Paulo Machado de Carvalho… com brasileiro não há quem possa

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Estava tudo pronto para a delegação do Brasil deixar Estocolmo. Enquanto isso, Joelmir Beting preparava os últimos detalhes do caderno especial da Copa do Mundo para o Jornal O Esporte.

Com matérias do correspondente Flávio Iazzetti, a foto escolhida para a capa do caderno era uma homenagem ao dirigente Paulo Machado de Carvalho, o homem que enfrentou forte oposição da imprensa carioca.

Faltando pouco para o fechamento da edição, o título da reportagem ainda continuava em aberto. Acuado pelo relógio, Joelmir Beting teve um estalo. Assim, o teclado da máquina de escrever disparou em letras garrafais: “O Marechal da Vitória”.

“O Marechal da Vitória” acompanhou o Doutor Paulo para sempre. Virou sinônimo de trabalho bem feito e jogou a primeira pá de cal no complexo de vira-latas apregoado por Nelson Rodrigues.

Paulo Machado de Carvalho nasceu na cidade de São Paulo (SP), em 9 de novembro de 1901.

Paulo Machado de Carvalho e a fachada da Rádio Record na Praça da República. Crédito: revista do Rádio.

Salvador Tredice, mais conhecido como Dodô. Crédito: Livro – O Marechal da Vitória – Uma História de Rádio, TV e Futebol – Roberto Rockmann e Tom Cardoso – Editora A Girafa.

Filho de uma conceituada família de classe média, o jovem de comportamento refinado relutou, mas acabou cedendo ao desejo dos pais, que sonhavam que o filho fosse diplomado em Direito.

Formado pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco, Paulo Machado de Carvalho potencializou seus conhecimentos acadêmicos na Suíça, embora nunca tenha colocado em prática o trabalho como Advogado.

Decidiu então abrir uma pequena empresa de luminosos comerciais, uma iniciativa que não sobreviveu por muito tempo.

Nesse mesmo período conheceu Álvaro Liberato de Macedo, proprietário da Casa de Discos Record e de uma rádio que funcionava no mesmo endereço, na Praça da República.

Em junho de 1931, ao lado dos amigos João Batista do Amaral e Jorge Alves Lima, o visionário Doutor Paulo não pensou duas vezes ao investir um capital considerável na compra da pequena Rádio Record.

Crédito: Livro – O Marechal da Vitória – Uma História de Rádio, TV e Futebol – Roberto Rockmann e Tom Cardoso – Editora A Girafa.

Paulo Machado de Carvalho e Vicente Feola. Crédito: revista O Cruzeiro.

O cenário encontrado pelos novos proprietários era no mínimo desolador. Com cadeiras empoeiradas e estúdios apertados, o ambiente mal comportava os enormes microfones da época.

Longe de desanimar, o Doutor Paulo não mediu sacrifícios. Trabalhou como arquivista, discotecário, faturista e até telefonista.

Na Revolução Constitucionalista de 1932, a emissora colaborou na angariação de artigos de primeira necessidade para o movimento. Tudo era fornecido por empresas em cumplicidade com a rádio, que naquele período ficou conhecida como “A voz de São Paulo”.

Quando a revolução terminou, uma estratégia inovadora de programação popular colocou a Rádio Record nos primeiros lugares de audiência, inclusive com um bom espaço para o futebol na grade de atrações.

Paralelamente, o gosto pela bola levou o Doutor Paulo aos cargos diretivos do São Paulo Futebol Clube, onde ocupou inicialmente funções como Diretor de Futebol.

Crédito: revista Placar – A História das Copas – Fascículo 6.

“A cor do manto de Nossa Senhora”. A camisa azul de 1958 continua um dos artigos mais procurados nas casas de leilão do mundo. Crédito: revista Placar.

No tricolor, seu trabalho e liderança colocaram o time no caminho das grandes conquistas nos anos 40, quando apostou no futebol de astros considerados veteranos; como Leônidas da Silva e Antonio Sastre.

Em 1944 comprou os direitos da Rádio Panamericana para em seguida inaugurar a TV Record, que entrou no ar em 1953 com equipamentos de última geração importados dos Estados Unidos.

Bem-sucedido no esporte e nos negócios, Paulo Machado de Carvalho foi colocado no caminho da Seleção Brasileira em 1957.

O início de seu trabalho no escrete foi baseado nas observações dos insucessos do futebol brasileiro nos mundiais de 1950 e 1954.

Para reescrever um novo caminho na história da Copa do Mundo, o Doutor Paulo elaborou cartilhas de condutas e regras como parte do plano que também levou seu nome.

Nos braços do massagista Mário Américo, Pelé é amparado por Paulo Machado de Carvalho. Crédito: revista Manchete.

Em primeiro plano, partindo da esquerda; Bellini, Paulo Machado de Carvalho, João Goulart e Mauro Ramos de Oliveira. Crédito: revista O Cruzeiro.

Apesar do espanto de boa parte da crítica esportiva, o técnico escolhido foi Vicente Feola, enquanto que a preparação física ficou sob responsabilidade do carioca Paulo Amaral.

