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Rosto alongado, queixo esticado e costeletas mal aparadas. Uma imagem muito familiar aos incontáveis fãs de Antonio Ferreira, o “Toninho Guerreiro”.

Toninho Guerreiro não era alto e musculoso. Também não fazia o tipo “trombador”; pelo contrário. Técnico e oportunista, o atacante que brilhou no Santos e no São Paulo foi um dos maiores centroavantes do futebol brasileiro.

Nascido na cidade de Bauru (SP) em 10 de agosto de 1942, o pequeno Toninho sofria com o rigor da mãe. Dona Rosa não perdoava nenhuma das bolas que caiam em seu quintal.

Com um machado nas mãos, a mãe de Toninho batia sem piedade em qualquer bola, até que fossem transformadas em retalhos de borracha.

Aos finais de semana, Toninho esquecia das broncas da mãe. Afinal, o pai Arthur estava em casa para garantir que machado nenhum fosse responsável pela tristeza da garotada.

Fluminense e Santos no Maracanã em 1965. Procópio chega duro em Toninho Guerreiro. Crédito: revista do Esporte número 327.

E Toninho cresceu jogando na várzea, até ser encaminhado ao Esporte Clube Noroeste.

Seguindo os conselhos de seu Arthur, Toninho precisou contrariar dona Rosa, que sonhava em ver o filho trabalhando na Companhia Paulista Ferroviária de Bauru.

Sua ligação com o Santos Futebol Clube começou muito cedo, quando foi levado pelo pai ao Departamento amador do time da Vila Belmiro.

Sem conseguir permanecer, o jovem Toninho voltou para Bauru e fez muito sucesso jogando pelo Noroeste.

Mais tarde, no findar da temporada de 1962, Toninho foi contratado pelo Santos. O Noroeste pediu 100.000 cruzeiros pelo passe da jovem promessa e os diretores santistas decidiram bancar o valor.

Toninho e Pelé em partida contra o Racing da Argentina. Crédito: revista Placar – 10 de junho de 1983.

A primeira partida pelo Santos aconteceu em 16 de fevereiro de 1963, no empate em 2×2 contra o Vasco da Gama no Maracanã, compromisso válido pelo Torneio Rio-São Paulo.

Conforme publicado pela revista Placar em março de 1999, o jogo ficou marcado pelas provocações de Brito e Fontana sobre Pelé, quando o marcador ainda apontava 2×0 para o Vasco. Mas Pelé marcou dois gols e empatou o jogo.

Abaixo, os registros da partida em que os vascaínos cutucaram o “Rei” antes da hora:

16 de fevereiro de 1963 – Torneio Rio São Paulo – Vasco da Gama 2×2 Santos – Estádio do Maracanã – Árbitro: Stefan Walter Glanz – Gols: Ronaldo aos 32′ e Sabará aos 12′ do primeiro tempo; Pelé aos 42′ e 43′ do segundo tempo.

Vasco da Gama: Ita, Joel, Brito, Dario, Maranhão, Barbosinha (Fontana), Sabará, Villadoniga, Saulzinho, Lorico (Fagundes) e Ronaldo. Santos: Gylmar, Mauro, Zé Carlos (Tite), Dalmo, Calvet, Lima, Dorval, Mengálvio, Pagão (Toninho Guerreiro), Pelé e Pepe.

Crédito: revista El Gráfico – 1968.

Fluminense e Santos no Maracanã. Toninho Guerreiro deixa Altair ao vento. Crédito: revista do Esporte número 494.

Os primeiros tempos foram difíceis. Como reserva de Coutinho, Toninho entrava em algumas partidas faltando dez ou quinze minutos para terminar o jogo.

Em 1964 foi conquistando espaço rapidamente para iniciar sua trajetória formidável de números e conquistas.

Foi bicampeão paulista em 1964 e 1965. Depois levantou o tricampeonato nas edições de 1967, 1968 e 1969, além de ser o artilheiro da competição em 1966, com 24 gols marcados.

Toninho também foi campeão da Taça Brasil 1963, 1964 e 1965, Taça Libertadores e Mundial Interclubes 1963, Torneio Rio São Paulo 1964 e 1966, Torneio Roberto Gomes Pedrosa 1968, Recopa Sul-Americana e Recopa dos Campeões Mundiais, ambas em 1968, além de inúmeros torneios nacionais e internacionais.

Crédito: revista Veja.

Crédito: revista Veja.

Sua facilidade para finalizar ao gol era algo notável. Pelo Santos, Toninho esteve em campo em 373 partidas e marcou 283 gols; o quarto maior artilheiro da história do clube.

Toninho, também chamado pelos companheiros de “Meméia”, permaneceu jogando pelo Santos até agosto de 1969, quando o Corinthians e o São Paulo manifestaram forte interesse por seu futebol.

