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Ary Barroso foi um respeitado radialista e também um reconhecido compositor. Ficou famoso por composições de grande sucesso, entre elas a tão aclamada “Aquarela do Brasil” e a memorável “Na baixa do sapateiro”.

Sua paixão desmedida pelos assuntos do Flamengo foi o gatilho responsável por incontáveis e indigestos dissabores. Era um verdadeiro símbolo do Rubro-Negro, um personagem místico e quase intocável.

Filho de João Evangelista Barroso e Angelina de Resende Barroso, o famoso Ary Evangelista de Resende Barroso nasceu no município mineiro de Ubá, em 7 de novembro de 1903.

Estudou na escola da professora Rosa Guido Solero e depois foi transferido para o Externato Mineiro, estabelecimento onde concluiu o curso primário.

Passou em seguida pelo Ginásio São José, momento em que desenvolveu uma enorme facilidade para brincar com o sentido das palavras em suas primeiras composições musicais.

Acima de tudo um torcedor apaixonado! Crédito: revista Placar – 9 de novembro de 1979.

Equipe esportiva da Rádio Tupi. Partindo da esquerda; Ary Barroso, Alberto Figueiredo Santos, Antônio Maria e Domingos Manuel Valentim de Araújo. Crédito: revista do Rádio número 23 – 1 de abril de 1950.

Conforme publicado nas páginas da revista do Esporte número 261, Ary Barroso desembarcou no Rio de Janeiro pela primeira vez em 1919, como decorrência de um noivado frustrado que causou muitos dissabores em família.

A segunda viagem rumo aos encantos da movimentada “Cidade Maravilhosa” – agora como seu endereço definitivo – aconteceu no mês de agosto de 1921.

Com o propósito de continuar os estudos, o destemido rapazola trazia nos bolsos o montante de 40 Contos de Reis, uma considerável quantia que herdou do tio, o advogado e político Sabino Barroso.

Na bagagem, além da inocente esperança, Ary Barroso carregava também um grande amor pela música, uma paixão que foi transmitida por sua tia “Ritinha”, com quem morou desde o falecimento dos pais na tenra idade.

Aprovado no vestibular da Faculdade de Direito do Rio de Janeiro em 1921, Ary Barroso precisou desembolsar 150 mil Réis mensais para morar na Rua Corrêa Dutra, no bairro do Flamengo.

Partindo da esquerda; Esquerdinha, Índio, Jordan e Ary Barroso, que aparece de camisa marrom e óculos escuros. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 425 – 28 de janeiro de 1954.

Ary Barroso e o atacante Índio. Crédito: revista da Semana número 6 – 6 de fevereiro de 1954.

Com enormes dificuldades financeiras para continuar com os pagamentos em dia na faculdade, Ary Barroso abandonou os bancos acadêmicos por algum tempo. Só voltou efetivamente aos livros de Direito em 1926 e foi diplomado em 1929.

Como pianista profissional, o jovem mineiro adotou o uso do bigode e engordava o orçamento dedilhando seu talento no antigo Cinema Irís. Em seguida fez parte da “Orquestra do Sebastião”, quando tocava na sala de espera do Teatro Carlos Gomes.

Quem o lançou na carreira do rádio foi o produtor Renato Murce, que aproveitou de um pequeno espaço no popularíssimo programa “Horas de Outro Mundo”.

Mais tarde, em 1932, o próprio Renato Murce decidiu promover um concurso para locutores, uma disputa na qual Ary Barroso foi bem avaliado e premiado com uma boa oportunidade de emprego.

Também conhecido como “Barrosinho”, a trajetória como locutor esportivo foi iniciada na antiga Rádio Cruzeiro do Sul, em substituição ao consagrado Afonso Scola, que na época estava afastado por problemas de saúde.

Ary Barroso era um admirador declarado de Ângela Maria e Sílvio Caldas. Crédito: revista da Semana – Maio de 1954.

Também conhecido como “Barrosinho”, sua trajetória como locutor esportivo foi iniciada na antiga Rádio Cruzeiro do Sul. Crédito: revista do Rádio.

Paralelamente ao gosto pela música e o importante trabalho como locutor, Ary Barroso também era um entusiasta do futebol. Foi simpatizante do Fluminense, até declarar de forma pública seu amor pelo Flamengo.

Dedicado e sobretudo inovador, Ary Barroso criou o costume de narrar gols e outros lances importantes acompanhado com o toque de uma gaita, o que foi transformado em uma de suas marcas registradas frente aos microfones.

