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Tomado pelos cabelos grisalhos, o matreiro Gradim abriu seu livro particular de recordações ao repórter da revista Placar, José Maria de Aquino: “Envelhecer é um prêmio caro e difícil de ser compreendido”.

Não vivi só do futebol. Eu gostava mesmo era de dançar…

Com seu terno branco engomado, chapéu palheta e sapatos de salto carrapeta, Gradim tomava o rumo da antiga Rua Senador Eusébio e entrava de alma limpa nos salões de baile do velho Rio de Janeiro.

Dos tempos de jogador lembrou de muita coisa boa e de muita coisa ruim. Falou da Seleção Brasileira, do seu querido Bonsucesso e da fratura acontecida na juventude em um lance com o zagueiro Queiroz em 1927.

Crédito: revista Placar - 28 de outubro de 1977.

Crédito: revista Placar – 28 de outubro de 1977.

Crédito: revista Placar - 25 de novembro de 1977.

Crédito: revista Placar – 25 de novembro de 1977.

Recordou também das poucas brigas que teve, apenas duas vezes, sempre em jogos contra o Flamengo: “Nunca fui um homem de brigas e tão pouco corria delas, apenas evitava”.

Em 1977 Gradim era um dos técnicos mais baratos do campeonato brasileiro. Ganhava 6.800 cruzeiros treinando o juvenil do Santa Cruz e foi reajustado para 12.800, quando precisou assumir novamente o elenco de profissionais.

E por falar em Santa Cruz, Gradim voltou no tempo até o ano de 1969, quando viveu uma situação bem parecida.

Depois que saiu do departamento amador e arrumou o time principal, Gradim foi comunicado da opção do clube por outro treinador, que acabou colhendo os “louros” do seu árduo trabalho.

Crédito: revista O Globo Sportivo número 640 – 1951.

Crédito: revista O Globo Sportivo número 640 – 1951.

Longe das chuteiras, Gradim prepara seu terreno fora dos gramados como auxiliar de Zezé Moreira no Fluminense em 1951. Crédito: revista O Globo Sportivo número 640 – 1951.

Longe das chuteiras, Gradim prepara seu terreno fora dos gramados como auxiliar de Zezé Moreira no Fluminense em 1951. Crédito: revista O Globo Sportivo número 640 – 1951.

Francisco de Souza Ferreira, o Gradim, nasceu no município de Vassouras, interior do Rio de Janeiro, em 15 de junho de 1908.

A revista placar de 25 de novembro de 1977 aponta o bairro de São Cristóvão como o local correto de seu nascimento.

Criado pela madrinha, Gradim estudou até o terceiro ano primário e precisou trabalhar para ajudar em casa.

O apelido apresenta várias versões. Uma delas descreve que ele surgiu em razão de um grande atacante negro da seleção uruguaia.

O futebol entrou em sua vida pra valer na adolescência, quando jogava pelo Esporte Clube Africano e depois em uma agremiação chamada Engenho de Dentro, quando fraturou sua perna.

Crédito: revista O Globo Sportivo número 640 – 1951.

Crédito: revista O Globo Sportivo número 640 – 1951.

Sylvio Pirillo chega ao Fluminense em 1956 e recebe os abraços de Gradim. Crédito: revista Manchete Esportiva.

Sylvio Pirillo chega ao Fluminense em 1956 e recebe os abraços de Gradim. Crédito: revista Manchete Esportiva.

Gradim, grande cabeceador, chegou ao Bonsucesso (provavelmente) entre o final da década de vinte e o início da década de trinta pela caneta do dirigente Manuel Caballero.

Ao lado do companheiro de clube Leônidas da Silva, o “Diamante Negro”, Gradim chegou ao selecionado nacional, campeão da Copa Rio Branco, que derrotou o Uruguai por 2×1 no estádio Centenário.

Saindo do Bonsucesso, Gradim passou rapidamente pelo Flamengo e em seguida acertou com o Vasco da Gama, clube onde conquistou o título carioca de 1934 (LCF – Liga Carioca de Football). Foi o primeiro jogador vascaíno autor de um gol na era profissional.

O time base do Vasco que chegou ao título formava com Rey, Domingos da Guia e Itália; Gringo, Fausto e Mola; Orlando, Almir, Gradim, Nena e D’Alessandro. Técnico: Harry Welfare.

