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Os primeiros raios de sol brindam o belo cenário da enseada da Urca. Em meio ao firme silêncio da recém finada madrugada, uma figura popularíssima parece seguir decidido no caminho da praia.

Vestido com um velho calção puído e pés no chão, o jornal debaixo do braço e uma inconfundível careca lustrosa, Mário Vianna ainda transborda vitalidade para nadar os costumeiros 300 metros diários.

Depois da água, o velho careca ainda reserva energias para sua ginástica diária no calçadão, onde também encontra os velhos amigos, sempre prontos para uma boa prosa.

Histórias de quem já foi um pouco de tudo na vida; Árbitro de futebol, baleiro, comentarista de rádio, engraxate, empacotador de velas, fiscal da Guarda Civil, jornaleiro, policial e treinador de futebol.

Com o peculiar vozeirão, Mário Vianna resume em poucas palavras sua trajetória de vida: “Só não roubei. O resto fiz de tudo um pouco”.

Nunca gostou de jogar futebol, mas o destino o escolheu para brilhar nos gramados. Crédito: revista O Globo Sportivo.

Filho do simpático casal; Carlos Gonçalves Vianna e dona Alexandrina Gonçalves Vianna, Mário Gonçalves Vianna nasceu na cidade do Rio de Janeiro (RJ), em 6 de setembro de 1902.

Criado na Rua Figueira de Melo, no bairro de São Cristóvão, o pequeno e peralta Mário Vianna deixava de lado o prazer das brincadeiras para encarar o trabalho como empacotador na Fábrica de Velas Globo.

Ganhava 20 mil Réis por mês, o suficiente para ajudar nas despesas da casa e ainda guardar um pouco, uma economia sofrida e destinada ao tão sonhado par de sapatos.

No período noturno, o menino estudava no Colégio Gonçalves Dias, onde ficou até concluir o curso ginasial. Nas horas vagas praticava natação e remo no clube de coração, o São Cristóvão.

Aos 17 anos de idade tomou uma decisão arriscada ao falsificar os documentos para ingressar na Polícia Especial, ocupação que mais tarde promoveu sua fama de “pavio curto”, bem como o apelido de “Leão”.

Primeiro colocado na turma da Escola de Arbitragem de 1932. Crédito: revista Esporte Ilustrado.

A fama de “durão” ganhou espaço rapidamente. Crédito: revista Grandes Clubes Brasileiros.

Na Polícia Especial, com os insistentes convites para jogar futebol, Mário Vianna precisou encontrar uma forma de participar do lazer da moçada. Colocou um apito na boca e assim foi conquistando fama e respeito.

E foi apitando peladas, que o companheiro José Pereira Peixoto o convenceu em fazer o curso de árbitro na Liga Metropolitana.

Aprovado como primeiro colocado na turma da Escola de Arbitragem de 1932, Mário Vianna logo percebeu que tinha encontrado no apito muito mais do que uma ocupação complementar.

Conforme publicado pela revista Placar de 21 de agosto de 1981, sua primeira participação como árbitro ocorreu em uma partida na categoria juvenil entre o Girão de Niterói e o São Cristóvão.

Nesse jogo, Mário Vianna definiu o estilo disciplinar e rigoroso que marcaria sua carreira para sempre. Expulsou o temido Mato Grosso, um zagueiro valentão do seu querido São Cristóvão!

O chuveiro te espera! Mário Vianna coloca os jogadores do Bangu na linha. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 822 – 7 de janeiro de 1954.

Vestindo a camisa do selecionado carioca, Nilton Santos aparece ao lado do árbitro Mário Vianna. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 886 – 31 de março de 1955.

A fama de “durão” ganhou espaço rapidamente! Foi mais do que suficiente para Mário Vianna subir no conceito dos chefões da federação. Em pouco tempo, seu nome era complemento indispensável nos grandes clássicos do cenário carioca.

Além de bom tecnicamente, Mário Vianna não costumava deixar passar qualquer detalhe. Como aconteceu naquele Botafogo e Flamengo, em General Severiano, quando expulsou alguns jogadores do Flamengo.

A atitude causou revolta entre os torcedores do Flamengo, que tomados de fúria atiraram garrafas e pedras no gramado. Contudo, Mário Vianna não teve dúvidas ao devolver tudo para o cume das arquibancadas.

Mário Vianna nunca foi um homem de “papo furado” ou meias-medidas. Foi o responsável pela única expulsão na carreira do craque Domingos da Guia.

Poucos ousavam enfrentar sua notória autoridade! Mas o próprio Mário Vianna admitia que alguns destemperados davam trabalho; como Heleno de Freitas e Zizinho!

Partindo da esquerda; Bauer, o árbitro Mário Vianna e Bellini. Crédito: revista Manchete Esportiva número 37 – 4 de agosto de 1956.

Qualquer jogador sabia! Nunca foi bom negócio peitar o árbitro Mário Vianna. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 961 – 6 de setembro de 1956.

