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Alguns jogadores nascem com uma estrela e por onde passam deixam uma marca indelével na memória dos torcedores.

O rosto alongado pelo queixo esticado e contornado por costeletas mal aparadas, sempre foi uma imagem muito familiar aos incontáveis fãs de Antonio Ferreira, o “Toninho Guerreiro”.

Toninho não era um atacante musculoso ou dotado de uma estatura muito elevada. Nunca fez o estilo de atacante “trombador”, pelo contrário!

Técnico e oportunista ao mesmo tempo, Toninho se transformou em um dos maiores centroavantes dos anos sessenta e setenta.

Toninho ganhou destaque pelo Esporte Clube Noroeste.

Fluminense e Santos no Maracanã em 1965, Procópio chega duro em Toninho Guerreiro. Crédito: revista do Esporte número 327.

Nascido na cidade de Bauru (SP), em 10 de agosto de 1942, o pequeno Toninho sofria com o rigor da mãe, dona Rosa, que não perdoava nenhuma das bolas que caiam em seu quintal.

Para dona Rosa, o futebol era coisa de gente desocupada. Então, com um machado nas mãos, a matriarca batia em qualquer bola até que virassem apenas retalhos de couro ou borracha.

Aos finais de semana, Toninho esquecia das broncas da mãe e ficava confiante!

Afinal, seu “Pai Herói”, o seu Arthur, estava em casa para garantir que machado nenhum fosse responsável pela tristeza da garotada. E Toninho cresceu jogando na várzea, sempre acompanhado pelo pai, um apaixonado por futebol.

Toninho e Pelé em partida contra o Racing da Argentina. Crédito: revista Placar – 10 de junho de 1983.

Toninho começou sua trajetória nos quadros amadores do Esporte Clube Noroeste aos 15 anos de idade.

Seguindo os conselhos de seu Arthur, Toninho precisou contrariar dona Rosa, que sonhava em ver o filho trabalhando na Companhia Paulista Ferroviária de Bauru.

Sua ligação com o Santos Futebol Clube começou ainda menino, quando foi levado pelo pai até o departamento amador do time da Vila Belmiro.

Sem conseguir permanecer, o jovem Toninho retornou para Bauru e fez muito sucesso jogando pelo Noroeste.

Mais tarde, no final da temporada de 1962, Toninho foi contratado pelo Santos. O Noroeste pediu 100.000 cruzeiros pelo passe e os diretores do time da Vila decidiram bancar o valor.

Crédito: revista El Gráfico – 1968.

Sua primeira partida pelo Santos aconteceu no dia 16 de fevereiro de 1963, no empate em 2×2 contra o Vasco da Gama no estádio do Maracanã, em partida válida pelo Torneio Rio-São Paulo.

Conforme publicação da revista Placar de março de 1999, página 85, Fontana e Brito teriam provocado Pelé quando o marcador apontava 2×0 para o Vasco faltando muito pouco para o término do encontro.

Mas Pelé marcou por duas vezes e empatou o jogo. Abaixo, os dados do jogo em que os vascaínos “cutucaram” os brios do “Rei” antes da hora:

16 de fevereiro de 1963 – Torneio Rio São Paulo – Vasco da Gama 2×2 Santos – Estádio do Maracanã – Árbitro: Stefan Walter Glanz – Gols: Ronaldo aos 32′ do primeiro tempo; Sabará aos 12′, Pelé aos 42′ e Pelé aos 43′ do segundo tempo.

Vasco da Gama: Ita, Joel, Brito, Dario, Maranhão, Barbosinha (Fontana), Sabará, Villadoniga, Saulzinho, Lorico (Fagundes) e Ronaldo. Santos: Gylmar, Mauro, Zé Carlos (Tite), Dalmo, Calvet, Lima, Dorval, Mengálvio, Pagão (Toninho Guerreiro), Pelé e Pepe.

Figurinha carimbada de Toninho no Santos. Crédito: albumefigurinhas.no.comunidades.net.

Em partida do Santos contra o Fluminense no Maracanã, Toninho Guerreiro deixa Altair para trás. Crédito: revista do Esporte número 494.

Os primeiros tempos foram difíceis. Como reserva de Coutinho, Toninho entrava em algumas partidas faltando dez ou quinze minutos para acabar o jogo.

A partir de 1964 Toninho foi conquistando seu espaço na equipe e começou sua trajetória formidável de números e conquistas.

Toninho foi bicampeão paulista pelo Santos em 1964 e 1965 e depois, levantou o tri nos anos de 1967, 1968 e 1969. Em 1966 foi o artilheiro do campeonato paulista com 24 gols.

Além dos títulos paulistas, Toninho foi campeão da Taça Brasil em 1963, 1964 e 1965, Taça Libertadores e mundial de Clubes 1963, Torneio Rio São Paulo 1964 e 1966, Torneio Robertão 1968, Recopa Sul-Americana e Recopa dos Campeões Mundiais 1968, além de inúmeros torneios nacionais e internacionais.

Edu e Toninho Guerreiro. Crédito: revista do Esporte número 546 – 8 de agosto de 1969.

Sua facilidade para finalizar ao gol era notável. Pelo Santos, Toninho esteve em campo em 373 partidas e marcou 283 gols, sendo o quarto maior artilheiro da história do clube.

Toninho, também apelidado pelos colegas como “Meméia”, permaneceu jogando pelo “Peixe” até o mês de agosto de 1969, quando surgiu, ao mesmo tempo, o interesse do São Paulo e do Corinthians.

O Santos não queria saber de liberar o atacante para nenhum dos rivais, mas acabou cedendo algum tempo depois, sem saber que pagaria muito caro, mais caro do que o próprio dinheiro que recebeu!

