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Nas linhas escritas pelo compositor Lamartine Babo, o amor pelo Flamengo e o destino funesto pareciam capítulos previamente traçados na caminhada de Gilberto Ferreira Cardoso.

Conforme publicado pela revista Grandes Clubes Brasileiros, Gilberto Cardoso trabalhava como Médico-Chefe da Policlínica do Rio de Janeiro, função em que solicitou o pronto afastamento tão logo foi eleito para presidir o Clube de Regatas do Flamengo.

Já era viúvo quando recebeu a administração do Flamengo em 1951. Até então, o pacato e jovem senhor dedicava seu tempo exclusivamente aos afazeres da medicina e ao filho único, o hoje advogado Gilberto Cardoso Filho, que também presidiu o clube.

Sucedendo o presidente Dario de Mello Pinto, Gilberto Cardoso encontrou o clube em uma grave crise administrativa e financeira, o que certamente não passava na cabeça de ninguém!

Afinal, com o aparecimento do Maracanã, a temporada de 1950 espelhava nas arquibancadas um bom e considerável resultado de bilheteria.

A estátua do presidente Gilberto Cardoso na Gávea. Crédito: revista Grandes Clubes Brasileiros.

Nos planos de Gilberto Cardoso, o Estádio da Gávea precisava ser ampliado. Crédito: revista Grandes Clubes Brasileiros.

A crise também afetava o “carro-chefe” do futebol. Com o longo jejum de títulos, que se estendia desde o tricampeonato de 1944, os episódios de conflito e desatinos foram aos poucos minando a tolerância dos torcedores.

Um dos primeiros que pagou o preço dessa intolerância foi o craque Jair Rosa Pinto, que teve sua camisa “simbolicamente” queimada depois da goleada sofrida para o Vasco por 5×2 em 1949.

Além disso, como esquecer da milionária venda do fenomenal Zizinho ao Bangu, o que foi considerado um desatino imperdoável.

Com o afastamento do técnico Flávio Costa em dezembro de 1952, o presidente Gilberto Cardoso decidiu inovar.

Assim, o ex-jogador Jayme de Almeida foi o escolhido para comandar o time em janeiro de 1953. No entanto, os resultados ficaram abaixo do esperado, com apenas 4 vitórias em 19 partidas disputadas.

Ary Barroso e o presidente do Flamengo Gilberto Cardoso. Crédito: museudosesportes.blogspot.com.br.

Na missa pelo bicampeonato carioca, Gilberto Cardoso aparece em primeiro plano; de terno escuro e óculos de sol. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 885 – 24 de março de 1955.

Impressionado com a aplicação tática do selecionado do Paraguai, que faturou o campeonato Sul Americano em 1953, Gilberto Cardoso estava convencido: Fleitas Solich era o homem ideal para recuperar o prestígio perdido!

E o time realmente renasceu na mão do “feiticeiro” Fleitas Solich. Com o bicampeonato de 1953 e 1954, o Flamengo voltou ao pedestal máximo do cenário carioca.

Com o futebol de volta aos trilhos e o orçamento do clube controlado, Gilberto Cardoso aproveitava para dedicar algum tempo ao basquete, reconhecidamente sua segunda paixão depois do futebol.

Regularmente, sua presença era carta marcada nos duelos do esporte da “cestinha”, modalidade em que o “Rubro Negro” mantinha total supremacia de títulos desde 1951.

Em uma dessas empreitadas, Gilberto Cardoso estava no Maracanãzinho para acompanhar a primeira partida da fase final do campeonato carioca de basquete.

O técnico Fleitas Solich e o presidente Gilberto Cardoso. Crédito: museudosesportes.blogspot.com.br.

Para Gilberto Cardoso, não importava o tipo de modalidade. O Flamengo precisava ser forte nos gramados e nas quadras esportivas. Crédito: revista Os Desportos.

Na ocasião, o Flamengo do técnico Kanela perdia para o Sírio Libanês. Faltando 3 segundos para o término do confronto, o jogador “Guguta” acertou um arremesso perfeito, próximo da linha divisória da quadra.

A bola viajou e balançou o barbante do Sírio Libanês. Os 2 pontos decretaram o emocionante triunfo do Flamengo pela contagem de 45×44. Contudo, o feliz arremesso também acertou em cheio o coração vermelho e preto de Gilberto Cardoso.

Os acontecimentos de sua saída repentina do ginásio são apresentados em várias versões nas literaturas esportivas.

Conforme publicado no site globoesporte.globo.com, Gilberto Cardoso passou mal e deixou o Maracanãzinho em seu próprio automóvel, um Cadillac Azul, “Rabo de Peixe”, mas passou mal no caminho e foi socorrido por um taxista.

No Pronto Socorro Hospital Souza Aguiar, o presidente procurou atendimento e foi encaminhado diretamente para o oxigênio. Nas primeiras horas do dia 26 de novembro, o coração de Gilberto Cardoso não resistiu!

Uma multidão acompanha o féretro do presidente Gilberto Cardoso. Crédito: Jornal Correio da Manhã (Arquivo Nacional).

Muita comoção no cortejo fúnebre do presidente do Flamengo. Crédito: revista O Mundo Ilustrado número 44 – 28 de novembro de 1955.

O cortejo fúnebre mobilizou milhares de pessoas até o Cemitério São João Batista, uma melancólica caminhada acompanhada de personagens humildes e ilustres, que abatidos pareciam não acreditar no lamentável infortúnio!

Sensibilizados, os jogadores do elenco profissional de futebol estabeleceram um pacto pelo tricampeonato. Todavia, o certame de 1955 só foi decidido em 4 de abril de 1956, quando Dida marcou os 4 gols da goleada sobre o América, resultado que garantiu o segundo tricampeonato da história do clube.

Os jogadores cumpriram o prometido e foram ao túmulo de Gilberto Cardoso, uma cena registrada nas fotografias publicadas pela revista Manchete Esportiva.

A memória de Gilberto Cardoso permanece viva, tanto no coração dos torcedores como também na estátua nas dependências da Gávea.

Nota: A conquista do pentacampeonato de basquete (1951-1952-1953-1954-1955) só foi consolidada em 19 de dezembro, contra o mesmo Sírio Libanês, com uma vitória por 58×52.

A imagem do presidente Gilberto Cardoso na edição comemorativa da festa do tricampeonato. Crédito: revista Álbum Rubro Negro – 1956.

Promessa cumprida. O título para Gilberto! Partindo da esquerda; Joel, Dida e Dequinha. Foto de Ângelo Gomes. Crédito: revista Manchete Esportiva número 21 – Abril de 1956.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Marcelo Duarte), revista Álbum Rubro Negro, revista do Esporte, revista Esporte Ilustrado, revista Grandes Clubes Brasileiros, revista Manchete, revista Manchete Esportiva (por Ângelo Gomes), revista O Mundo Ilustrado, revista Os Desportos, Jornal Correio da Manhã, Jornal do Brasil, Jornal dos Sports, Jornal O Globo, Jornal Última Hora, agenciaoglobo.com.br, campeoesdofutebol.com.br, flamengo.com.br, gazeta esportiva.net, globoesporte.globo.com (por Fred Gomes), museudosesportes.blogspot.com.br, oglobo.globo.com, site do Milton Neves (por Marcelo Rozenberg).

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