No Maracanã, debaixo de muita chuva, Gradim (esquerda) grita do banco de reservas – Crédito: revista Manchete número 350.

No Maracanã, debaixo de muita chuva, Gradim (esquerda) grita do banco de reservas – Crédito: revista Manchete número 350.

Almir Pernambuquinho e Gradim. Crédito: revista Placar – 26 de janeiro de 1973.

Almir Pernambuquinho e Gradim. Crédito: revista Placar – 26 de janeiro de 1973.

* Nota: Grande parte dos sites e blogs que tratam do assunto (e não são poucos), registram passagens de Gradim (Francisco de Souza Ferreira) pelo Santos e pelo Jabaquara no período compreendido entre 1936 e 1947.

Mas, o Gradim, tratado aqui nesta postagem, não jogou no Santos ou no Jabaquara. O mal entendido é justificável e também me causou dúvidas durante o processo de pesquisa.

Ao encontrar o material publicado em dezembro de 2015 no site acervosantosfc.com, assinado por Gabriel Santana, me deparei com o perfil de Adhemar de Oliveira, ou somente Gradim, o primeiro grande “curinga” da Vila Belmiro, nascido no dia 12 de dezembro de 1913 em Taquara, Rio Grande do Sul.

Esse outro “Gradim” começou sua carreira no extinto Força e Luz de Porto Alegre em 1931, sendo contratado pelo Santos após se destacar pela Seleção Gaúcha. Posteriormente, encerrou sua carreira no Jabaquara.

Só falo uma ou duas vezes. Jogador não é idiota!

Os dois “Gradim’s”. Do lado esquerdo, em foto publicada no site do Milton Neves vemos o Gradim – “Francisco de Souza Ferreira” tratado aqui nesta postagem. No lado direito vemos o outro Gradim – “Adhemar de Oliveira”, que jogou pelo Santos e pelo Jabaquara, em foto publicada pelo site acervosantosfc.com.

Depois do Vasco da Gama, Gradim ainda voltou ao Bonsucesso e nesse período iniciou suas primeiras experiências como treinador enquanto ainda era jogador.

No final da carreira como jogador orientou o quadro juvenil que chegou ao tÍtulo carioca da categoria no ano de 1939.

Gradim permaneceu treinando o Bonsucesso durante um bom tempo antes de chegar ao Fluminense para desenvolver o mesmo trabalho nas categorias de base. Pouco depois foi aproveitado como assistente do técnico Zezé Moreira em 1951.

Com Zezé Moreira na Seleção Brasileira, Gradim assumiu o time principal do Tricolor das Laranjeiras em 1954. Em seguida trabalhou com Sylvio Pirillo até ser convidado como auxiliar técnico de Oswaldo Brandão na Seleção Brasileira.

Em 1957 foi para o Vasco da Gama também como auxiliar do promissor Martim Francisco. Assumiu o time principal em 1958 conquistando os canecos de campeão do Torneio Início, Torneio Rio-São Paulo e do Super-Campeonato Carioca.

Barbosa, Gradim e Almir.

Crédito: revista do Esporte número 115 – Maio de 1961.

Gradim também colaborou na preparação da Seleção Olímpica que foi aos jogos de Roma em 1960.

Fora o Bonsucesso, Fluminense e Vasco, Gradim também trabalhou no Bangu (RJ), Atlético Mineiro, Santa Cruz, Campo Grande (RJ) e Clube Náutico Capibaribe, além de um período no futebol do Equador e do Paraguai.

Olhar experiente, descobriu o centroavante Dario no Campo Grande, deu oportunidade para Almir “Pernambuquinho” começar sua carreira no Vasco e promoveu o meio campista Givanildo no Santa Cruz.

Gradim faleceu em razão de um edema pulmonar no dia 12 de junho de 1987, no Rio de Janeiro.

Crédito: revista Placar - 25 de novembro de 1977.

Crédito: revista Placar – 25 de novembro de 1977.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Lenivaldo Aragão e José Maria de Aquino), revista O Globo Sportivo, revista Manchete, revista Manchete Esportiva, revista do Esporte, revista Grandes Clubes Brasileiros, campeoesdofutebol.com.br, site do Milton Neves (por Rafael Serra), jogosdaselecaobrasileira.wordpress.com, netvasco.com.br, acervosantosfc.com.

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