Magro e arisco como um pardal, Ary Barroso continuou seu caminho em várias emissoras de rádio do cenário carioca e paulista, entre elas a Rádio Tupi.

Sempre envolvido com os assuntos do seu Flamengo, Ary Barroso fez parte de importantes acontecimentos da rotina do clube, como por exemplo na badalada contratação do craque paraguaio Modesto Bria em 1943.

Depois de inúmeros e onerosos contatos telefônicos com o Paraguai, Ary Barroso já sabia que Modesto Bria concordava em jogar pelo Flamengo.

Ary Barroso e o presidente do Flamengo Gilberto Cardoso. Crédito: museudosesportes.blogspot.com.br.

Músico reconhecido, Ary Barroso lançou vários discos de sucesso ao longo de sua brilhante carreira. Crédito: arquivo Editora Abril.

No entanto, os diretores do Nacional permaneciam firmes em sua negativa para negociar os direitos do jogador, um dos destaques do time campeão paraguaio de 1942.

Então, um grupo de notáveis arquitetou o empréstimo do monomotor pessoal de Assis Chateaubriand, presidente dos Diários Associados. Quem sabe essa, uma última cartada para conseguir trazer Modesto Bria.

Medroso declarado das alturas, o ardiloso Ary Barroso esperava que sua parte no plano estivesse mais do que finalizada. Todavia, o que o nobre locutor não imaginava é que todos tirariam o corpo fora!

Dessa forma, Ary Barroso ficou com o desafio de “capturar” o craque paraguaio bem debaixo do nariz dos dirigentes do Nacional.

Usando inclusive da amizade pessoal com o Coronel Santa Rosa, Adido Militar do Brasil no Paraguai, Ary Barroso transformou o devaneio em realidade e Modesto Bria foi apresentado na Gávea no início de setembro de 1943.

O Fluminense venceu o Flamengo por 2×1 e Ary Barroso perdeu seu bigode de estimação! O vencedor da inusitada aposta foi o compositor e produtor Haroldo Barbosa. Crédito: revista Esporte Ilustrado número 911 – 22 de setembro de 1955.

O compositor e locutor esportivo Ary Barroso, uma imagem sempre embalada nas cores do Flamengo! Crédito: revista do Esporte número 249 – Dezembro de 1963.

Outra famosa e polêmica passagem aconteceu na tarde do dia 21 de agosto de 1949, data em que o Flamengo foi derrotado pelo Vasco em São Januário pelo contundente placar de 5×2, compromisso válido pelo campeonato carioca.

Quando o jogo acabou, o indignado Ary Barroso acusou Jair Rosa Pinto como o principal responsável pela humilhante derrota do time da Gávea, o que causou a queima simbólica da camisa do craque por torcedores do Flamengo.

Na Copa do Mundo de 1950, Ary Barroso faria sua última e também melancólica participação como locutor no rádio esportivo.

Ele não suportou a inesperada derrota para o Uruguai e decidiu abandonar os microfones, embora tal atitude tenha custado prejuízos em sua conta bancária.

Vítima de uma Cirrose Hepática, uma moléstia que o castigou nos últimos anos de vida, Ary Evangelista de Resende Barroso faleceu no Rio de Janeiro (RJ), quando o relógio apontava 21 horas e 30 minutos do dia 9 de fevereiro de 1964.

Impedido de entrar em São Januário, Ary Barroso transmite o jogo apoiado em um telhado próximo ao estádio. Crédito: arquivo Editora Abril.

Uma das últimas imagens publicadas de Ary Barroso no início de 1964. Crédito: revista do Rádio número 746 – Janeiro de 1964.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Carlos Maranhão, Michel Laurence e Sandro Moreyra), revista da Semana (por Antônio Maria), revista do Esporte, revista do Rádio, revista Esporte Ilustrado (por Alberto Ferreira, Levy Kleiman, Luís Mendes e Valter Sales), revista Grandes Clubes Brasileiros, revista Manchete (por Gervásio Batista), revista Manchete Esportiva, revista O Cruzeiro (por Brício de Abreu e Douglas Alexandre), revista O Globo Sportivo, revista Radiolândia (por Clóvis Melo), Jornal do Brasil, Jornal dos Sports, Jornal O Esporte, Jornal O Globo, acervo.oglobo.globo.com, arquivo Editora Abril, campeoesdofutebol.com.br, Correio da Manhã/arquivo nacional, flamengo.com.br, globoesporte.globo.com, museudosesportes.blogspot.com.br, site do Milton Neves (por Diogo Miloni e Marcelo Rozenberg), Livro: No tempo de Ary Barroso – Sérgio Cabral – Editora Lazuli.

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