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Manga, que nunca admitiu concorrência desde o tempo em que começou sua carreira Sport Club do Recife, não gostou nada quando ficou sabendo da contratação de Benítez:

– Estão loucos, pra que contratar outro goleiro comigo aqui?

Garantindo estar em perfeito juízo, o presidente do Inter Frederico Arnaldo Ballvé explicou que os 200 mil dólares por Benítez foi um investimento pensando no futuro, já que o veterano Manga não permaneceria para sempre.

Apesar do interesse do Grêmio e do Flamengo, o Internacional lutou para trazer o goleiro que segurou a Seleção Brasileira no último compromisso das eliminatórias, quando não passamos de um empate por 1×1.

José de La Cruz Benítez Santa Cruz nasceu em Assunção, capital do Paraguai, em 3 de maio de 1952.

Crédito: revista Placar – 22 de julho de 1977.

José de La Cruz Benítez iniciou sua caminhada no futebol defendendo os quadros amadores do Club Olímpia de Assunção em 1966.

Com boa estatura e muita agilidade, o jovem goleiro foi aproveitado no elenco principal pelo técnico Chema Rodríguez em 1971. No mesmo ano conquistou o título Sul-Americano Sub-20 pela seleção do Paraguai.

Preparado por Sinforiano Garcia, famoso guarda metas que defendeu o Flamengo na década de cinqüenta, Benítez logo tomou conta da posição e raramente ficava de fora do time.

Ídolo da torcida, o goleiro do Olímpia e da seleção andava nas ruas de cabeça erguida. Até suas despesas pessoais não eram cobradas pelo comerciantes locais, que se contentavam com autógrafos e fotografias ao lado do jogador.

Formação do Olímpia, campeão do Paraguai em 1972. Em pé: Pedro Molinas, Idalino Monges, Benítez, Tito Ramón, Sandoval, Crispin e Lorenzo Jimenes. Agachados: Américo Godoy, Carlos Diarte, Benício Ferreira e Evelino Vilalba.

Pela seleção do Paraguai, Benítez enfrentou a Seleção Brasileira no Maracanã em 1977. O jogo foi válido pela última rodada das eliminatórias e terminou 1×1. Crédito: revista Placar –  25 de março de 1977.

Campeão paraguaio nas edições de 1971 e 1975, o goleiro sofreu com insistentes contusões no começo de sua carreira. Em 1974 uma bursite no cotovelo direito o tirou do time.

No ano seguinte ficou dois meses afastado após uma ruptura nos meniscos do joelho direito, fatalidade repetida em 1976 no joelho esquerdo.

Convocado para o selecionado paraguaio que disputou as eliminatórias do mundial de 1978, Benítez despertou o interesse de alguns clubes do cenário brasileiro.

Plenamente consciente de que seria o reserva do lendário Manga, Benítez foi contratado pelo Internacional em 1977.

Impossibilitado de disputar os jogos da Taça Libertadores, pois já estava inscrito pelo Olímpia, Benítez estava feliz com os novos horizontes no futebol brasileiro.

Os goleiros do Inter em linda foto de J.B Scalco. Crédito: revista Placar – 2 de março de 1978.

Gilmar e Benítez. Crédito; revista Placar - 21 de abril de 1978.

Gilmar e Benítez. Crédito; revista Placar – 21 de abril de 1978.

Conforme publicado na revista Placar, o paraguaio assinou contrato com vencimentos definidos em 20.000 cruzeiros mensais no primeiro ano e 25.000 cruzeiros mensais no segundo ano.

Quando Manga deixou o Inter, deixou também uma seqüela terrível ao goleiro paraguaio. Com tantas cobranças e comparações, Benítez foi emprestado ao Palmeiras no mês de abril de 1978.

No Palmeiras, o goleiro paraguaio viveu o mesmo desafio que enfrentou no Internacional. Emerson Leão, assim como Manga, também nunca admitiu concorrência e era o titular absoluto do Palmeiras e da Seleção Brasileira.

