Janeiro (RJ), em 6 de fevereiro de 1930.

Conforme publicado pelo site apitonacional.com.br, a primeira partida que apitou profissionalmente foi em 13 de agosto de 1961. A última aconteceu no dia 8 de maio de 1977.

Ao todo, foram 1896 partidas, com 128 delas em compromissos internacionais, inclusive nas Copas do Mundo de 1966 e 1974, além de sua atuação no jogo inaugural do Estádio Olímpico de Munique em 1972, na Alemanha.

Crédito: casadoarbitro.wordpress.com.

Em 1997 voltou ao cenário esportivo ao assumir o comando da Comissão de Arbitragem da CBF, no lugar de Ivens Mendes, oportunidade em que pregou o resgate da credibilidade, mas pouco fez para cumprir a promessa.

Mesmo depois de deixar a arbitragem e a Comissão de Arbitragem da CBF, Armando Marques era costumeiramente lembrado em programas esportivos e reportagens.

Em 8 de novembro de 1985, a revista Placar ofereceu aos leitores uma entrevista reveladora, com segredos e memórias de um homem de personalidade forte.

Em seu elegante e confortável apartamento em Ipanema, no Rio, Armando Marques falou por quatro horas seguidas ao repórter Marcelo Rezende.

Independente do tema, Armando nunca se negou em falar abertamente sobre sua extensa e polêmica carreira como árbitro. Uma situação bem diferente dos últimos anos de vida.

Crédito: Livro: Armando Marques o Mito – João Areosa – Editora Gernasa.

Comentarista esportivo, ex-editor de livros, empresário do setor imobiliário e dono de quatro cavalos no Jockey Club do Rio de Janeiro, Armando Marques fez questão de mostrar que sua vida não ficou resumida aos tempos do apito.

Com seu estilo teatral e dedo em riste, uma espécie de batuta que carregou ao longo dos anos, Armando sempre chamou os jogadores pelo nome para evitar maiores intimidades.

Não era um árbitro que se limitava ao ato de marcar uma falta e sair rapidamente do ângulo das câmeras. Armando adotava uma postura imponente, o que fazia com que todo o estádio fosse testemunha do que estava para acontecer.

Para Armando, o cartão amarelo ou vermelho era apenas uma cartolina colorida, que sem a devida advertência não valia de nada. Sem arredar um passo, Armando exigia que o jogador fosse até ele, mesmo que o jogo ficasse parado por um tempo considerável:

– Por favor, venha até aqui cavalheiro. O senhor está sendo advertido por uma entrada desleal em um companheiro de profissão. 

Crédito: revista Placar número 44 – 15 de janeiro de 1971.

Crédito: revista Placar número 44 – 15 de janeiro de 1971.

E não importava se o jogador era famoso ou apenas um garoto que estava começando. Armando Expulsou Pelé em várias oportunidades.

– Pelé tinha um gênio forte e tentava, de certa forma, me intimidar. Roberto Rivellino um temperamental, que jogava a torcida contra a minha arbitragem. O Gerson um indisciplinado e o Amarildo um grande ranheta.

Por outro lado, Armando foi surpreendido ao levar um safanão desferido por Nilton Santos em seu habitual “dedo em riste”. Fato que preferiu deixar de lado na Súmula do jogo entre Botafogo e Corinthians em 1964.

Sobre ser chamado de “bicha” nas arquibancadas, Armando apresentava uma resposta no mínimo interessante:

– Era minha marca registrada. Eu mesmo provoquei isso com meus trejeitos de Cármen Miranda. Mas enquanto me chamavam de “bicha” poupavam minha querida mãe. 

Crédito: revista Placar número 44 – 15 de janeiro de 1971.

Armando Marques mostra o cartão amarelo para Terto. Crédito: revista Placar.

Entre erros grosseiros e atuações consideradas questionáveis, Armando reconheceu algumas trapalhadas publicamente, embora ainda demonstrasse uma postura autoritária ao falar de cada um:

– 15 de agosto de 1963 – Campeonato Paulista – São Paulo 4×1 Santos – Estádio do Pacaembu.

No jogo que ficou conhecido como “Cai-Cai”, Armando Marques foi o personagem da partida ao expulsar vários jogadores do Santos, o que impediu que o confronto fosse até o seu final regulamentar.

Pelé e Coutinho saíram de campo revoltados. Aos repórteres, os santistas declararam que apenas reclamaram de lances considerados normais e que não era preciso expulsar ninguém.

– Depois do jogo, me mandaram publicamente ao “pelourinho” pelas expulsões dos jogadores do Santos. Mas naquele dia eu dormi muito bem. Sabia que tinha feito uma grande arbitragem.