O Santos não queria liberar o atacante, mas acabou cedendo algum tempo depois, sem imaginar que pagaria caro, muito mais do que o dinheiro que recebeu!

A revista Placar de 13 de novembro de 1970 descreve o parecer confiante de Augusto da Silva Saraiva, na época, Vice-Presidente de Patrimônio do Santos:

– Vendi o Toninho Guerreiro por 800 mil cruzeiros… Foi um ótimo negócio!

Toninho de casa nova no Morumbi. Crédito: revista Placar.

O golaço de Toninho contra a Portuguesa de Desportos. Crédito: revista Placar – 20 de março de 1970.

O São Paulo pagou o preço com muito gosto e trouxe o centroavante para o Morumbi. Inconformados, alguns torcedores do Santos proclamavam: “Você fez mal em sair. Sem o Pelé por perto sua torneira vai secar”.

Em pouco tempo, o Santos amargava a falta de um companheiro ideal para jogar ao lado de Pelé.

E Toninho provou que poderia sobreviver sem Pelé por perto. Artilheiro do campeonato paulista de 1970 (13 gols) e 1972 (17 gols), o centroavante foi determinante para acabar com o período sem títulos do time do Morumbi, que já durava desde 1957.

Pelo São Paulo Toninho foi bicampeão paulista em 1970 e 1971. Foi o único jogador pentacampeão consecutivo do “paulistão”: 1967, 1968, 1969 pelo Santos e 1970 e 1971 pelo São Paulo.

Não fosse o caneco conquistado pelo Palmeiras em 1966, Toninho teria alcançado uma incrível marca de oito títulos paulistas em seguida.

Crédito: revista Placar – 21 de agosto de 1970.

Foto de Lemyr Martins. Crédito: revista Placar – 13 de novembro de 1970.

Falando em Seleção Brasileira, os caminhos de Toninho Guerreiro ficaram marcados por acontecimentos mal explicados ou no mínimo estranhos!

O corte do centroavante, pouco antes do embarque para o México em 1970, causou muita polêmica e indignação por parte da diretoria do São Paulo, da imprensa e dos torcedores.

Na ocasião, os médicos da seleção diagnosticaram um estranha sinusite, que na verdade, conforme os comentários da época, não passou de um jogo de “cartas marcadas”.

Essas “cartas marcadas” tinham um propósito certo. A convocação de Dario do Atlético Mineiro; ou ainda o favorecimento ao atacante do Botafogo do Rio de Janeiro, Roberto Miranda.

O contestado Laudo Médico apontava que a sinusite de Toninho Guerreiro seria bastante prejudicial na altitude do México.

Crédito: revista Placar – 30 de abril de 1971.

Toninho comemora o gol do título paulista em 1971. Na foto também vemos Ademir da Guia e o árbitro Armando Marques confirmando o gol. Crédito: revista Placar.

E João Saldanha, substituído depois por Mário Jorge Lobo Zagallo no comando da seleção, mais uma vez colocou sua boca no mundo:

– Sobrou pra mim. O médico fugiu da sala e eu fiquei com o laudo nas mãos para dar aquela notícia sórdida ao Toninho.. Ele chorou e eu também chorei, de raiva… Deixei o Hotel Plaza me sentindo uma marionete. (João Saldanha – revista Placar – Abril de 2000).

Toninho permaneceu no São Paulo até 1973. Foram 170 partidas com 80 vitórias, 51 empates, 39 derrotas e 85 gols marcados. Os registros foram publicados pelo Almanaque do São Paulo, do autor Alexandre da Costa.

Depois de rápidas passagens pelo Flamengo (RJ), Operário (MS) e novamente pelo Noroeste (SP), Toninho encerrou a carreira em 1975. Ainda ligado ao futebol jogou pelos veteranos do Milionários e em exibições de Showball.

Gordo e aposentado, Toninho vivia sujo de graxa trabalhando em uma oficina do bairro da Lapa, na Zona Oeste da cidade de São Paulo. Antonio Ferreira faleceu de derrame cerebral, em 26 de janeiro de 1990.

Foto de Lemyr Martins. Crédito: revista Placar – 5 de outubro de 1973.

Foto Nelson Coelho. Crédito: revista Placar – 31 de agosto de 1987.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Carlos Maranhão, Dagomir Marquezi, Lemyr Martins, Mário Serapicos, Michel Laurence, Narciso James, Nelson Coelho e Nelson Urt), revista A Gazeta Esportiva Ilustrada, revista do Esporte, revista El Gráfico, revista Manchete, revista Veja, Jornal A Gazeta Esportiva, Jornal A Tribuna de Santos, Jornal da Tarde, blogdonorusca.blogspot.com, esportes.r7.com, gazetaesportiva.net, globoesporte.globo.com, museudosesportes.blogspot.com, santosfc.com.br, saopaulofc.net, site do Milton Neves, topicos.estadao.com.br, Almanaque do São Paulo – Alexandre da Costa.

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