Com Leão na Seleção Brasileira, Benítez disputou 24 jogos pelo Palmeiras. Foram 13 vitórias, 8 empates, 3 derrotas e 13 gols sofridos. Os números fazem parte do Almanaque do Palmeiras, dos autores Celso Unzelte e Mário Sérgio Venditti.

Com o término do empréstimo fixado para o mês de agosto, Benítez retornou ao Beira Rio e conquistou muitos títulos: Campeão brasileiro invicto de 1979 e tricampeão gaúcho em 1981, 1982 e 1983.

Crédito: revista Placar.

Crédito: memoriadointer.blogspot.com.br.

Ganhador da “Bola de Prata” da revista Placar em 1981, o paraguaio tinha tudo pra continuar como titular absoluto da meta colorada por vários anos. Mas um acidente de trabalho representou o fim de sua carreira.

Em um amistoso entre Alegrete e Internacional, disputado no dia 4 de dezembro de 1983, Benítez sofreu um grave impacto na cabeça com sérios reflexos em sua coluna cervical, o que o deixou imobilizado no gramado.

No lance, Benítez teve a cabeça atingida pelo joelho do atacante Celeni. O “efeito chicote” (quando a cabeça é atirada para trás e volta) ocasionou a imediata paralisia dos membros superiores e inferiores.

Ainda no gramado, Benítez foi atendido pelo médico do Internacional. Em seguida foi levado para o hospital da Santa Casa de Alegrete.

Crédito: albumefigurinhas.no.comunidades.net.

Em foto de J. B Scalco, vemos o forte quadro do Internacional no Beira Rio. Em pé: João Carlos, Benítez, Mauro Pastor, Falcão, Mauro Galvão e Cláudio Mineiro. Agachados: Valdomiro, Jair, Bira, Batista e Mário Sérgio. Crédito: revista Placar.

Horas depois, o médico e o goleiro deixaram Alegrete em um helicóptero do Exército. Desembarcaram em Santa Maria, quando um jatinho os levou até o Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre.

Após três meses de tratamento intensivo, o goleiro deixou o hospital ao lado da esposa amparado por uma cadeira de rodas.

A coragem demonstrada por Benítez no “Baita Chão” de Alegrete até hoje comove quem testemunhou o ocorrido. Apesar de todo o esforço envolvido em sua recuperação, Benítez voltou a caminhar, mas não conseguiu retornar aos gramados.

O choque ocorrido em Alegrete mudou os rumos na vida de Benítez e de Celeni. O atacante deixou o futebol depois da promessa de que caso Benítez não retornasse aos gramados ele também deixaria de jogar.

Benítez garante a sua Bola de Prata. Crédito: revista Placar – 1 de maio de 1981.

Premiação da Bola de Prata da revista Placar em 1981. Crédito: revista Placar- 15 de maio de 1981.

Benítez tentou seguir na carreira como treinador, mas acabou voltando ao Internacional para trabalhar como treinador de goleiros nas categorias de base.

Posteriormente, Benítez atuou como Diretor de Futebol do São José de Porto Alegre e mais tarde como empresário de jogadores.

Conforme publicado pelo site nilodiasreporter.blogspot.com.br, atualmente Benítez vive das economias proporcionadas por dois imóveis alugados em Assunção (Paraguai), além da aposentadoria do INSS.

Em 2013, 30 anos depois da tragédia, o ex-atacante Celeni foi até Porto Alegre para visitar o ex-goleiro do Internacional. Foi um encontro emocionante e cercado pela atenção da imprensa, dos fãs e dos familiares.

Benítez, o professor, ensina aos mais jovens os segredos da ingrata profissão de goleiro. Crédito: revista Placar –  27 de novembro de 1981.

Crédito: revista Placar – 16 de dezembro de 1983.

Créditos de imagens e informações para a criação do texto: revista Placar (por Emanuel Matos, Aristélio Andrade e Divino Fonseca), revista Manchete Esportiva, memoriadointer.blogspot.com.br, internacional.com.br, nilodiasreporter.blogspot.com.br, jogadoresdopalmeiras.blogspot.com.br, Almanaque do Palmeiras – Celso Unzelte e Mário Sérgio Venditti, albumefigurinhas.no.comunidades.net, site do Milton Neves (por Rogério Micheletti).

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