Crédito: revista Placar – 8 de dezembro de 1972.

Leivinha e Eurico argumentam com Armando Marques. Mas não adiantou. Leivinha foi expulso no histórico “Derby” dos 4×3 para o Corinthians em 1971. Crédito: revista Placar.

– 4 de dezembro de 1966 – Campeonato paulista segundo turno – São Paulo 2×1 Corinthians – Estádio do Pacaembu.

Quando o São Paulo vencia por 2×0, Roberto Rivellino acertou um chute forte, que furou a rede lateral e entrou na meta do São Paulo. 

– Confirmei o gol do Corinthians e mantive minha decisão, mesmo diante da indignação dos jogadores do São Paulo. Mas, honestamente, fiquei com uma impressão bem clara de que a bola entrou mesmo. 

– 13 de outubro de 1968 – Torneio Roberto Gomes Pedrosa – Fluminense 1×0 Flamengo – Estádio do Maracanã.

O gol de mão de Wílton do Fluminense, em impedimento, foi testemunhado por todos os presentes. Só Armando não notou, apesar da revolta dos jogadores do time da Gávea.

Armando Marques, ao centro, entre os jogadores de São Paulo e Palmeiras. Crédito: revista Placar número 126.

– 27 de junho de 1971 – Final do campeonato paulista – São Paulo 1×0 Palmeiras – Estádio do Morumbi.

Com um gol marcado por Toninho Guerreiro, o São Paulo vencia o jogo até o gol de empate marcado por Leivinha. A igualdade no marcador ainda era favorável ao São Paulo.

Enquanto o bandeira Dulcídio Wanderley Boschilia corria para o centro do gramado para validar o gol do Palmeiras, Armando anulou o tento do atacante alviverde alegando que o mesmo utilizou a mão para mandar a bola para o fundo das redes.

Depois do jogo, ainda nos vestiários, Armando Marques acusou Dulcídio de ser um companheiro desleal por conceder entrevistas mantendo sua opinião sobre a legalidade do gol.

“Corri para o centro do campo porque o gol foi legítimo”, afirmava sem titubear o bandeirinha Dulcídio aos ávidos repórteres das rádios paulistas.

Na final do campeonato paulista de 1973, Calegari (ao centro) desperdiçou mais uma cobrança de penalidade. Ao lado, o goleiro Cejas (de costas para o árbitro Armando Marques) comemora nos braços de Pelé. Crédito: acervosantosfc.com.

– 26 de agosto de 1973 – Final do campeonato paulista – Santos 0x0 Portuguesa de Desportos – Estádio do Morumbi.

A mais famosa das trapalhadas. A primeira polêmica do jogo aconteceu no gol anulado do centroavante Cabinho da Portuguesa.

Depois do empate sem abertura de contagem no tempo normal e na prorrogação, Armando errou na contagem das penalidades e declarou o Santos campeão de forma antecipada.

A Lusa ainda mantinha chances matemáticas de empatar e provocar uma série alternada de pênaltis. A Portuguesa se negou em voltar ao gramado e o título acabou dividido.

Crédito: revista Placar – 8 de novembro de 1985.

– 1 de agosto de 1974 – Final do campeonato nacional – Vasco da Gama 2×1 Cruzeiro – Estádio do Maracanã.

Próximo do final da partida, o volante Zé Carlos do Cruzeiro, atrás da linha da bola, marcou de cabeça o gol de empate do quadro mineiro. Armando Marques anulou o gol sem nenhum motivo aparente de irregularidade.

Imitado e repudiado ao longo de sua carreira, Armando Marques foi uma verdadeira legenda no tempo dos “homens de preto”, uma época onde também não era preciso se preocupar com nenhuma espécie de “tira teima”.

Armando Marques faleceu com insuficiência renal no Rio de Janeiro (RJ), em 17 de julho de 2014.

Armando Marques em foto de Ricardo Beliel. Crédito: revista Placar – 8 de novembro de 1985.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Divino Fonseca, Lenivaldo Aragão, Marcelo Rezende, Marcos Nunes e Teixeira Heizer), revista do Esporte, revista Manchete, revista Manchete Esportiva, revista O Cruzeiro, revista Fatos e Fotos, revista Grandes Clubes Brasileiros, gazetaesportiva.net, campeoesdofutebol.com.br, apitonacional.com.br, casadoarbitro.wordpress.com, mg.superesportes.com.br, acervosantosfc.com, site do Milton Neves (por Marcelo Rozenberg), Livro: Armando Marques o Mito – João Areosa – Editora Gernasa.

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