A revista Placar, em sua edição de 13 de novembro de 1970, descreve o que disse o confiante senhor Augusto da Silva Saraiva, na época, vice presidente de Patrimônio do Santos:

– Vendi o Toninho por 800 mil cruzeiros. Foi um ótimo negócio!

Crédito: revista Placar – 13 de novembro de 1970.

Toninho em sua casa nova: o Morumbi. Crédito: revista Placar.

O São Paulo pagou o preço com muito gosto e trouxe o centroavante rapidamente para o Morumbi.

Tão logo ficaram sabendo da venda de Toninho para o São Paulo, alguns torcedores do “Peixe”, que encontravam Toninho pelo calçadão da praia, iam logo dizendo:

– Você fez mal em sair. Sem o Pelé por perto a sua torneira vai secar!

Pouco tempo depois, o Santos amargava a falta de um companheiro ideal para finalizar ao lado de Pelé, enquanto Toninho, municiado pelos passes de Gerson, já fazia muito sucesso no Morumbi.

Toninho provou que poderia marcar gols e sobreviver sem Pelé por perto. Artilheiro do paulistão de 1970 (13 gols) e 1972 (17 gols), o centroavante foi determinante para acabar com o período sem títulos, que já durava desde 1957.

Toninho foi capa da revista Placar em sua edição de 21 de agosto de 1970.

Pelo São Paulo Toninho foi bicampeão paulista nos anos de 1970 e 1971.

Dessa forma, Guerreiro foi o único jogador pentacampeão consecutivo do paulistão: 1967, 1968, 1969 pelo Santos e 1970 e 1971 pelo São Paulo.

Não fosse o caneco conquistado pelo Palmeiras na edição de 1966, Toninho teria alcançado uma incrível marca de oito títulos paulistas em seguida.

Falando em Seleção Brasileira, os caminhos de Toninho ficaram marcados por acontecimentos mal explicados e, no mínimo, estranhos.

O corte do centroavante, pouco antes do embarque para o México em 1970, causou muita polêmica e indignação por parte da diretoria do São Paulo, da imprensa paulista e dos torcedores.

O golaço de Toninho contra a Portuguesa de Desportos. Crédito: revista Placar publicada em 20 de março de 1970.

Toninho comemora o gol que deu o título do campeonato paulista de 1971 ao São Paulo contra o Palmeiras. Na foto também vemos Ademir da Guia e o árbitro Armando Marques confirmando o gol. Crédito: revista Placar.

Na ocasião, os médicos da seleção diagnosticaram um estranha “sinusite”, que na verdade, segundo muitos comentários da época, foi uma desculpa para interesses muito particulares.

Esses supostos interesses particulares tinham um propósito certo, como em um jogo de cartas marcadas.

Era a convocação do jovem atacante Dario, do Atlético Mineiro, ou ainda um favorecimento ao atacante carioca Roberto Miranda, do Botafogo do Rio de Janeiro.

A “solicitação especial” em favor de Dario, teria sido feita diretamente para a comissão técnica canarinho pelo presidente da República, o General Emílio Garrastazu Médici.

Crédito: revista Placar – 30 de abril de 1971.

O contestado laudo médico apontava que a sinusite impediria que Toninho jogasse na impiedosa altitude do México.

E João Saldanha, substituído depois por Mário Jorge Lobo Zagallo no comando da seleção, mais uma vez colocou sua boca no mundo:

– Sobrou pra mim. O médico fugiu da sala e eu fiquei com o laudo nas mãos para dar aquela notícia sórdida e imunda ao Toninho Guerreiro.

– Ele chorou e eu também chorei, de raiva. Deixei o Hotel Plaza me sentindo uma verdadeira marionete. (João Saldanha – revista Placar – Abril de 2000).

Toninho permaneceu no São Paulo até 1973, atuando em 170 partidas com 80 vitórias, 51 empates, 39 derrotas e 85 gols marcados, conforme registros publicados pelo Almanaque do São Paulo, de autoria de Alexandre da Costa.

Crédito: revista Veja.

Crédito: revista Veja.

Depois de rápidas passagens pelo Clube de Regatas do Flamengo, pelo Operário (MS) e novamente pelo Noroeste de Bauru, Toninho encerrou sua carreira em 1975, após disputar seu último campeonato paulista.

Ainda ligado ao futebol, Toninho jogou pelo time de veteranos do Milionários e em exibições de Show Ball pelo Brasil.

Longe da bola, gordo e aposentado, Toninho vivia com mãos sujas de graxa atrás de amortecedores usados para retificar em uma oficina do bairro da Lapa, na Zona Oeste da cidade de São Paulo.

Depois de uma forte dor de cabeça, Toninho Guerreiro faleceu em 26 de janeiro de 1990, vitimado por um derrame cerebral.

Crédito: revista Placar – 5 de outubro de 1973.

Crédito: revista Placar – 31 de agosto de 1987. Foto Nélson Coelho.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Mário Serapicos, Michel Laurence, Narciso James, Nelson Urt e Dagomir Marquezi), revista do Esporte, revista A Gazeta Esportiva Ilustrada, revista El Gráfico, revista Veja, gazetaesportiva.net, globoesporte.globo.com, Jornal da Tarde, jornal A Tribuna de Santos, esporte.uol.com.br, esportes.r7.com, museudosesportes.blogspot.com, santosfc.com.br, site do Milton Neves, blogdonorusca.blogspot.com, topicos.estadao.com.br, albumefigurinhas.no.comunidades.net, saopaulofc.net, Almanaque do São Paulo – Alexandre da Costa.

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