Na fase de grupos da Copa do Mundo de 1954, Mário Vianna também colocou rédeas curtas no famoso atacante italiano Giampiero Boniperti. Foi durante o confronto entre Itália e Suíça.

Boniperti pagou um preço muito alto ao partir para cima do árbitro brasileiro aos berros e empurrões. Sem pensar muito, Mário Vianna colocou um “direto” bem no queixo do dianteiro italiano.

Enquanto mandava retirar o jogador de maca para os vestiários, Mário Vianna ainda orientou o massagista da Itália: “Se ele apresentar condições pode voltar para o segundo tempo”. E Boniperti voltou bem mansinho!

Outra passagem curiosa aconteceu em um clássico entre Botafogo e Vasco da Gama. Depois de expulsar Nilton Santos por ofensas morais ao bandeirinha, Mário Vianna decidiu esclarecer melhor o acontecimento no intervalo.

No vestiário da arbitragem tratou de pressionar o colega “bandeirinha”, que assustado revelou que tinha mentido. Então, Mário Vianna foi ao vestiário do Botafogo e ofereceu suas desculpas para Nilton Santos.

Partindo da esquerda; Rafagnelli, o árbitro Mário Vianna e Carlyle. Crédito: revista O Globo Sportivo número 679.

Truculento? Talvez! Mas acima de tudo um homem honesto. Foto de Ignácio Ferreira. Crédito: revista Placar – 21 de agosto de 1981.

Truculento? Talvez! Mas acima de tudo um homem honesto que fez muita fama nos tribunais esportivos. Certa vez foi suspenso por 30 dias ao reconhecer em súmula que validou um gol irregular do Flamengo.

O pior castigo recebido por Mário Vianna foi sua exclusão sumária do quadro de árbitros da poderosa FIFA.

Tudo aconteceu depois que Mário Vianna denunciou um encontro entre Puskas e o árbitro inglês Mr. Arthur Edward Ellis, justamente na véspera do jogo entre Brasil e Hungria pelo mundial de 1954.

Mário Vianna estava de folga no Hotel, quando da acanhada janela do banheiro de seu apartamento flagrou Puskas e Mr. Ellis conversando em particular.

Com a derrota do Brasil e a atuação desastrosa de Mr. Ellis, Mário Vianna contou tudo o que sabia aos homens da imprensa. Intitulou a FIFA de “camarilha” de ladrões e assim deu adeus aos quadros da entidade.

Poucos ousavam enfrentar sua notória autoridade! Imagem Arquivo O Globo. Crédito: revista Placar – 21 de agosto de 1981.

A pior punição foi sua exclusão do quadro de árbitros da FIFA. Foto de Ignácio Ferreira. Crédito: revista Placar – 21 de agosto de 1981.

Mas não se emendou! Na Copa do Mundo de 1970, o então comentarista Mário Vianna desembarcou com 18 algemas na bagagem. Perguntado sobre o motivo das algemas, o ex-árbitro disparou: “É para prender ladrões vestidos de preto”.

Adepto da doutrina Kardecista, Mário Vianna era um homem dotado de alguns sentimentos estranhos e premonições. Das cabines de imprensa, o bom careca foi capaz de adivinhar o placar de incontáveis partidas.

Sua despedida dos gramados aconteceu em 1957. Foram de 25 anos de carreira nas federações carioca, paulista e pernambucana; além da participação nas Copas do Mundo de 1950 e 1954.

Trabalhou também como treinador no Palmeiras, Portuguesa de Desportos e São Cristóvão. Como comentarista de arbitragem ou radialista, o sempre polêmico Mário Vianna também colecionou muitos causos e gafes!

Mário Gonçalves Vianna faleceu na cidade do Rio de Janeiro (RJ), em 16 de outubro de 1989.

Mário Vianna nunca foi um homem de meias-medidas! Crédito: revista Placar – 27 de setembro de 1985.

Como comentarista de arbitragem ou como radialista, o sempre polêmico Mário Vianna também colecionou causos e gafes! Fotos de Ricardo Beliel. Crédito: revista Placar – 27 de setembro de 1985.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Hideki Takizawa, Ignácio Ferreira, Ricardo Beliel e Rodolpho Machado), revista A Gazeta Esportiva Ilustrada, revista do Esporte, revista Esporte Ilustrado (por Alberto Ferreira, Jorge Miranda, José Santos, Leunam Leite, Levy Kleiman, Luís Mendes, Sérgio Lopes e Valter Sales), revista Grandes Clubes Brasileiros, revista Manchete, revista Manchete Esportiva, revista O Cruzeiro, revista O Globo Sportivo, Jornal A Gazeta Esportiva, Jornal do Brasil, Jornal dos Sports, Jornal O Globo, acervo.oglobo.globo.com, campeoesdofutebol.com.br, gazeta esportiva.net, globoesporte.globo.com, oglobo.globo.com, site do Milton Neves.