Tags

, , ,

Nas linhas escritas pelo compositor Lamartine Babo, o amor pelo Flamengo e o destino funesto pareciam capítulos previamente desenhados na caminhada de Gilberto Ferreira Cardoso.

Conforme publicado pela revista Grandes Clubes Brasileiros, Gilberto Cardoso trabalhava como Médico-Chefe da Policlínica do Rio de Janeiro, função em que solicitou o seu pronto afastamento tão logo foi eleito para presidir o Clube de Regatas do Flamengo.

Já era viúvo quando recebeu a administração do Flamengo em 1951. Até então, o pacato e jovem senhor dedicava seu tempo exclusivamente aos afazeres da medicina e ao filho único, o hoje advogado Gilberto Cardoso Filho, que também presidiu o clube.

Sucedendo o presidente Dario de Mello Pinto, Gilberto Cardoso encontrou o clube em uma grave crise administrativa e financeira, o que certamente não passava na cabeça de ninguém!

Afinal, com o aparecimento do Maracanã, a temporada de 1950 espelhava nas arquibancadas um bom e considerável resultado de bilheteria.

O presidente Gilberto Cardoso entre Esquerdinha e Biguá. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 755 – 25 de setembro de 1952.

Na missa de agradecimento pelo bicampeonato carioca, Gilberto Cardoso aparece em primeiro plano; de terno escuro e óculos de sol. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 885 – 24 de março de 1955.

Tamanha crise também afetava o “carro-chefe” do futebol. Com o longo jejum de títulos, que se estendia desde o tricampeonato de 1944, os episódios de conflito e desatinos foram aos poucos minando a tolerância dos torcedores.

Um dos primeiros que pagou o preço dessa intolerância foi o craque Jair Rosa Pinto, que teve sua camisa “simbolicamente” queimada depois da goleada sofrida para o Vasco da Gama por 5×2 em 1949.

Além disso, como esquecer da milionária venda do fenomenal Zizinho ao Bangu, o que foi considerado um desatino imperdoável.

Com o afastamento do técnico Flávio Costa em dezembro de 1952, o presidente Gilberto Cardoso decidiu inovar!

Assim, o ex-jogador Jayme de Almeida foi o escolhido para comandar o time em janeiro de 1953. No entanto, os resultados ficaram bem abaixo do esperado, com apenas 4 vitórias em 19 partidas disputadas.

Gilberto Cardoso ao lado do cartaz para sua reeleição! Crédito: revista Esporte Ilustrado número 922 – 8 de dezembro de 1955.

De terno escuro, Gilberto Cardoso aparece durante uma palestra na sede do Flamengo. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 922 – 8 de dezembro de 1955.

Impressionado com a aplicação tática do selecionado do Paraguai, que faturou o campeonato Sul Americano em 1953, Gilberto Cardoso estava convencido: Fleitas Solich era o homem ideal para recuperar o prestígio perdido!

E o time realmente renasceu nas mãos do “feiticeiro” paraguaio Fleitas Solich. Com o bicampeonato de 1953 e 1954, o Flamengo voltou ao pedestal máximo do cenário carioca.

Com o futebol novamente nos trilhos e o orçamento devidamente controlado, Gilberto Cardoso aproveitava para dedicar algum tempo aos assuntos do basquete, reconhecidamente a sua segunda paixão depois do futebol.

Regularmente, sua presença era carta marcada nos duelos do querido esporte da “cestinha”, modalidade em que o “Rubro Negro” mantinha total supremacia de títulos desde 1951.

Em uma dessas empreitadas, Gilberto Cardoso estava no Maracanãzinho para acompanhar a primeira partida da fase final do certame carioca de basquete.

O técnico Fleitas Solich e o presidente Gilberto Cardoso. Uma parceria de muito sucesso! Crédito: museudosesportes.blogspot.com.br.

No conceito de Gilberto Cardoso, não importava o tipo de modalidade. O Flamengo precisava ser forte nos gramados e nas quadras esportivas! Crédito: revista Os Desportos.

Na ocasião, o Flamengo do técnico Kanela perdia para o Sírio Libanês. Faltando apenas 3 segundos para o término do confronto, o jogador “Guguta” acertou um arremesso perfeito próximo da linha divisória da quadra.

A bola viajou e balançou o barbante do Sírio Libanês. Os 2 pontos decretaram o emocionante triunfo do Flamengo pela contagem de 45×44. Contudo, o feliz arremesso também acertou em cheio o coração de Gilberto Cardoso!

Os acontecimentos de sua saída repentina do ginásio são apresentados em várias versões nas literaturas esportivas.

Conforme publicado no site globoesporte.globo.com, Gilberto Cardoso passou mal e deixou o Maracanãzinho em seu próprio automóvel, um Cadillac Azul, “Rabo de Peixe”, mas passou mal no caminho e foi socorrido por um taxista.

No Pronto Socorro Hospital Souza Aguiar, o presidente procurou atendimento e foi encaminhado diretamente para o oxigênio. Nas primeiras horas do dia 26 de novembro, o coração de Gilberto Cardoso não resistiu!

A imagem do presidente Gilberto Cardoso na edição comemorativa do tricampeonato carioca. Crédito: revista Álbum Rubro Negro – 1956.

Promessa cumprida no túmulo do presidente. O título carioca para Gilberto Cardoso! Partindo da esquerda; Joel, Dida e Dequinha. Foto de Ângelo Gomes. Crédito: revista Manchete Esportiva número 21 – Abril de 1956.

O cortejo fúnebre mobilizou milhares de pessoas até o Cemitério São João Batista, uma melancólica caminhada acompanhada de personagens humildes e ilustres, que abatidos pareciam não acreditar no lamentável infortúnio!

Sensibilizados, os jogadores do elenco profissional de futebol estabeleceram um pacto pelo tricampeonato. Todavia, o certame de 1955 só foi decidido em 4 de abril de 1956, quando Dida marcou os 4 gols da goleada sobre o América, resultado que garantiu o segundo tricampeonato da história do clube.

Os jogadores cumpriram o prometido e foram ao túmulo de Gilberto Cardoso, uma cena registrada em fotografias publicadas pela revista Manchete Esportiva.

A memória do presidente Gilberto Cardoso permanece viva, tanto no coração dos torcedores como também em uma estátua nas dependências da Gávea.

Nota: A conquista do pentacampeonato de basquete (1951-1952-1953-1954-1955) só foi consolidada em 19 de dezembro, contra o mesmo Sírio Libanês, com uma apertada vitória por 58×52.

A estátua do presidente Gilberto Cardoso. Monumento merecido na Gávea! Crédito: revista Grandes Clubes Brasileiros.

Nos planos do presidente Gilberto Cardoso, o Estádio da Gávea precisava ser ampliado! Crédito: revista Grandes Clubes Brasileiros.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Marcelo Duarte), revista Álbum Rubro Negro, revista do Esporte, revista Esporte Ilustrado (por Levy Kleiman e Leunam Leite), revista Grandes Clubes Brasileiros, revista Manchete, revista Manchete Esportiva (por Ângelo Gomes), revista O Cruzeiro, revista O Mundo Ilustrado, revista Os Desportos, Jornal Correio da Manhã, Jornal do Brasil, Jornal dos Sports, Jornal O Globo, Jornal Última Hora, agenciaoglobo.com.br, campeoesdofutebol.com.br, flamengo.com.br, gazeta esportiva.net, globoesporte.globo.com (por Fred Gomes), museudosesportes.blogspot.com.br, oglobo.globo.com, site do Milton Neves (por Marcelo Rozenberg).