Com carta branca do presidente da CBD João Havelange, Paulo Machado de Carvalho solicitou o apoio de profissionais até então desconhecidos no cenário da bola; como o dentista Mário Trigo e psicólogo João Carvalhaes.

Supersticioso, na campanha da Suécia o Doutor Paulo nunca abandonou seu conhecido terno marrom, usado inclusive na primeira partida do mundial contra o selecionado da Áustria.

Atento aos detalhes, o Doutor Paulo fazia questão de controlar horários, bem como acompanhar atentamente qualquer anormalidade ou necessidade dos jogadores e da Comissão Técnica.

E assim o escrete foi caminhando na Copa do Mundo. Passou bem pela fase de grupos e enfrentou adversários difíceis nas fases seguintes da competição.

Crédito: Livro – O Marechal da Vitória – Uma História de Rádio, TV e Futebol – Roberto Rockmann e Tom Cardoso – Editora A Girafa.

Inaugurado em 27 de abril de 1940, o Estádio Municipal do Pacaembu recebeu o nome de Paulo Machado de Carvalho em 1961. O projeto de Lei foi uma proposta do jornalista e vereador Ary Silva. Crédito: revista Placar – Abril de 1993.

Para o confronto final da Copa do Mundo de 1958, a FIFA confirmou que a Suécia jogaria de amarelo. Então, uma grande tristeza tomou conta dos bastidores da seleção. Jogar de branco e correr o risco do fantasma de 1950?

Rapidamente, Paulo Machado de Carvalho saiu pelas ruas de Estocolmo. Comprou um jogo de camisas azuis e mandou colocar os distintivos retirados das camisas amarelas.

Então, com sua costumeira habilidade, Paulo Machado de Carvalho anunciou aos jogadores: “Vejam se não é um sinal dos céus. Jogaremos de azul, a cor do manto de Nossa Senhora Aparecida”.

O Brasil venceu a Suécia por 5×2 e ofereceu ao povo nosso primeiro título mundial, uma grande comemoração embalada na marchinha “A Taça do Mundo é Nossa/ com brasileiro não há quem possa…

Como reconhecimento pelo vultoso resultado, o Estádio Municipal do Pacaembu foi rebatizado com o nome de Paulo Machado de Carvalho em 1961.

Crédito: oglobo.globo.com.

Em 1972, Paulo Machado de Carvalho entrega o troféu de campeão da Taça São Paulo de Futebol Júnior ao goleiro Tonho do Nacional. Crédito: revista Placar – 5 de fevereiro de 1988 – Acervo Nacional Atlético Clube.

Em 1962 para o mundial do Chile, poucas alterações foram feitas, tanto no planejamento como na escolha do elenco e da Comissão Técnica.

Mesmo com o bicampeonato mundial, Paulo Machado de Carvalho não continuou no comando da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo de 1966. O mal-estar que o afastou do escrete foi resultado das interferências diretas em sua metodologia de trabalho.

Longe da Confederação Brasileira de Desportos, Paulo Machado de Carvalho voltou suas atenções ao comando de suas empresas. Em 1970 foi eleito para seu último cargo esportivo, como vice-presidente da Federação Paulista de Futebol.

Quando a Rede Record passou por graves problemas financeiros em razão dos seguidos incêndios e da concorrência, a emissora passou primeiro pelo comando do apresentador Sílvio Santos, até ser vendida a Igreja Universal do Reino de Deus em 1989.

Paulo Machado de Carvalho faleceu na cidade de São Paulo (SP), em 7 de março de 1992.

Mauro Ramos, Paulo Machado de Carvalho e Bellini. Crédito: Livro – Ninguém faz sucesso sozinho – Antônio Augusto Amaral de Carvalho, o Tuta – Editora Escrituras.

Partindo da esquerda; Osmar Santos, Paulo Machado de Carvalho, Otávio Munis e Joseval Peixoto. Crédito: Livro – Ninguém faz sucesso sozinho – Antônio Augusto Amaral de Carvalho, o Tuta – Editora Escrituras.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Carlos Maranhão, Max Gehringer, Patrício Renato e Sérgio Moraes), revista do Esporte, revista do Rádio, revista Manchete, revista Manchete Esportiva, revista O Cruzeiro, revista Realidade, Jornal A Gazeta Esportiva, Jornal da Tarde, Jornal Diário Popular, Jornal dos Sports, Jornal O Esporte, Jornal O Globo, acervo.estadao.com.br, campeoesdofutebol.com.br, gazetaesportiva.net, globoesporte.globo.com, oglobo.globo.com, site do Milton Neves (por Marcelo Rozenberg), Livro: Ninguém faz sucesso sozinho – Antônio Augusto Amaral de Carvalho, o Tuta – Editora Escrituras, Livro: O Marechal da Vitória – Uma História de Rádio, TV e Futebol – Roberto Rockmann e Tom Cardoso – Editora A Girafa, Livro: Todas as Copas do Mundo – Orlando Duarte – Editora Votorantim.

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