Tags

, , ,

Na opinião do presidente Carlito Rocha, o Botafogo de 1948 era um time muito bom, especialmente pelo toque místico e quase sobrenatural de “Biriba”, um cãozinho que representava muito mais do que um mero mascote de estimação.

Grande entusiasta e motivador, Carlito Rocha parecia um ser completamente intocável aos efeitos de crises financeiras e políticas. Um homem certo para momentos difíceis!

Com uma existência quase que totalmente mergulhada nos assuntos do seu querido Botafogo, o espírito de Carlito Rocha foi definhando desde o início do processo que culminou na venda de General Severiano.

Filho do advogado e comerciante José Martins da Rocha e de dona Hortência da Rocha, Carlos Martins da Rocha nasceu na cidade do Rio de Janeiro (RJ), em 11 de novembro de 1894.

Estabelecidos posteriormente no município de Petrópolis (RJ), os membros da numerosa família “Rocha” gozavam de total prestígio na região, inclusive com seu José no papel de administrador da Fábrica de Tecidos Nossa Senhora das Vitórias.

Uma história contada em preto e branco. Crédito: revista O Globo Sportivo – 16 de abril de 1953.

Palco de tantas alegrias, o destino cruel de General Severiano machucou o coração do velho Carlito Rocha. Crédito: revista O Cruzeiro.

Contudo, o sempre inquieto rapazola “Carlito” julgava tudo aquilo entediante. Só sossegou quando foi transferido para trabalhar no escritório de representação da fábrica no Rio de Janeiro.

Na “Cidade Maravilhosa”, Carlito Rocha logo encontrou afinidades com o meio esportivo. Era sócio do Guanabara e também do Botafogo, um período em que praticou o Polo Aquático e o Remo.

Com o passar do tempo, a paixão pelo futebol e pelo Botafogo prevaleceu; embora Carlito Rocha nunca tenha deixado sua grande afeição pelo Remo.

Promovido ao time principal de futebol do Botafogo em 1914, uma pneumonia quase lhe tirou a vida precocemente em setembro de 1918. Recuperado, Carlito Rocha foi um jogador muito respeitado por companheiros e torcedores.

Sua boa estatura representava aplausos como atacante e também na posição de goleiro, uma passagem registrada nas páginas do antigo Jornal do Commercio: “Carlito, o goal-keeper de impressionante regularidade”.

O maior botafoguense de todos os tempos era um homem dedicado e supersticioso. Também ofereceu seus préstimos na Seleção Brasileira. Crédito: revista Manchete Esportiva.

Para Carlito Rocha, nenhum clube sobrevive sem o mínimo de fé. Foto de Fernando Pimentel. Crédito: revista Placar – 8 de dezembro de 1972.

A trajetória como jogador de futebol terminou na temporada de 1919, quando Carlito Rocha finalmente levou em conta os conselhos dos médicos, que ainda o alertavam sobre uma possível recaída da pneumonia recém curada.

Em janeiro de 1920, com o estabelecimento de uma nova diretoria, os esforços de Carlito Rocha foram reconhecidos com um título de Sócio Benemérito. Foi apenas o início de sua notável caminhada fora das quatro linhas.

Conservador e sobretudo realista, seu papel como respeitado colaborador foi além da condição importante de presidente do clube, uma cadeira que ocupou brilhantemente entre os anos de 1948 e 1951.

E por falar em 1948, Carlito Rocha foi determinante na conquista do memorável campeonato carioca diante do badalado Vasco da Gama, um duelo disputado em General Severiano.

Mesmo ausente do gabinete da presidência nos anos seguintes, Carlito Rocha continuou vivendo o Botafogo. Era considerado como um verdadeiro “guru” e colaborou em várias gestões que o sucederam.

Um eterno apaixonado pelo Botafogo, Carlito Rocha cuidava pessoalmente do jardim do clube. Foto de Fernando Pimentel. Crédito: revista Placar – 8 de dezembro de 1972.

Em uma época onde os clubes viviam praticamente das receitas de bilheteria e do quadro associativo, Carlito Rocha era um defensor ferrenho da prudência na administração financeira do clube. Foto de Fernando Pimentel. Crédito: revista Placar – 8 de dezembro de 1972.

Conforme matéria publicada pela revista Placar em 8 de dezembro de 1972, Carlito Rocha nunca aceitou o rumo inflacionário que tomou conta do futebol:

– “É deveras impactante notar como salários e outras obrigações crescem em ritmo vertiginoso, enquanto nossas limitadas receitas cambaleiam espremidas”.

Todavia, a falta de prudência financeira de outros “cartolas” levou o Botafogo ao fundo do poço na década de 1970, como resultado direto da inadimplência em compromissos bancários.

De acordo com o artigo publicado pela revista Placar em 4 de fevereiro de 1977, ao assumir o comando do clube em 1976, Charles Borer encontrou uma dívida de 48,6 milhões de cruzeiros.

Sem capital para liquidar ou mesmo negociar os débitos, o complexo de General Severiano foi vendido para a empresa Vale do Rio Doce por 90 milhões de cruzeiros, um montante fixado pela Bolsa de Imóveis do Rio de Janeiro.

“General Severiano ainda pulsa em mim”. Foto de Luís Paulo Machado. Crédito: revista Placar – 4 de fevereiro de 1977.

Ao assumir o Botafogo no início de 1976, Charles Borer encontrou o clube com uma dívida de 48,6 milhões de cruzeiros. Crédito: revista Placar – 4 de fevereiro de 1977.

Desse total, 58,4 milhões foram pagos em dinheiro, enquanto os outros 31,6 milhões foram pagos com quatro andares do Edifício Clube da Aeronáutica, no centro do Rio de Janeiro.

Porém, o Botafogo ficou apenas com uma pequena parte da quantia recebida em dinheiro, pois quase 49 milhões foram destinados imediatamente aos credores bancários.

Triste, Carlito Rocha liderou um movimento pela manutenção da imponente sede do clube, uma iniciativa cansativa e que sem dúvida comprometeu sua saúde nos anos seguintes.

Atormentado pelo fantasma da mudança para Marechal Hermes, Carlito Rocha vagava em solitárias caminhadas pelas ruínas do pouco que ainda sobrava do gramado de General Severiano.

Embebido entre memórias e tristezas, Carlos Martins da Rocha faleceu na cidade do Rio de Janeiro (RJ), em 12 de março de 1981.

A imponente sede era como um oásis entre o cascalho do que restou do estádio. Crédito: revista Placar – 4 de fevereiro de 1977.

Sem a magia do mascote Biriba e isolado em Marechal Hermes, a morte de Carlito Rocha foi outro duro golpe nos botafoguenses. Crédito: revista Placar – 20 de março de 1981.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Fausto Neto, Fernando Pimentel, Luís Paulo Machado, Marcelo Rezende, Maria Helena Araújo, Maurício Azedo, Plínio Marcos, Sandro Moreyra e Teixeira Heizer), revista do Esporte, revista do Rádio, revista Esporte Ilustrado, revista Grandes Clubes Brasileiros, revista Manchete Esportiva, revista O Cruzeiro, revista O Globo Sportivo, Jornal do Commercio, Jornal dos Sports, Jornal O Globo, botafogo.com.br, campeoesdofutebol.com.br, site do Milton Neves (por Marcelo Rozenberg), Livro: Somos todos Carlito – Rafael Casé – Editora Gryphus.